A velha branca e o bode vermelho – Gilberto Freyre

Onde hoje está o Country Club de Recife, na estrada dos Aflitos, perto do antigo ponto de parada do Arraial, foi, até os princípios do século, um dos mais vastos sítios da cidade. Tão grande que, indo do ponto de parada ao sobrado amarelo onde há trinta e tantos anos se instalou o Clube Náutico, aprofundava-se até as areias frouxas do Rosarinho: célebres areias por onde dificilmente rodavam carros de cavalo.

Dominava o sítio velha casa-grande de quatro águas, de janelas com guilhotinas, de portas pintadas de azul; e cercada de muitas árvores de fruto, algumas gordas como as jaqueiras e todas fecundas, nenhuma maninha; jabuticabeiras, goiabeiras, araçazeiros, cajazeiros, pitombeiras, oitizeiros, pitangueiras, abacateiros, sapotizeiros e não apenas mangueiras, bananeiras e cajueiros. Era um sítio quase sem fim; e seu arvoredo quase uma mata.

Morava na casa com três parentas pobres certa velhinha que conheci já muito velha e com fama de muito rica. Mas que possuía apenas alguma fortuna em ouro e em terras, além de algumas vacas e cabras de leite. Quando eu e meus irmãos a conhecemos, teria talvez seus oitenta e tantos anos, mas seu tamanho era o de uma menina de oito. Era quase cega e andava, como se diz pitorescamente em Pernambuco, engomando, isto é, arrastando os pés à maneira dos ferros de engomar sobre o macio das roupas ou dos panos. Era branca, branquíssima como que coberta toda de neve: toda e não apenas o cabelo. A pele muito branca. As mãozinhas, duas plumas brancas que quando faziam festa a um rosto de menino já pareciam mãos de fantasma. O vestido sempre branco. Parecia a velhinha assim tão branca com o retrato de Leão XIII que ela própria conservava no quarto dos santos. Só que seu sorriso era outro e seu cabelo, de mulher.

As terras eram aquelas: aquela imensidade de arvoredo bom e útil que, durante o ano inteiro, dava à sua senhora do que viver, tantas eram as quitandeiras, algumas ainda negras da Costa, chamando todo branco de ioiô, toda branca de iaiá, todo menino de ioiozinho, com xales vermelhos, amarelos, azuis, sobre os cabeções e que ali iam encher seus balaios e seus tabuleiros, de fruta doce e madura. De cachos de pitomba e de cachos de bananas. De oiticoró, de caju, de jabuticaba, de macaíba, de groselha, de abiu, de juá, de araçá, de goiaba, de cajá, de sapoti, de pitanga, de carambola, de coração-da-índia, de ingá, de jambo, de tamarindo, de jaca mole, de jaca dura. De manga carlota, manga sapatinho, manguito. De todas as boas frutas, hoje raras, porque era então famoso o Recife. Pois ainda não se fizera sentir o imperialismo da manga-rosa ou do abacaxi sobre a arraia-miúda mas fascinante-mente diversa de frutas modestas mas sólidas e gostosas: espécie da classe média do reino vegetal alongada em numerosa arraia-miúda.

O ouro, conservava-o a velhinha menos em moedas do tempo do rei velho, seu senhor, do que em joias, medalhas, trancelins dos tempos da Colônia. E essas joias nem as usava a velhinha nem deixava que as sobrinhas — verdadeiras marias borralheiras — as usassem. Eram joias das suas santas e dos seus santos.

Principalmente, do seu, só seu, puramente seu, Menino Jesus: imagem rara do Salvador do Mundo quando criança e quase do tamanho de um menino de verdade. Imagem que lhe viera de Portugal. E cujos cabelos eram, com efeito, cabelos de meninozinho louro que morrera anjo: parece que um tio-avô da velha. Feita a capricho era a imagem anatomicamente perfeita. Parece que tinha até um umbigo, que não devia ter. E um dos prazeres da iaiá velha, e já tão cega que dos seus olhos se podia dizer, com o poeta, que eram olhos que tinham passado às pontas dos seus dedos, era levantar com muito mistério o vestidinho todo de rendas finas e cheio de fitas azuis do seu Menino Jesus para que nós outros, meninos de carne, víssemos que ao do céu, ali adorado, mimado e festejado como nenhum menino Jesus o foi mais na terra, não faltava piroca: uma piroquinha cor-de-rosa. Uma piroquinha em que as pontas dos dedos da velha tocavam com a sua leveza de plumas, fazendo-lhe uma doce festa.

Não tendo neto, aquela velhinha, com idade de avó, como que fizera da sua devoção a Jesus Menino não só o culto de sua preferência de católica que se confessava, comungava e jejuava dentro dos rigores da ortodoxia — só não indo à missa todos os domingos por não lhe permitirem essa correção cristã as doenças de velha — como o substituto do netinho que lhe faltava para lhe alegrar o fim da vida, lhe continuar o nome e lhe herdar o ouro e as terras. Daí, talvez, aquela preocupação de mostrar que sendo a imagem do Filho de Deus era também de menino capaz de se tornar homem e homem procriador. Mas isto é reflexão minha de hoje e não daquele tempo.

Naquele tempo o que me deslumbrava era ver um Menino Deus tão cheio de joias e tão sobrecarregado de ouro. Os outros santos também tinham suas jóias. E a santa Mãe do Menino Deus mais brincos e cordões de ouro do que qualquer outra das santas: sant’Ana, santa Luzia, santa Cecília. Nem a divina Senhora, porém, chegava a ter metade do ouro, das pedras preciosas, dos brilhantes que rebrilhavam sobre a doce figura do Meninozinho Jesus guardado, com os outros santos, num largo e alto santuário todo dourado por dentro e que devia ser de jacarandá roxo. Fechava-se todo, como um armário de guardar roupa. Não tinha vidro nenhum. Só via as imagens quem a dona quisesse; e não qualquer curioso que entrasse no quarto dos santos. A chave guardava-a a velhinha como o objeto mais precioso que a acompanhava no mundo. Mais de uma vez vi-a tomar seu chá ou comer seu beiju acariciando a chave. Chave não de cofre mas de santuário.

Muito menino então, não saberia eu dizer hoje se era a velhinha boa ou má para as três sobrinhas pobres que viviam como ela no casarão da estrada dos Aflitos. Casarão que frequentei com meus irmãos; e do qual tantas vezes voltamos para casa com as mãos cheias de frutas que nos mandara dar a velha com sua voz fanhosa mas autoritária. Essa voz ainda hoje a ouço: voz meio do outro mundo, meio deste. Como ainda hoje sinto as pontas dos dedos da velhinha — as mesmas que acariciavam a piroca da imagem do Menino Jesus — fazendo festa ao meu rosto; e dando-me aquela sensação de plumas a que já me referi.

Lembro-me vagamente de que se dizia da velhinha: que era o mesmo que cobra para as três moças suas sobrinhas — todas tão brancas quanto ela — às quais tudo negava, menos a casa e o gozo do sítio; e que, por isto mesmo, as coitadas se esgotavam em costurar para fora e em fazer doces para as negras venderem em tabuleiros na cidade.

Talvez exagero e até invenção de vizinho. Talvez não fosse tão crua a velha iaiá de fala fanhosa. O zunzum da vizinhança é que fazia dela quase uma moura torta de histórias da carochinha. Quase uma senhora avó ou uma senhora velha da história do “Água, meus netinhos!”, “Azeite, senhora avó!”

O que parece é que todo o afeto de que a velhinha era capaz no fim da vida ainda era pouco para “seu adorado menino” que era o Jesus. Para o seu santo ela vivia mais do que para o mundo. Ou para as pessoas ou coisas da terra. E como as sobrinhas eram pessoas da terra, não sabia a velha retirar do Menino Deus joia ou brilhante nenhum, que diminuísse o esplendor do culto ao Filho de Deus em benefício de filhos simplesmente dos homens. Daí, talvez, serem as três moças obrigadas a costurar e a fazer doce até tarde da noite, vivendo numa casa tão cheia de ouro e de pedra preciosa. Tudo, porém, adorno de santo. Coisa sagrada que a velha não se julgava no direito de vender em benefício das sobrinhas.

Quem sabe se não foi esta a razão de ter um dia a velhinha se assombrado com a figura de um bode vermelho ou encarnado ou escarlate, como bicho do apocalipse? Quem sabe se Deus, o Pai, desaprovando o culto não digo excessivo, mas exclusivo, à imagem do seu Divino Filho, e a negligência da tia pela sorte daquelas três sobrinhas pálidas, também filhas de Deus, embora simples pessoas da terra, não permitiu ao Maligno aparecer naquela santa casa, só para sacolejar o coração da velha sinhá e abrandá-lo? Quem sabe se não foi esta a razão de ter o próprio Espírito das Trevas se sentido com ânimo para aparecer à velhinha sob a forma de um bode terrivelmente feio e chifrudo, ruivo e barbado?

O certo é que estava um dia a tranquila velhinha, ao entardecer, sentada matriarcalmente à cabeceira da mesa depois do jantar — pois à moda dos antigos, jantava sempre cedo, com dia ainda claro — quando de repente, que há de lhe aparecer? Um bode hediondo. Um desses misteriosos bodes que há séculos se supõem enviados de Satanás aos homens esquecidos de Deus e do próximo. Escarlate como se tivesse saído de um banho de sangue. Inhaca de enxofre junto à de bode.

Grita a velha. Acodem as sobrinhas. Também as negras do fogão e as quitandeiras, todas fazendo o pelo-sinal, agitando xales azuis contra o perigo vermelho. Nenhuma porém consegue ver a horrenda figura. O terrível bode diferente dos outros só o enxergara a velha quase cega.

Só o vira a velhinha. E a visagem deixou-a em tal sobrosso que não houve quem lhe aquietasse o espírito de devota do Menino Deus e de todos os santos, desrespeitada daquele modo bruto pelo Maligno sob a forma de bode tão nojento. Porque a inhaca do bode, também alguma das negras diziam ter sentido. Era de bicho imundo. Parecida talvez com a de Exu.

Naquela tarde acenderam-se na casa velas ao Menino Deus e aos santos e não apenas luzes de lamparina de azeite como nos dias comuns. Velas que arderam a noite inteira. Queimou-se incenso. Cantou-se ladainha. Rezou-se longamente. Rezas contra o Maligno. Orações pelas almas penadas.

E na manhã seguinte, um frade do Carmo, espanhol magro e pálido, apareceu na casa mal-assombrada, chamado pela velhinha. Derramou água benta, pela sala de jantar e pelos quartos. Pelo próprio corredor. Aconselhou penitências. Missas foram encomendadas pela velha ao convento inteiro. Muitas missas. Creio que até as sobrinhas fizeram promessas a favor da tia.

Durante os anos que ainda viveu a velhinha, cada dia mais devota do seu Menino Deus sobrecarregado de ouro, embora menos esquecida das suas três sobrinhas vestidas de chita e a coserem para fora como umas desadoradoras, não voltou nenhum bode misteriosamente escarlate a aparecer na casa sossegada e tristonha da estrada dos Aflitos. Só os bodes e cabras comuns. Mas o certo é que durante esse resto frio de vida a velhinha não fez senão definhar e secar. Secou tanto que ao morrer não precisou de caixão maior que caixão de menina. Se fosse pobre teria lhe bastado para se enterrar uma caixa de papelão de boneca.

Duas das sobrinhas da velha rica morreram, logo depois dela. A casa foi ficando a mais triste das casas da estrada já chamada então dos Aflitos.

A velha, afinal, não era rica: apenas remediada. Rico era só o Menino Deus. O seu rico menino de mulher sem filho, de velha sem neto, de tia desdenhosa de sobrinhas apenas mulheres.

Até hoje não se explica aquela aparição de bode misterioso em casa tão sossegada e tão temente a Deus. Talvez um alarme, saído do próprio subconsciente, para que a velha dividisse ainda em vida o ouro do santo inutilmente rico com as sobrinhas terrivelmente pobres. Mas isto é reflexão de homem de hoje: destes dias pós-marxistas e pós-freudianos que atravessamos.

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