Amoral como um bichinho de avenca – Crônica de Nelson Rodrigues

By | 14/09/2021

Uma madrugada, saio da Grande Resenha da TV Globo e passo no Antonio’s. Levava comigo a fome da madrugada e sonhava com um bife. Entro e dou de cara com o Aloysio Salles. Ao me ver, ele ergue o gesto e faz esta saudação parnasiana: — “Tudo é um domingo de regatas!”. A exclamação soou nostálgica como um apito de trem na distância noturna.

O Antonio’s estava apinhado. Mas ninguém entendeu o súbito e diáfano “domingo de regatas”. Só eu entendi. E houve, ali, entre mim e o amigo, uma compreensão fulminante e total. Aloysio falava o idioma da memória, que eu conhecia e os outros não. A geração do Antonio’s tem pouco passado.

Para a rapaziada de hoje, o Pavilhão Mourisco deixou de ser paisagem, deixou de ser domingo, e repito: — o Pavilhão Mourisco é uma linha de ônibus. Aloysio pôs diante dos meus olhos um translúcido domingo de soneto. Eu via de novo o Pavilhão Mourisco. Homens de fraque e bengala; e os chapéus inverossímeis das mulheres.

No “domingo de regatas”, a mulher era mais chapéu do que vestido. Não sei se me entendem. Ah, o que as mulheres levavam na cabeça por toda a Belle Époque. O sujeito não via o rosto, a beleza, os dedos e os anéis. Não. Só via o chapéu e a imitação de uvas, cerejas, ameixas, que vinha por cima. Essa natureza-morta fascinava inclusive os velhos.

Falo do “domingo de regatas” e, no entanto, vejam vocês, o que me interessa é o “domingo de missa”, de uma beleza muito mais antiga. Eu não vou à missa, isto é, quase não vou. De vez em quando, porém, sou tocado pela graça do domingo. E, então, levo à primeira igreja do caminho a minha fé envergonhada e relapsa.

Foi o que aconteceu, no último domingo. Entre parênteses, não sei se foi Pio XI (foi Pio XII, sim) que viu Deus. Estava num jardim e viu, fisicamente, Deus. Lembro-me de que o Paris-Match fez, a propósito, uma reportagem de dez ou doze páginas. Ora, não me espanto que alguém, papa ou não, veja Deus. O que me assombra, realmente me assombra, é que Deus não seja visto, a toda hora e em toda parte por todo mundo.

Quanto a mim, tenho esta certeza obsessiva: — eu hei de vê-Lo. Ele é alguém tão pessoal, plástico, tangível como Victor Hugo, Deus com as barbas de Victor Hugo, as sobrancelhas de Victor Hugo, sobrancelhas tão ásperas e eriçadas como as cerdas bravas do javali.

Volto ao meu “domingo de missa”. Entro na igreja em pleno sermão. Está falando um jovem padre. Ah, quando estou na igreja, e vejo o sono dos círios nos altares, e o frêmito das rezas, sinto angústias tremendas. Há em mim o despertar de velhas culpas e a memória de não sei que abjeções.

Começo a ouvir o jovem. E que diz ele? Diz o seguinte: — “Eu não aceito mais a confissão de criança. Criança não peca”. E repetia, crispado de certeza fanática: — “Criança não peca”. Não esperei nem mais um minuto. Criança não peca. Com um piparote, ele derrubava todas as culpas infantis.

Doeu-me que alguém visse na criança um ser mínimo e tão amoral como um bichinho de avenca. Vim para a rua, entrei num café. Pedi ao garçom: — “Carioquinha”. E, mexendo o café, tinha a sensação de que o sermão degradara a criança. Se é verdade que um menino está isento do bem e do mal, então é um pequenino canalha.

Lembro-me de coisas que eu fazia, aos oito, nove anos, e que me causaram lesões de sentimentos ainda não cicatrizadas. Um dia, dei um tapa num menino. Ainda tenho o seu nome: — Ernesto, filho da lavadeira. (A lavadeira, bem velhinha, era cega de um olho. Certa vez, eu a vi discutindo com uma freguesa. A outra chamara a velha de “mulher”, “essa mulher”. A lavadeira pulou: — “Mulher é a senhora!”. Foi presa. Ao voltar do distrito, soluçava na rua: — “Eu não sou mulher! Eu não sou mulher!”.) Mas, como eu ia dizendo: — dei na cara do garoto.

Dar na cara. Não sei se nos outros povos e nos outros idiomas a bofetada tem a mesma transcendência. Mas, para o brasileiro, a bofetada é sagrada. Criei-me ouvindo o adulto dizer: — “Se alguém me der na cara, eu mato, mato!”. E a minha mão estalou na cara do filho da lavadeira. Depois, num circo, vi o mesmo som quando os palhaços se esbofeteavam no picadeiro. Mas eis o que eu queria dizer: — essa bofetada marcou-me
fisicamente.

Fui varado por um sentimento de culpa que ainda hoje, quase meio século depois, me persegue. De vez em quando eu começo a me sentir um pulha. Sofro como um réu. Sou réu, mas de que, meu Deus? E, de repente, há um clarão interior e vejo tudo. É a bofetada que ainda está em mim, é culpa que não passa. Eis o que aprendi no episódio infantil: — é melhor ser esbofeteado do que esbofetear.

Antes de passar adiante, desejo notar que a consciência infantil tem um dramatismo que nós, adultos, já perdemos. Dois dias depois do sermão recebo uma carta quase anônima. Digo “quase” porque a senhora (era uma senhora) assinou apenas com as iniciais. Contou que era minha vizinha no tempo em que eu morava na travessa Angrense, em Copacabana. E deu a idade: sessenta anos.

Veremos, em seguida, como a idade é, no caso, um dado fundamental. Imaginem que esta senhora é uma católica, digamos assim, de berço. Nunca, em momento nenhum, sua fé conheceu uma dúvida. E há dez, doze ou quinze dias, ela entrou numa igreja para se confessar. O padre que a atendia habitualmente, velhinho e santo, estava morre, não morre. Teve que recorrer a um outro, salubérrimo e progressista.

E não imaginava que ia passar por uma dessas experiências de vida que ninguém esquece. Começou a falar. O confessor ouvia só. Houve momentos em que a pobre senhora imaginou que o outro estivesse dormindo. E, súbito, o padre pergunta: “Que idade tem a senhora?”. Disse, espantada: — “Sessenta”. O outro insiste: — “Sessenta? A senhora disse sessenta?”. Percebeu que o padre ia num crescendo de irritação. Ele continua: — “E a senhora vem pra cá com sessenta anos?”.

Aterrada, balbuciou: — “Como? O que é que o senhor está dizendo?”. E o progressista: — “Isso não é idade de se pecar, minha senhora. Aos sessenta anos ninguém peca. Quer dar seu lugar à próxima? Passar bem, minha senhora”. A pobre levantou-se. Saiu dali, como se fugisse. Apanhou o táxi, soluçando. Está chorando até hoje.

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