Alice no Rio – Crônica de Paulo Mendes Campos

Um dia, se o coração não espocar antes do tempo, escreverei uma história para crianças: “Alice no País dos Cariocas”.

Alice chegará por via aérea e, naturalmente, ficará encantada com a exuberância da paisagem e com os aviões que vão passar tirando finos em seu quadrimotor. No Galeão, será recebida por um representante do Departamento de Turismo e Certames da Prefeitura, chamado dr. Brasiliano Brasileiro do Brasil, um general de pijama, metido mesmo em um pijama cheio de galões, um bispo auxiliar, sem esquecer, last but not least, o sr. Herbert Moses, que a saudará naquele inglês ao mesmo tempo manco e fluente, cometendo diversos trocadilhos em torno das palavras Wanderland e Wondertown, País das Maravilhas e Cidade Maravilhosa.

Deixando de automóvel o aeroporto, a menina perguntará ao dr. BBB se os urubus e o cheiro da Favela do Esqueleto não prejudicam um pouco o renome do turismo. Brasiliano Brasileiro do Brasil, public relations de inesgotáveis recursos, responderá em tom confidencial que se trata de um item secreto e estratégico na Defesa do Atlântico Sul. “Como eu sou mesmo boba”, exclamará Alice; “devia ter pensado isso antes”.

O quarto do hotel reservado à estrangeirinha será um amor. Das prateadas torneiras do esplêndido banheiro colorido jorrará, em vez de água, um som subterrâneo e melancólico. Alice achará great tomar o seu banho com suco de uva, pois logo naquele dia faltou água mineral na praça.

A primeira refeição de Alice no País dos Cariocas constará de feijoada completa, da qual darei no meu livrinho uma descrição igualmente completa, a fim de justificar o espanto da garota ao ter de enfrentar, assim de saída, esse delicioso, mas tão estranho, prato nacional. Ela ficará morrendo de fome o dia todo.

O dr. BBB pedirá gentilmente que ela escolha entre dois programas: uma visita oficial, mas não formal, ao presidente da SURSAN, ou uma visita formal, mas não oficial, ao sr. prefeito. Alice, é claro, responderá com um bocejo que é a mesma coisa, sendo, portanto, conduzida ao gabinete do prefeito. Este a fará esperar duas horas, mas justificará plenamente o atraso: estava tentando fazer uma ligação telefônica na hora do resultado do jogo do bicho. “Nas outras horas, é mais fácil falar no telefone?” — indaga a visitante. “Não, é a mesma coisa” — responde o prefeito com tristeza. Em seguida, colocarei, data venia, na boca do sr. prefeito uma explanação minuciosa sobre o jogo do bicho. Truque literário.

Despedindo-se de s. exa., Alice percorrerá os recantos da cidade considerados pitorescos ou instrutivos pelo dr. Brasiliano Brasileiro do Brasil: o Manekinho de Botafogo (por causa daquela aguazinha), as enfermarias da Santa Casa, os principais buracos urbanos e suburbanos, a Casa de Rui Barbosa (He was a big friend of your people, doutrinará o dr. BBB), a Gaiola de Ouro (big discursos), o mausoléu da praça da República, e o palácio que não ousa dizer seu nome (situado no fim da praia do Leblon). A menina pedirá para dar um passeio de lotação e será atendida.

Ao fim da tarde, as Pioneiras Sociais lhe oferecerão um chá na piscina do Copa, sob o patrocínio de Madame Gato, née Jabberwocky. Um colunista chamado Jeff Thomas estará presente, e de chapéu na cabeça, como o chapeleiro no mad tea-party. Tudo lindo.

À noite, Alice será levada a uma emissora de televisão, onde será entrevistada por Al Neto e seu cachimbo apagado. Este fará à menina umas perguntas de corar um telespectador de pedra. Duas delas, no entanto, são publicáveis, e aqui as forneço: 1) “My dear Alice: você esteve no País das Maravilhas, mas soube por acaso, darling, que já estive várias vezes na Maravilha dos Países, os Estados Unidos do Benjamin Franklin, de Ford, de Jane Mansfield, de Rockefeller, de Elsa Maxwell?”; 2) Me diz, my little honey, se você fosse ainda uma potranquinha (com o perdão da palavra um pouco forte, mas acontece que sou do Sul, tanto aqui, quanto nos States), quem você levaria, my rosy rutabaga, para uma ilha deserta: Mickey Mouse (pausa, sorriso inteligente, audaz, malicioso, piscadela para a câmara)… ou Marlon Brando?”

Findo o programa, presenteada com um corte de casimira nacional, ela seria convidada, pelo Al Neto, a mandar um beijo para milhares de seus amiguinhos do Brasil. Mas não mandaria.

À noite, a menina seria levada a um inferninho de Copacabana; o curador de menores entra e acaba com a minha história. Ou talvez eu a faça sofrer, primeiro, um acesso de tosse, provocada pela fumaça dos cigarros; depois, dormir de tédio e sonhar uma cidade com água dentro dos canos, ruas pavimentadas, praias limpas, trânsito em ordem, gente cordial, sem favelas, miséria, barulho, mau cheiro, enchentes, burocracia.

Ou desisto de escrever esse livro monótono, que iria servir apenas para os pais de crianças teimosas: “Ou vais imediatamente para a cama, seu moleque, ou eu te leio a história Alice no País dos Cariocas”.

Estou decidido: a minha história de Alice não presta; vou é escrever as Aventuras do filho de Jeca Tatuzinho.

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