Caça-dotes – Conto de Nelson Rodrigues

Estava comprando fósforos, no charuteiro, quando apareceu o Aarão, impressionadíssimo. Faz a pergunta:

– Sabe quem morreu?

– Quem?

– O Ernesto! Tomou um susto:

– O marido da Suzana?

Sim, o marido da Suzana, sim!

– Morreu? E quando? De quê?

Entraram no café, sentaram-se e Aarão deu maiores detalhes:

– Morreu há uns quarenta minutos. Colapso.

Norival, mexendo com a colher no fundo da xícara, parecia assombrado: “Ora veja!” Então, vendo o outro pálido, transpirando, Aarão indaga:

– Tu gostavas dele?

– Eu?

– Gostavas?

Norival foi brutal: “Não amola! Ou tu me achas com cara da gostar de homem?” Aproxima a cadeira, baixa a voz e confessa:

– Dele, não. Da mulher, sim. Estou de olho na Suzana! Atônito, o amigo balbuciou:

– Papagaio!

O cínico

Quando saíram do café, Norival pergunta: “O enterro vai sair de casa ou dalguma capelinha?” O outro não sabia. Andaram até a primeira esquina, lado a lado. E era evidente que Norival exultava. Antes de se despedir, Aarão pigarreia e aventura:

– Posso te ser franco?

– Claro!

Toma coragem e anuncia:

– Tu sabes que eu não acho a mínima graça na Suzana! Norival, sórdido:

– Nem eu!

– Ué!

E Norival:

– Só me interessa o dinheiro dela. Compreendeste ou queres que eu te explique?

Era demais para o estômago do Aarão. Recuou dois passos, como que ofuscado pelo deslumbrante cinismo do amigo. Gemeu:

– Tu és de morte! Tu és de morte!…

O velório

Aarão saiu dali e foi espalhar, para os amigos de ambos, que o Norival era “o sujeito mais cínico do Rio de Janeiro”. Os dois se conheciam desde crianças. E o que fascinava Aarão era a absoluta falta de escrúpulos, o impressionante descaro do amigo. Dizia-se o diabo do Norival, inclusive que “tomava dinheiro de mulher”. Não se lhe conhecia uma ocupação, um emprego, nada. Apesar disso, Aarão jamais pensara que o outro fosse o mesmo cínico diante da morte. Benzia-se: “Parei! Parei!” De qualquer maneira, Aarão quis ver a coisa, de perto. Acompanhado de alguns amigos, comparecia, à noite, ao velório. E, lá, estava o Norival, firme, num terno azul-marinho, gravata preta e sapatos de verniz, farejando a viúva. Sempre que Suzana era acometida por um dos seus intermitentes ataques, Norival se arremessava. Ia buscar copos d’água, cafezinhos, numa solicitude tão contínua e eficaz, que, rapidamente, era o dono do ambiente. De hora em hora, ia adquirindo, sobre a inconsolável Suzana, uma macia, insidiosa e irresistível autoridade. Às três horas da manhã, já dava ordens à viúva:

– A senhora, agora, vai tomar esse mingau, aqui, d. Suzana.

Soluçou:

– Não quero!… Insistiu:

– Vai, como não? Sim, senhora!

Por conta própria, mandara a empregadinha fazer um mingau. O fato é que Suzana acabou obedecendo. Pouco antes de sair o enterro, ele já a tratava de você. O assombro, a inveja, a admiração dos amigos não tinha mais limites. Num canto, aos cochichos, Aarão pasmava:

– O que me deixa besta é o seguinte: morreu Ernesto. Muito bem. E não é que o Norival vem dar em cima da viúva na cara do defunto!…

Todo o bairro passou a dizer, isto é, passou a clamar que o namoro começou no velório. Exagero, porque Suzana aceitara as atenções do Norival na maior e mais patética boa-fé. Ela pertencia a uma família de anjos. Seus parentes, tanto do ramo paterno, como do materno, eram homens e mulheres direitíssimos. Aarão ululava, no café, ao dizer:

– Uma família que não tem um ladrão. Vê se pode!

E o fato é que essa virtude foi o maior obstáculo às péssimas intenções do Norival. Avisaram-no: “Olha: não vão te topar!” Cheio de si, confiante na própria aparência física e na própria experiência amorosa, o rapaz estaria disposto a apostar no êxito. Batia no peito: “Batata! Batata!” Contava com a oposição da família, mas esperava “levar a pequena na conversa”. Caça-dotes confesso, tinha, diante da viúva, uma atitude habilíssima. Não se antecipou ou, para repetir suas expressões, “não forçou a natureza”. Quando achou que era chegado o momento, pronto, agarrou a menina, num desses beijos definitivos. Só a largou no limite extremo da própria capacidade respiratória. Por sua vez, Suzana, com falta de ar, já esperneava. Diante dele, no assombro do beijo inesperado e feroz, ela pôs-se a chorar. Norival arquejava: “Mas que foi? Tão natural um beijo!” Assoando-se no lencinho, ela, ainda de luto fechado, soluçou a confidência:

– Meu marido não me beijava assim!

Pouco depois, estava Norival no café, exultante. Lambia os beiços: “Beijo de meia hora, contada a relógio!” Os outros indagavam: “E a reação?” Foi categórico:

– Ficou besta! Só faltou subir pelas paredes! E desconfio, cá entre nós, que o marido era um bestalhão autêntico!…

Primeiro amor

Súbito, Suzana descobria que Norival era, de fato, o seu primeiro amor. De noite, no quarto, cotejava o falecido marido e o atual pretendente. Como eram diferentes os beijos de um e de outro. Fez confidências a uma amiga, viúva também. Soprou: “Eu não sabia que o amor era assim.” A outra, mexeriqueira que Deus te livre, perguntou: “E teu marido!” Suspiro de Suzana:

– Meu marido era outra coisa.

Apaixonadíssima, aliviou o luto antes do tempo. Mas quando a família soube do romance, andou fazendo sindicâncias. As informações, obtidas aqui e ali, eram as piores possíveis. Esboçou-se uma oposição. Mas Suzana foi categórica:

– Ou vocês deixam ou eu fujo!

Diante disso, houve um recuo geral. O pai, que era um velho bom e honrado, comoveu-se. Disse:

– O que eu quero é a tua felicidade, minha filha. Só. Nada mais… De noite, na varanda, Norival soprava ao ouvido da pequena:

– Quando a gente se casar, você vai ver o que é lua de mel batata, lua de mel, no duro!

Essa promessa a arrepiava. Ele prosseguia: “Vou te provar que teu marido foi um mosca-morta!” Até que já sabe, enfiou a mão por dentro do vestido e apertou- lhe o biquinho do seio.

Casaram-se, um dia. Já na décima noite da lua de mel, Norival aparecia no café. Alguém fez o comentário jocoso: “Por que é que a lua de mel engorda os homens e emagrece as mulheres?” Norival sentou-se. Com a falta de escrúpulos que tanto deslumbrava os companheiros, confessou o tédio indescritível daqueles dias: “Já não suporto! Já não aguento mais!” Súbito, porém, transfigura-se. Mete a mão no bolso, extrai de lá um bolo de notas de mil cruzeiros. E admite: “O que salva a minha mulher é que ela é cheia da gaita! Podre de rica!” A partir de então, a vida de Norival foi um cotidiano esbanjamento. De três em três dias, apanhava um cheque com a esposa e ia gastar com as piores mulheres da cidade. Chegava em casa bêbado de cair. Não havia esposa mais humilhada, mais ofendida. E corria, até, que ele, nas suas bebedeiras monumentais, a castigava fisicamente. Mas havia um momento em que ela se sentia a mais amada das mulheres. Era quando, sem dinheiro, Norival queria um cheque. E, então, a tratava com uma dessas loucuras de lua de mel. Uma vez obtido o cheque, voltava a ser brutal. Num dia, o velho pai soube que o genro esbofeteara a filha. Apareceu, lá, de rebenque. Perguntou: “Onde está o canalha do teu marido? Vou-lhe quebrar a cara!” Então, Suzana se arremessou, como uma fera:

– Olha aqui, papai: não se meta! Não dá palpites!

– Mas é um miserável! Quer o teu dinheiro!

Ergueu o rosto: “Seja um miserável! Seja o que for! Mas eu não admito que ninguém fale mal dele!” Começou a chorar. Disse ao pai atônito:

– Um carinho que ele me faça, um só, vale todo o meu dinheiro! Caiu de joelhos; soluçava, com o rosto mergulhado nas duas mãos:

– Quando ele me beija, eu sou a mais feliz das mulheres! A mais feliz, papai!

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