As chagas do mendigo – Conto de Nelson Rodrigues

By | 25/05/2021

A coleguinha barrou-lhe a passagem:

— Vem cá um instantinho, Marlúcia.

Levou-a para um canto. Lá, pigarreou e fez a pergunta:

— É verdade que estás namorando aquele rapaz?

— Qual deles?

E a amiga:

— O do Buick. É verdade?

Marlúcia titubeou:

— Bem. Não é propriamente namoro. Flerte. Por enquanto é flerte.

A coleguinha recuou, num deslumbramento misturado de inveja. Esticou a mão, enfática:

— Toque aqui. E, se queres um conselho, te agarra, minha filha, te agarra com unhas e dentes.

— Por quê?

Chamava-se Florisbela a amiga. Pôs-lhe a mão no braço:

— Pra teu governo: eu soube, de fonte limpa, que esse cara é podre de rico, cheio! Dinheiro ali é mato! Aproveita, sua boba!

Marlúcia ergueu o rosto, chocada:

— Você pensa que eu sou interesseira?

E a outra, taxativa:

— Não sei se você é interesseira, nem interessa. Mas que dinheiro ajuda, ajuda!

O FILHINHO DE PAPAI

Num instante a notícia do namoro se espalhou. E o deslumbramento lavrou, desenfreado, no meio de suas relações. E vamos e venhamos: com um Buick espetacular e cinematográfico, Heriberto era um desses partidos feéricos que só acontecem uma vez na vida de uma mulher. Aparentemente, tinha todas as qualidades do céu e da terra. Usava os melhores ternos do Rio de Janeiro; era forte, bonito, com uns antebraços de estátua; pertencia a uma família fabulosa. Contava-se, a título anedótico, que, na sua infância, o pai dava-lhe cédulas de quinhentos mil-réis e o instigava: “Rasga, meu filho, rasga!”. Monumental, o velho Heriberto! Era dessas figuras vorazes que os jornais de escândalo chamam de tubarão. Com sua barriga de ópera-bufa, os charutos nababescos, a religião do dinheiro e uma bestial falta de
escrúpulos — fez do filho um pobre-diabo enfeitado. Doutrinava-o nos seguintes termos:

— Dinheiro compra tudo! Até amor verdadeiro!

Heriberto acreditou, piamente, na filosofia paterna. Só agia na base do suborno, como se uma voz interior o inspirasse: “Paga! Paga!”. O dinheiro escorria-lhe por entre os dedos como água. Era assim em tudo, inclusive na vida sentimental. Tinha verdadeiro horror das mulheres desinteressadas:

— Essas que não querem nada estão escondendo o jogo. No fim, vai-se ver e querem mais!

A FILHA DO CONTÍNUO

Fosse como fosse, encontrava em toda a parte uma tal facilidade que já bocejava de tédio. Aos vinte e três anos, parecia ter uma alma de velho e sentia-se no limiar de uma neurastenia talvez irremediável. Foi por essa época que, de passagem pelo Encantado, viu Marlúcia. Gostou do seu tipo miúdo, de sua graça suburbana, dos seus cabelos compridos. De qualquer maneira, seria uma variante na sua vida e nos seus hábitos. Apareceu outras vezes no Encantado e, um belo dia, os moradores espicharam o pescoço. Num embasbacamento mais do que justo, viam a flor local passeando na calçada com o moço bonito do Buick. Diga-se, desde logo, que o interesse de Heriberto foi sempre enorme. Tudo na pequena o surpreendia e deleitava. Era a filha de um velho contínuo da Caixa Econômica. Esta humildade de origem impressionou o rapaz, que só conhecia grã-finas. Ao seu lado, saboreava tudo o que havia, nela, de graça espontânea e irresistível. No terceiro ou quarto dia de namoro, Heriberto aparece com o primeiro presente. Ela pergunta, inquieta:— O que é isso?

E ele:

— Veja.

Marlúcia desembrulhou: era um anel, com uma pedra muito bonita. Atônita, virou-se para ele:

— Você não acha que ainda é cedo?

CONVITE

Dois dias depois, ele traz um novo presente. Desta vez, porém, ela foi terminante:

“Você me desculpe, mas eu não quero, nem aceito”. Heriberto se espanta:

— Por quê?

— Vou ser franca contigo, meu anjo. Eu te acho quase perfeito.

— Quase?

— Quase, sim. Porque você tem um defeito: o seu dinheiro. — Pausa e conclui:

— Sinceramente, eu gostaria que você fosse pobre.

Ele, porém, tanto insistiu, e foi tão amoroso que, por fim, Marlúcia cedeu: — guardou a segunda jóia, suspirando. Impressionado, Heriberto pergunta: “Mas vem cá:

— você não gosta de jóias?”. Marlúcia dá a resposta inesperada:

— Gosto dos teus beijos!

Heriberto sai dali muito espantado. Conta o episódio a um amigo. Este ouve atentamente e resume: “Queres minha opinião? Abre o olho, que esta pequena é uma vigarista!”. Heriberto formulou, para si mesmo, a hipótese: “Quem sabe?”. Dois dias depois, entre um beijo e outro, ele sugere:

— Irias comigo a um lugar, assim assim?

Estavam sentados num banco de jardim. Marlúcia ergue-se, atônita: “Você tem coragem de me propor uma coisa dessas?”. E ele, desfigurado, sórdido: “Mas que é que tem? Tão natural!”. Quer agarrá-la. Marlúcia, porém, desprende-se, com inesperada agilidade. Encara-o, com um olhar duro:

— Eu não te disse que o dinheiro era um defeito? Não disse?

Ele, desconcertado, quer convencê-la. Marlúcia aponta: “Estás vendo ali?”. Indicava um mendigo, roto, imundo, que vinha passando e que falava sozinho. Diz a última palavra:— Só serei tua quando apareceres assim! O rapaz quis retê-la. Marlúcia, irredutível, abandonou-o no meio do jardim. Heriberto teve a sensação de que a perdera para sempre.

DESESPERO

Telefonava para o vizinho e a resposta era fatal: “Não está, nem sabe quando volta”. Mandava bilhetes, que a pequena rasgava antes de ler. E mais: quando aparecia, na porta, um mensageiro com flores, respondiam: “Não mora aqui”. Ele, em pessoa, fumando um cigarro atrás do outro, ia rondar a sua residência, na esperança de revê-la. Marlúcia, porém, não aparecia. O velho contínuo da Caixa Econômica solidarizou-se com o brio da menina:

— Dá-lhe duro! Dá-lhe duro!

Só a vizinhança estranhava: “Essa pequena está dando um pontapé na sorte!”. Já as jóias, autênticas e caríssimas, haviam sido devolvidas. Então, o filhinho de papai rico, com o espírito trabalhado pelo sofrimento e pelo amor impossível, mudou seus habituais modos. Chegava em casa alta madrugada e sempre bêbado. Quase não comia e acusava um impressionante desleixo. Passava quinze dias com o mesmo terno, dez
com a mesma camisa. Os amigos tentavam levantar seu ânimo. Diziam: “Não passa de uma vigarista!”. E mesmo o pai o chamou à ordem. Ele, porém, encerrou o assunto com uma resposta malcriada. E quando o velho, dois meses depois, morreu, Heriberto fez quarto sem uma lágrima, numa atitude desinteressada, quase alvar.

O MENDIGO

Até que chega a notícia: Marlúcia estava noiva! Heriberto não fez um comentário.

Desde então, porém, com ordem, com método, passou a dispor de todos os seus bens. Dir-se-ia que se apoderara dele a mais generosa das loucuras. Inundou de dinheiro parentes, amigos, conhecidos e até desconhecidos; espalhou as jóias da família. E quando não tinha de si mais um tostão, nada, abandonou tudo. Já parecia incontestável que era um louco a mais na face da terra. Durante dois ou três meses, não se teve notícia do rapaz. Uma tarde, Marlúcia, de braço com o noivo, passeia pela calçada. O casamento estava marcado para o dia seguinte. De repente, o casal vê aproximar-seaquele mendigo cambaleante, de barba à Monte Cristo e olhar incandescente. Está coberto de úlceras e estende a mão de dedos magros:

— Sou eu!

Foi o bastante. As pessoas que vinham passando ou estavam na janela viram a cena inverossímil: Marlúcia atirou-se nos braços do miserável. Escorrega ao longo do seu corpo; de joelhos, abraçada às pernas do mendigo, soluça:

— Agora sim! Agora eu serei tua, para sempre! Tua!

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