Alemanha para principiantes – João Ubaldo Ribeiro

O que está neste apêndice não foi pesquisado objetivamente e se baseia em minhas impressões como visitante mais ou menos assíduo da Alemanha, além de ex-morador de Berlim, onde vivi quinze meses. Não fiz pesquisa nenhuma para escrever o que se segue e meu compromisso com a verdade, o que lá seja isso, se limita à sinceridade de minhas impressões e à realidade dos acontecimentos a que me refiro. Tampouco defini método algum para estas notas, alfabético, hierárquico, temático ou qualquer outro. Fui escrevendo o que me vinha à cabeça e que acredito ser do interesse de pelo menos alguns principiantes em matéria de Alemanha. Portanto, não leve estas dicas a sério demais. São somente palpites de um compatriota que tem vivência da Alemanha e cujo olhar pode ser muito diferente do de outros.

A PALAVRA BITTE — A única palavra absolutamente indispensável na Alemanha é essa. Deve ser pronunciada com o “t” bem claro e não disfarçado pelo “tch” de muitos brasileiros. Serve para tudo, embora seja costumeiramente apresentada apenas como “por favor”. Nada mais longe da verdade. Um bitte bem dado, pode quebrar o galho para “com licença”, “desculpe”, “o quê?”, “um desses para mim também” e inúmeros outros casos, levando-se em conta os gestos que podem acompanhá-lo. Quando em dúvida, diga bitte, que, numa versão desmunhecada, serve até para “audácia do bofe!” ou, numa versão romântica, “deixe-me ver como você é linda”. O uso criativo do bitte já foi suficiente para um amigo meu que não falava nada de alemão namorar com uma alemã vários meses. Imagino que ele dizia também outras coisas, mas na minha presença era somente bitte.

HÁ MUITO O QUE VER— Por alguma razão que não sei analisar, os brasileiros com quem converso, mesmo os mais bem-informados, acreditam que a Alemanha é um país onde tudo é altamente moderno e modernoso e não há nada para se ver. Na realidade, a Alemanha é um país lindíssimo, desde as metrópoles e cidadezinhas ajardinadas, até uma Natureza rica e diversificada. Beleza natural é o que não falta e beleza construída pelo homem tampouco. A Alemanha tem alguns dos mais espetaculares museus do mundo. Berlim, principalmente depois da reunificação, é uma festa de museus. O Zoológico de Berlim vale pelo menos um dia de visita. Um dia não dá para ver tudo direito, mas é suficiente para embasbacar. Quem gosta de Zoológico (e há o Aquário adjacente também, um deslumbramento) pode programar o dia inteiro lá. E as cidades históricas alemãs, onde se sente a Idade Média convivendo graciosa e discretissimamente com a mais completa modernidade tecnológica? E passar só de curiosidade por uma igreja de valor arquitetônico e histórico, entrar e dar de cara com um concerto de órgão arrebatador, como aconteceu várias vezes comigo? E a catedral de Colônia, que sozinha vale a viagem e que emociona indescritivelmente. As feirinhas nas cidades pequenas. A música tocada em parques e jardins. A alemãozada enlouquecida pelo calor e o sol do verão, todo mundo nu mergulhando na água ou praticando um esporte qualquer igualmente sem roupa — e eu posso garantir, há o que apreciar de novidade, quando se vê pela primeira vez gente nua jogando alguma coisa. Enfim, há muito para ver e, claro, com a Copa rolando, não vai dar tempo.

JANTAR TARDE É COMPLICADO — Com exceção de Berlim, onde se encontra de tudo (inclusive farinha de mandioca de Feira de Santana, que eu comprava numa lojinha da rua Kant), convém jantar antes das nove horas, mesmo nas cidades grandes. Na maior parte das cidades os restaurantes passam a não servir a ninguém depois de umas nove horas, nove e meia da noite. Do contrário, ou o faminto come o travesseiro do hotel ou baixa a um hospital de emergência, alegando queda na curva glicêmica ou qualquer coisa assim. Talvez arranjem uma sopinha para ele.

QUEM FALA INGLÊS NÃO QUEBRA O GALHO EM QUALQUER LUGAR

Decididamente não. A maior parte dos alemães não fala inglês e, quando fala, às vezes esconde isso. Geralmente é uma grave mancada, por exemplo, entrar numa loja falando inglês de primeira. Suspeito que a maior parte dos alemães, a não ser os que estejam precisando desesperadamente de fregueses, reagirá torcendo o nariz e dizendo que não entendeu nada. Existe o teste da vaca, que eu inventei, mas ele só pode ser usado com grande cautela. Eu fazia o teste da vaca com minha mulher. Entrávamos na loja, tentávamos inglês, eu via que a atendente estava fingindo não entender e aí eu dizia alto a minha mulher, em inglês. “É, vamos embora, porque esta vaca não entende inglês.” Geralmente ela não resistia e negava em inglês ser uma vaca. Raramente saía uma compra depois disso, mas eu ficava vingado. É sempre conveniente perguntar em alemão se a pessoa fala inglês. Assim mesmo, a resposta sai mal- humorada e, invariavelmente, mesmo de um sujeito que passou a infância nos Estados Unidos e se formou em Harvard, se ouve que o inglês falado por ele ou ela é muito pouco.

DUAS OU TRÊS PALAVRAS E EXPRESSÕES ÚTEIS

Entschuldigung ou Verzeihung — “Desculpe”, mas pode ser bitte com cara de choro.

Wie viel? — “Quanto?”, mas pode ser bitte esfregando o indicador no polegar ou contando notas invisíveis.

Zahlen ou Rechnung — “A conta”, mas pode ser bitte fazendo um gesto de quem está escrevendo no ar.

Toilette? — “Banheiro?”, mas, se você tiver cara de pau, pode ser bitte com as pernas trançadas ou gestos até mais explícitos.

Offen oder geschlossen? — “Aberto ou fechado?”, mas pode ser bitte com jeito de quem está querendo entrar.
Wir gucken — “Estamos só olhando”, mas também pode ser bitte, com um gesto panorâmico para os objetos expostos e apontando os olhos.

Telephon? — “Telefone?”, mas também pode ser bitte com gestos de quem telefona.

Danke — “Obrigado”, que é respondido com bitte.

Apotheke — “Farmácia” (não confundir com Drogerie, que vende produtos que não precisam de receita), que também pode ser bitte com cara de dor ou enjoo e fazendo sinal de que quer ingerir uma pílula, ou coisa assim. Apotheke pode ser facilmente lembrada pelos brasileiros, quando eles atentarem para o fato de que uma palavra antigamente usada no Brasil para designar “farmácia” tem a mesma origem. Essa palavra é “botica”.

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Enfim, a despeito de sua riqueza e precisão, o essencial da língua alemã para visitantes breves está no uso adequado da palavra bitte. Toma um pouco de tempo para estudar suas delicadas nuances, mas facilita muito a comunicação.

LÍNGUA — Os alemães não costumam achar muita graça em piadas sobre sua língua. Nem gostam de que a considerem muito difícil. É difícil, sim, e, como já comentava Mark Twain, as exceções à regra são muitas vezes mais numerosas que os casos em que é aplicada. A única razoável defesa que se pode fazer é quanto às palavras quilométricas que a gente acha que jamais conseguirá pronunciar. Consegue, sim, é só lembrar que, na verdade, não são propriamente palavras longas, mas aglomerados que outras línguas preferem separar. É como se, em português, a gente escrevesse “donadecasa”, “cartóriodoregistrocivil”, ou “professoradjuntodedireitotributário”. Mas a língua alemã tem suas esquisitices mesmo e não é impossível você ler uma frase cuja tradução literal seria “ele com uma medicotalentosa jovem no tempo do Kaiser laborou”, o verbo “colaborar” dividido em dois, tipo de coisa que acontece muito em alemão. De resto, há numerosos dialetos, aos quais se sobrepõe a língua franca, o chamado Alto Alemão ( Hochdeutsch, que na verdade ninguém fala na intimidade, é somente a língua da imprensa e de quem se dirige ao público em geral). Eu mesmo tenho um amigo alemão que diz que se fala uma língua diferente em cada casa. Mas dizer mal da língua alemã não é uma boa ideia.

PAPO DE HITLER PEGA MAL— Assim como os americanos em geral não gostam de falar, por exemplo, no assassinato do presidente Kennedy e os portugueses não gostam de falar em Salazar, pega muito mal ficar falando em Hitler ou no nazismo, o que até irrita seriamente alguns alemães. Acaba sendo grossura e pode ser visto como agressivo até mesmo contar piadas envolvendo Hitler ou o nazismo em geral. Os alemães acham isso ainda mais sem graça do que falar mal da língua deles. A antiga divisão do país é também um assunto que pode tornar-se desagradável ou incômodo.

COISAS QUE NÃO SE FAZEM— Falar alto. O barulho de uma churrascaria brasileira será inconcebível na Alemanha. Não se fala alto em público. Também não se olha para ninguém em público. Os circunstantes, mesmo apinhados num ônibus, dificilmente se fitam. Tocar nas pessoas também não é comum como aqui, embora a beijoquinha nas mulheres seja de modo geral aceita como cumprimento às vezes logo na apresentação, mas raramente. Mas nada das massagens que muitos brasileiros costumam aplicar nos outros, enquanto conversam. Não se pode também ser impontual, é considerado grossura, desconsideração e falta de educação. Quando, num ponto de ônibus, estiver escrito que o 33 passará às 17h26, pode apostar que será exatamente isso que acontecerá. Trem que se atrase ou adiante alguns segundos é quase vaiado. Por sinal, viajar de trem pela Alemanha é ótimo e barato. Os remediados e mesmo os ricos viajam na segunda classe, que é bastante confortável, tanto assim que a primeira classe é bem pouco ocupada. Deve-se temer apenas a armadilha da bagagem. O trem só para um ou dois minutinhos na estação e não há carregadores. Por isso, se alguém pretende viajar de trem, é melhor conseguir um jeito de deixar a mala grande guardada em algum depósito de bagagem pago e levar uma pequena, porque carregar a grande para cima e para baixo, ainda mais na confusão do embarque e desembarque, é um sufoco respeitável. Sujar a rua ou mesmo cuspir na calçada não só é um pepino brabo (o máximo tolerado é guimba de cigarro) como dá vergonha em quem o faz. Furar sinal de trânsito nem pensar, embora, se houver um pedestre na frente, em quaisquer circunstâncias, os carros parem sem que os motoristas reclamem.

BIRITA — Há quem sustente que há basicamente dois povos alemães distintos, coabitando as mesmas almas individuais: o alemão sóbrio e o alemão cheio de cerveja. De fato, a diferença é espantosa, desde os decibéis da conversa até a expansividade. Em relação aos brasileiros, deve ser observado que a noção de “chorinho” em qualquer bebida é profundamente repulsiva ao senso de ordem alemão, que nem entende quando lhe explicam o que é e, se chega a entender, passa a considerar-nos um povo ainda mais primitivo do que ele imaginava. Se bem examinados, os copos dos restaurantes vêm com a marca da medida certa da bebida a ser servida, em mililitros. A mesma coisa as tulipas de chope (sim, alemão bebe chope misturado com limonada e faz outras coisas que se imaginaria impensáveis na pátria da cerveja). Não adianta querer apressar a tirada do chope. O bartender alemão faz a “ordenha” da chopeira devagar, esperando o líquido chegar precisamente à marca do que deve ser servido. Aí ele providencia a cobertura correta de espuma e traz ao freguês uma tulipa de chope que podia servir de padrão para qualquer instituto de pesos e medidas. Dirigir depois de beber dá uma bela dor de cabeça ao motorista, tanto assim que o esquema do sorteio é amplamente praticado. O “sorteado” não bebe na festa, pois vai dirigir o carro que levará o grupo de volta a suas casas. Uísque é caro no varejo, mas não tão caro assim nos supermercados, onde é vendido livremente. Sair bebum e cambaleante pode dar cana.

HOMENS E MULHERES— Ao contrário da opinião voluntarista de muitos brasileiros, as mulheres alemãs não são taradas e fazem qualquer negócio para desfrutar do corpo bronzeado do melhor amante do mundo, que é, como sabemos, o brasileiro. Quem quiser que tome ousadia com a alemã pelada que está tomando sol e lendo uma revista, na grama em torno do lago. É quase certo que logo participará, com um papel não muito invejável, numa performance da Polizei inesquecível, pois a Polizei não vai logo batendo, mas, se precisar, bate rijo. Pegar mulher por lá é a mesma coisa que aqui, respeitadas as características culturais, mas o lance é ser apresentado, levar para jantar, papear e ver se vai adiante, mais ou menos como aqui mesmo. Quanto aos homens, a situação é diferente, pois grande número deles é convencido, até pela propaganda oficial do Brasil, de que as brasileiras andam nuas e dão imediatamente a quem lhes pedir, sem distinção de cor, credo ou posição política. Brasileira que quiser se precatar deve manter distância de qualquer alemão cheio de chope. Se encarar, pode ter certeza de que ele mete a mão no peito só para dar início à conversa — quebrar o gelo, como se diz.

Rio de Janeiro, 2006

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