Cemitério de carros – Gilberto Freyre

Os Agras não lidavam apenas com enterros: alugavam também coches de passeio. Carros de luxo para batizado, para casamento, para formatura de bacharéis em direito. Carros festivamente forrados de cor-de-rosa e de branco e não apenas de azul-escuro; de damasco, cor de cereja e não somente de cinzento; carros alegremente claros e não somente pretos e dourados como os dos funerais caros; ou os todo pretos dos enterros baratos, quase iguais aos chamados “violões” de caridade.

Augusto dos Anjos encontrou em Casa Agra rima ideal para sua “sombra magra” de homem preocupado com escarro de sangue, doença, morte, enterro, cemitério. E deu à velha casa da rua do Imperador a triste celebridade de empresa apenas funerária.

Mas para o recifense de primeira água essa celebridade é completada pela outra: pela de um nome ligado também às melhores alegrias e festas do Recife. Não só às de batizado, às de casamento e às de formatura na Academia de Direito, como aos piqueniques finos, que até os começos deste século se faziam de carros de cavalo; aos pastoris, que os rapazes elegantes dos fins do século passado frequentavam também de carros às vezes rodando escandalosamente pelas ruas e quebrando o silêncio e a paz das noites burguesas e trazendo dos subúrbios para ceias no centro da cidade, mestras e dianas que, rindo alto, cantando, gritando, dentro dos próprios carros perdiam a virgindade de mulatas pobres; às representações no Teatro Apolo e às companhias italianas no Santa Isabel; às passeatas cívicas, com vivas à liberdade, à República, à Abolição, à princesa Isabel, ao dr. José Mariano; às chegadas de heróis da guerra do Paraguai como o marquês de Herval; ou de bispos oficialmente de Olinda, mas na verdade de Recife, como dom Vital; aos carnavais — os velhos carnavais recifenses quando os carros do Agra, de capotas arriadas, os cocheiros, como sempre, de cartolas solenes como as dos ministros de Estado, rodavam pelas ruas da cidade aos gritos de “Olha, o carro!” levando mascarados elegantes, dominós de veludo, bailarinas de saias de seda; ou simplesmente famílias providas de gordos sacos de confete, caixas de bisnagas, os meninos fantasiados de palhaços e com muitos guizos, as meninas vestidas de camponesas, de holandesas, de ciganas. Os carros eram atacados pelos foliões a pé — isto é, os da mesma condição social da gente que rodava de carro — a bisnaga, a confete, a serpentina. Que carros mais alegres do que esses? Pois eram quase todos da Casa Agra.

Sucede que há mais de trinta anos, voltando eu do estrangeiro a um Recife já muito despoetizado de seus antigos encantos pelo triunfo, que nele foi rápido após a primeira Grande Guerra, de novidades que o sociólogo escocês Geddes chamaria “paleotécnicas”, procurei matar saudades do Recife da minha meninice vendo coisas nobremente velhas: mesmo as plebeias como as tascas fiéis ao seu passado e por ele enobrecidas. E como já fossem raros nas ruas, nos próprios enterros, os carros de cavalo, e estes mesmos, uns carros desengonçados e feios, rangendo de fadiga mortal e guiados por boleeiros sem cartola, chapéu mole, ar acapadoçado, perguntei por eles: pelos velhos e belos carros do Agra. Eram tantos que não podiam ter se sumido de repente, expulsos das ruas pelos ainda poucos automóveis.

Um Agra da nova geração — pois a família era amiga já velha da minha gente — prometeu mostrar-me carros antigos, não em movimento, mas parados. Tristonhamente parados como num museu. E em vez de carros vivos, como os raros e moribundos que ainda rodavam arcaicamente pela cidade nos enterros, vi uma tarde, guiado por um Agra, verdadeiro cemitério de velhos carros de luxo, todos mortos. Carros de luxo, carros de qualidade, carros de gala. Carros com as belas lanternas de prata que eu admirara no meu tempo de menino; com as almofadas de veludo, os forros de seda, os tapetes felpudos, as molas doces, todo o macio conforto em que eu me regalara em idas e vindas do centro do Recife a Caxangá, à Capunga, aos Aflitos, em carnavais, em passeios pelas ruas empedradas do centro da cidade, pelas areias secas dos arrabaldes mais elegantes, pelas lamas profundas dos subúrbios desprezados pela prefeitura.

Esse cemitério de carros de luxo, com muita prata, muito veludo, muita seda, muito damasco, muito resto de luxo antigo a abrilhantar-lhes a velhice melancólica e ignorada, os Agras conservavam numa vasta cocheira para os lados da rua do Sossego. Precisamente a rua que pelo nome e pela situação de lugar, na verdade, quase morto, de tão tranqüilo e próximo do cemitério de Santo Amaro, Convinha ao fim de vida daqueles carros também “postos em sossego”. Quase mortos depois de anos e anos de movimento, de vibração, de glória. Um carro fora de Osório: atravessara as ruas do Recife com o herói da guerra do Paraguai vivado por multidões. Tinha lanternas de prata lavrada que sozinhas davam ao ilustre veículo nobreza e não apenas encanto artístico. Belo era também o cupê que fora dos bispos: forrado de veludo, lanternas de prata parecidas às de procissão, parecia saudoso das murças que tantas vezes animaram de roxo, de vermelho, de brilhos litúrgicos, aquele interior grave, severo, mas não lúgubre, de carro também triunfal. Havia um landau que me informaram ter tido a glória de carregar Quincas, o Belo, numa de suas chegadas ao Recife; e do qual o formoso gigante falara à multidão. Uma vitória meio alegre que me disseram ter sido do Palácio do Governo no tempo de Sigismundo Gonçalves, que foi homem galante, tendo sido ao mesmo tempo austero homem de Estado. Outro cupê, forrado de cor-de-rosa, lanternas que eram duas jóias: este me asseguraram que fora de certa condessinha, iaiá muito mimosa do Recife, no seu tempo de moça.

Naquela cocheira erma, feia, triste, com um vigia dia e noite para botar sentido nos coches e não deixar que os gringos mais afoitos roubassem as pratas, era esse cupê alegre o único com fama de assombrado ou encantado. Uma vez por outra dizia o velho da cocheira que a própria condessinha aparecia no cupê, toda sinhá, num ruge-ruge de sedas finas e galantes que arrepiava os negros mais calmos. Era pelo menos o que contava esse negro velho, vigia da cocheira.

Ouvi de outro empregado da cocheira dos Agras que uma vez acordara, noite alta, despertado por um ruído que lhe parecera o de carro de cavalos desembestados. Impossível porque ali não havia cavalo: só carros passivos e tristes. Não afirmava que não fosse um resto de sonho mau: mas sua impressão fora a de ter visto sair do meio dos carros mortos, um, de repente vivo, ruidosamente vivo, puxado por um cavalo alazão com um pé branco e guiado por um negro de sobrecasaca cheia de galões de ouro. Tomara o carro a direção do cemitério de Santo Amaro. Aliás, o cemitério de carros dos Agras ficava tão perto do de Santo Amaro que era como se fosse um seu anexo. O cemitério de carros anexo do cemitério de gente.

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