Aquele Folheto Perdido – Crônica de Rubem Braga

By | 28/10/2021

Um tanto cansado das coisas de hoje, compro o Jornal do Commercio para me engolfar na leitura do jornal de um século atrás.

Estamos a 30 de dezembro de 1865 e talvez esse mesmo sudoeste espanque as espumas desse mesmo oceano verde-cinza. Onde estará a esta hora o pardo Januário? Ele fugiu há mais de três anos da casa do Comendador Barroso, que todavia não cessa de procurá-lo.

Deve valer alguma coisa o pardo escravo, pois o comendador promete 300 mil-réis a quem o prender, e ameaça quem lhe tenha dado homizio e escapula. Esconde-te bem, pardo Januário!

Quem chegou foi o Braguinha, e chegou botando falação pelos jornais, o Braguinha da Fama do Café com Leite. Trouxe para vender novos aparelhos e máquinas, maravilhoso café, chá superior, belo chocolate, mas é desagradável o Braguinha ao chamar os fregueses e dizer: “Aqui se encontra tudo do bom e do melhor, contanto que tragam os cobrinhos porque vales não se recebem cá.” E ainda nos diverte que “quanto aos afamados sorvetes de 320 réis, só haverão em noite de espetáculo, e isto quando não chover; e quem os quiser “saborear nos camarotes deve prevenir com antecedência para não haver falta”. Dá vontade de ir lá, bater à porta do Braguinha, e perguntar: “Hoje haverão sorvetes?”

O jornal reclama contra a demora na saída das mercadorias da Alfândega, que dá prejuízos ao Comércio, e diz candidamente: “estamos certos de que o governo não deixará de prestar a devida atenção”. Pois sim, colega.

Há outras notas — uma reunião de conservadores para estudar a resposta à Fala do Trono, o anúncio de um professor de caligrafia, “inventor da letra corrida comercial”, leilão de bens incluindo dois escravos, um bote e um oratório de ouro e prata, o que tudo pode ser visto da casa do finado, na Praia Pequena —, mas triste, triste me parece este aviso: “Perdeu-se ou roubaram, na noite de 15 do corrente, a uma preta embriagada, uma trouxa de roupa suja, em que havia também uma panela de barro e um folheto.”

Penso nessa remota negra embriagada, nessa humilde trouxa de roupa suja, nessa panela de barro e nesse famoso folheto. Que dizia o folheto? Ah, negra cachaceira, que fizeste do folheto? Cem anos depois de tua bebedeira eu fico cismando nesse folheto; e olhando o mar e pensando na vida e na minha impossível amada, e na tristeza dos tempos que vão, imagino que talvez esse folheto trouxesse a palavra essencial; ali devia estar escrita a explicação das coisas, ali o consolo de nosso peito, ali a senha de nosso destino.

Perdeu-se, perdeu-se para sempre o folheto escondido numa panela de barro dentro da trouxa de roupa suja, nas mãos de uma negra bêbada. Venta, sudoeste frio, venta, acabrunha esse mar e este país tristonho, que se perdeu o folheto; e como encontrá-lo agora, cem anos depois, o folheto que seria a salvação do povo; que traria a última palavra de esperança, e se perdeu na noite?

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