A sentinela que fica – Poema de Milton Rezende

By | 06/04/2021

Numa noite de chuva fria
eu havia saído para as minhas
pesquisas quando o encontrei.

O vento ventava forte
nas vigas velhas do casarão
e meus cabelos e minhas mãos
se emplastavam de teias de aranha.

Existe uma imensa solidão em mim
que me transborda e me faz percorrer
roteiros de silêncio e sem volta.

Meu encontro com a criatura proscrita
foi algo meio profético e enigmático
e na noite infestada de miasmas um
vulto cinza me falou em meio a sombras:

“Nada me prende a este cemitério
a não ser as dificuldades reais
de se transpor um corpo da sepultura.
Não me agrada nada esta arquitetura
mas há em mim esta herança maldita
que persegue minha família como uma sina.

As grades do muro e do portão de saída
são um limite e uma prisão fictícia e
nada me diferencia de você a não ser
a natureza das nossas dificuldades.
E o que mais nos aproxima é o estado
permanente da solitária decomposição
de nossas almas”.

E finalmente disse, já estertorando:
“O único elemento que nos distingue
é o estado de conservação da madeira,
nas tábuas já podres do meu caixão
e nas envernizadas que te aguardam”.

Milton Rezende in “A Sentinela em Fuga e Outras Ausências”

http://www.miltoncarlosrezende.com.br/

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