Banho de noiva – Conto de Nelson Rodrigues

By | 14/07/2021

Vinte e quatro horas antes do casamento, Detinha suspira:

— Meu filho, posso te fazer uma pergunta?

Peçanha (Antônio Peçanha), que estava limando as unhas com um pau de fósforo, boceja: — “Mete lá”. E ela:

— Quantos banhos tu tomas?

Admirou-se:

— Por quê?

E ela:

— Responde. Quantos banhos tu tomas por dia?

— Um, ora essa!

— Só?

Peçanha caiu das nuvens:

— Tu achas pouco?

Admitiu, lânguida:

— Acho.

O BANHO

Peçanha vira-se, entre surpreso e divertido: — “Estás falando sério?”. Insiste: — “Por que não?”. O rapaz ergue-se: — “Mas que piada infeliz!”. Detinha continuou:

— Sei que, de uma maneira geral, todo mundo toma um banho só. Mas eu não vou atrás de conversa, não. Tomo dois, no mínimo. Quando faz calor, três. Até quatro.

Não tolero cheiro de suor, nem em mim, nem nos outros. Palavra de honra!

O noivo bufa:

— Quatro banhos?

Confirmou:

— Sim senhor: — quatro. Num clima como o nosso, um banho é pouco. Não dá.

Ele explodiu:

— Ora, Detinha! Tira o cavalo da chuva! Tu achas, talvez, que eu vou passar o dia todo, as vinte e quatro horas do dia, debaixo do chuveiro? Achas que eu não tenho mais nada que fazer senão tomar banho? Gozado!

A pequena ia replicar, quando foi chamada na cozinha. Deixa o noivo na varanda e atende. Peçanha, ainda impressionado, pragueja, interiormente:

— Ora pipocas!

O NOIVADO

A casa estava cheia de gente, sobretudo de mulheres. Até uma tia do Realengo, que a família supunha morta e enterrada, reapareceu, sensacionalmente. Velha solteirona, meio estrábica, viera farejar, na sobrinha, a felicidade que a vida lhe negara. Pois bem. Detinha entra e, com pouco mais, volta atarantada: — “Meu filho, vai, ouviu, vai que eu tenho o que fazer, sim?”. Beijou-a, de leve, numa das faces; e grita, para dentro, numa saudação coletiva:

— Bye-bye!

Veio a resposta, num alarido de mulheres:

— Bye-bye!

Partiu Peçanha, com uma sensação, uma vaga e desconfortável sensação de escorraçado.

IDÉIA FIXA

A caminho do poste de ônibus, Peçanha veio pensando no que ele próprio chamava o “palpite indigesto” de Detinha. Julgara perceber, nas palavras da noiva, uma insinuação extremamente desagradável. De si para si, indagou: — “Será que eu cheiro mal?”. E suspira: — “Ora veja!”. Horas depois, no quarto, não conseguia dormir, aflitíssimo. Só às quatro da manhã é que, finalmente, fechou os olhos e todas as suas incertezas se apaziguaram num sono realmente profundo. Acordou às sete horas, com a alegre exclamação: — “É hoje! Hoje!”. Meteu-se debaixo do chuveiro, tomou um banho minucioso, um banho implacável, um banho de casamento. Antes, escovara os dentes com energia, quase com desespero; e só parou quando sentiu as gengivas feridas. Em seguida, pôs perfume, talco, o diabo. Desceu, na euforia do próprio asseio. Veio perguntar:

— Que tal o meu hálito, mamãe? Vê que tal?

Soprou-lhe no rosto. A mãe, que era uma emotiva, uma sentimental, disse, já com vontade de chorar:

— Ótimo. E Deus te abençoe, meu filho, Deus te abençoe!

Pouco depois, ele estava tomando uma gemada reconstituinte. A emoção nupcial, em vez de lhe diminuir, aumentava o apetite. Antes de ligar o telefone para a noiva, indaga da mãe: — “Eu quero que a senhora me responda, com sinceridade: — alguma vez a senhora observou que eu cheirasse mal? Fala a verdade, mamãe!”. Ela foi taxativa:

— “Nunca!”. Mais animado, Peçanha discou para a pequena. Depois do bom-dia recíproco, Detinha quer saber:

— Já tomaste banho?

Protesta no telefone:

— Será o Benedito? Isso é idéia fixa ou que diabo é? Que graça!

Ela pergunta: — “Você se ofendeu? Tipo da pergunta natural!”. Passou. Só ao meio-dia houve a cerimônia civil. Eram, enfim, marido e mulher para todos os efeitos.

Quando saíram, com o acompanhamento das duas famílias e de amigos mais íntimos, Detinha aproveita a primeira oportunidade para soprar-lhe ao ouvido:

— Vai para casa tomar banho, ouviu? — insiste, baixo, quase sem mover os lábios. — Quero te ver cheiroso, bem cheiroso!

— Sossega, leoa!

APAIXONADO

Peçanha correu de táxi para casa, a fim de se preparar para o casamento religioso. Levava, porém, uma surda irritação. Era provável que a idéia de um novo banho lhe ocorresse, espontaneamente. Mas doía-lhe que a noiva quisesse ditar-lhe normas de higiene. Estava tão descontente que fez o seguinte: — sacrificou, por uma espécie de pirraça, o banho proposto. Limitou-se a esfregar álcool debaixo do braço e a repassar uma nova mão de talco. Todavia, quando, horas depois, toma o automóvel com destino à igreja, ocorreu-lhe uma reflexão incômoda: — “Será que eu estou cheirando a suor?”. Felizmente, não tardou que chegasse à igreja. E, então, tudo se diluiu no esplendor da cerimônia. A noiva, num vestido maravilhoso, era, sem dúvida, uma doce imagem inesquecível. O que ocorreu, depois, não pode ser descrito. Quando Peçanha deu acordo de si, estava no feérico automóvel, ao lado da noiva. Sôfrego, baixa a voz para Detinha:

— Meu anjo, vê se capricha na pressa, ouviu? — Repetia, transpirando de carinho e impaciência: — Vê se caímos fora cedo!

Detinha não respondeu, como se estivesse imersa num sonho definitivo. Até chegar à casa dos pais, só abriu a boca uma vez, uma única vez, para perguntar: — “Tomaste dois banhos hoje?”. Peçanha toma um susto:

— Mas que idéia você faz de mim? Espera lá!

PRIMEIRA NOITE

Na casa dos sogros, Peçanha, discretamente, instiga a noiva: — “Chispa! Chispa!”. Sua impaciência de amoroso já estava dando na vista e suscitando alegres comentários. Para evitar as despedidas demoradas, saíram pelos fundos; Detinha experimentou uma deliciosa sensação de fuga, de rapto. O automóvel que os levou para o hotel de montanha fez toda a viagem numa velocidade macia, quase imperceptível.

Rapidamente chegam lá, sobem, agarradíssimos, para o apartamento já reservado. Entram, e Peçanha, ofegante, com o olho rútilo, torce a chave. Quer agarrá-la, mas ela se desprende, com inesperada agilidade. Ele pergunta: — “Que é isso?”. Ela responde:

— “Primeiro, vou tomar banho. Faço questão absoluta”. Ele pediu, rogou, suplicou, a morrer de paixão. Encontrou-a, porém, irredutível. Disse a última palavra: — “Ou você não percebe que este é um momento em que a mulher precisa estar cem por cento?”. Teve que capitular. Com um sentimento de frustração, deixou o quarto. Ficou, cá fora, no corredor, fumando um cigarro atrás do outro. Enquanto isso a mulher tomava o seu banho demorado, um banho de Cleópatra. Após uns quarenta e cinco minutos de espera, ela entreabriu a porta: — “Meu bem?”. Arremessou-se, num desvario. Novamente, ela o detém: — “Calma, calma!”.

Recuou, atônito:

— Calma por quê?

E ela, doce, mas irredutível:

— Já tomei o meu banho. Agora é tua vez.

Quis reagir:

— Ora, Detinha! Que banho? Parece criança! Vem cá, anda, vem cá!

Quer segurá-la. Novamente, ela se desprende. Some do seu rosto a expressão de doçura. Trinca os dentes: — “Das duas uma: — ou você toma banho ou não toca em mim!”. Peçanha abriu os braços:

— Você está insinuando o quê? Que eu não tomei banho? Tem nojo de mim?

Fala! Tem nojo?

Há, entre os dois, uma mesinha, que a protege. Silêncio. Peçanha insiste, já com os olhos marejados:

— Não me custaria tomar um banho, claro. Mas você não vê que é humilhante para mim? Se eu tomar banho, fica parecendo o quê? Que eu sou um sujo, um sebento, um sujeito que cheira mal. Ouviu, meu anjo? — Baixa a voz: — Há certos papéis que um marido não pode fazer! — Pausa e pede: — Agora, um beijo!

Ela recua:

— Não! Primeiro, o banho! Ou banho ou nada feito!

Diante da mulher, que faz da mesinha uma pequena barricada, o marido implora ainda. E Detinha, nada. Por um momento, o pobre-diabo olha na direção do banheiro, disposto talvez a transigir. Mas dá nele, súbito, uma dessas fúrias terríveis. Persegue-a dentro do quarto; chega a agarrá-la. Mas ela se desvencilha outra vez, abre a porta e foge, pelo corredor, gritando. Hóspedes e funcionários do hotel acodem. Então, soluçando, ela aponta para o marido:

— É um porco! Casei-me com um porco! Tirem esse porco daqui!

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