Ciumento demais – Conto de Nelson Rodrigues

By | 14/07/2021

Levou o marido até a porta. Ainda esperou que ele, num adeus de dedos, dobrasse a esquina. E então, no seu quimono rosa, entrou no gabinete, trancou-se e ligou o telefone. Do outro lado, atende uma voz masculina. Lúcia ri, muito doce:

— Sou eu.

E a voz:

— Tu?

Começou assim o diálogo amorosíssimo. Súbito, ela se lembra do motivo do telefonema. Adverte:

— Olha: meu marido vai te convidar pra jantar com a gente hoje.

Ele interrompe:

— Não vou.

E a pequena:

— Vem, sim senhor! E não vem por quê? Que bobagem! Parece criança!

Mas Aristóbulos (era o Aristóbulos, amicíssimo do casal) parecia irredutível:

— Em absoluto! Aliás, já te disse umas quinhentas vezes que não quero ir à tua casa. Pra me aborrecer?

— Por que, criatura?

Explodiu:

— Ora, Lúcia! Você acha que é interessante pra mim ser testemunha das intimidades do teu marido contigo? Achas? Na última vez que estive aí, aquela besta te pôs no colo, fez misérias. Pra mim chegou. Pede outra coisa. Isso não! Tem paciência!

O CIUMENTO

Era ciumento da cabeça aos pés — ciumento, como ele próprio admitia, de dar tiros, de subir pelas paredes. E não fazia nenhum segredo disso. Rosnava com os amigos: “Se eu gostar de uma cara, e se a cara me passar pra trás, eu faço e aconteço”.

Pois bem. Passa-se o tempo e, por fatalidade, Aristóbulos se apaixona por uma mulher que já tinha outro, por uma mulher casada e, mais, casada com o seu amigo de infância, Olavo. Correspondido, ele passou a viver num inferno. Junto da pequena, não se ocupava de outro assunto senão o marido. Apertava a cabeça entre as mãos, fulo:

— Afinal de contas, eu estou rachando você com o seu marido.

Lúcia tratava de apaziguá-lo:

— Marido não vale! É como se não existisse!

Ele bufava:

— Não amola! Como não vale? Vale, sim senhora! Perfeitamente. Vale sim.

Minha situação é que é ignóbil. E eu te juro: eu preferia ser o marido enganado, que não sabe, ignora tudo, vive no melhor dos mundos. Mas eu não. Eu sei e agüento firme.

Sou o maior sem-vergonha de todos os tempos!

Lúcia ralhava:

— Criança!

Então, amargurado, sentindo a humilhação na carne e na alma, ele prometia, ameaçava: “Mas ah! Essa sopa há de acabar!”. Quando, porém, falou em tirá-la do lar, Lúcia foi categórica:

— Meu anjo, tudo, menos isso! Isso, não! Posso não amá-lo, mas tenho pena dele, muita pena. Uma pena que você não imagina!…

MELANCOLIA

E o fato é que aquele romance, que prometia delícias inenarráveis, passou a envenenar a vida e a alma de Aristóbulos. Ressentido, ele não apareceu mais na casa do outro. Não aceitava os convites que, na mais patética boa-fé, o Olavo fazia-lhe para jantar em dia de semana e almoçar nos domingos. Tratava de disfarçar: “Não posso. Tenho compromisso”. Etc. etc. Uma vez, transigiu; foi. Mas se arrependeu, amargamente. Pois o Olavo, que, geralmente, era um marido discreto na frente dos outros, sóbrio, excedeu-se. Diante do aturdido Aristóbulos, pôs a esposa no colo, beijou-a no pescoço e na boca. Aristóbulos saiu de lá arrasado. Quanto a Lúcia, fez uma cena com o marido:

— Você bebeu? Está bêbado? Sabe que eu não gosto de exibições! E pra que essa saliência?

Olavo enfiou um cigarro na piteira; perguntou:

— Mas, carambolas, você é ou não é minha esposa?

E ela, agitada, as faces em fogo:

— Sem-vergonhice eu não topo!

O JANTAR

Na véspera, à noite, Olavo virava-se para a mulher: “O Aristóbulos não vem aqui há vários meses. Prepara uma comida gostosa, que amanhã eu vou convidá-lo para
jantar aqui”. Lúcia, com a pulga atrás da orelha: “Mas vou te avisando: nada de show”.

Ele pareceu conforme:

— OK, OK.

Pela manhã, Lúcia telefona para avisar Aristóbulos e convencê-lo. Estrebuchando a princípio, o rapaz acabou cedendo aos apelos da mulher amada e à tentação de revêla. Além disso, Lúcia foi terminante: “Pode vir sem susto. Desta vez não vai haver nada”. Terminou assim: “Um beijinho para ti”. Naquele momento, a caminho da cidade, Olavo estava pensando na carta anônima que recebera na véspera. Dizia, entre outras coisas, o seguinte: “Estás bancando o palhaço. Tua mulher e teu amigo Aristóbulos…”. Vinham em seguida indicações tão minuciosas, dados tão precisos, que, subitamente, Olavo via tudo com apavorante lucidez. Há vinte e quatro horas que, ralado de febre, vivia debaixo da obsessão. Chegou no escritório e ligou para o amigo:

— Ou vens jantar comigo hoje, ou estamos de relações cortadas.

O outro foi cordialíssimo: “Vou sim, vou. Passa por aqui e me apanha”. Na hora marcada, encontraram-se e, durante toda a viagem para a casa de Olavo, este não fez
outra coisa senão espicaçar o amigo: “Como é? Como vão os teus ciúmes?”. Com um baque no coração, Aristóbulos quis, ainda assim, disfarçar:

— Meus ciúmes vão mais ou menos, até segunda ordem.

Olavo piscou o olho: “Tu é ciumento de matar? Terias coragem de matar? Fala!

Terias?”. Aristóbulos relutou: “Só vendo, só vendo”. Mas o outro insistia: “Confessa.

Terias?”. Então, virou-se, pálido; foi afirmativo, viril:

— Teria, sim. E por que não? O sujeito que encostasse a mão na minha mulher, eu passava-lhe fogo, tranqüilamente!

Olavo, divertido, esfregava as mãos, numa satisfação profunda.

CASAL DE TRÊS

Quando chegaram em casa, teve uma surpresa; jamais vira a mulher tão bonita, tão bem vestida. Deu-lhe um beijo na boca e, virando-se para o Aristóbulos, lambeu os
beiços: “Batom de minha esposa!”. Durante o jantar, Olavo voltou ao assunto, ou por outra, não falou noutra coisa:

— Mas se és assim — dizia —, se tens tantos ciúmes, não podes ter romance com mulher casada. Evidente!

O outro caiu na asneira de perguntar:

— Por quê?

E Olavo:

— Por quê? Mas é óbvio: e o marido, rapaz? Terias de ter ciúmes também do marido, claro! Afinal de contas, o marido é um homem!

Num constrangimento mortal, Lúcia pergunta à visita:

— Mais arroz?

Aristóbulos gaguejou a resposta. E Olavo prosseguia expansivo, jocoso: “Terias coragem de tomar a mulher de um marido e matá-lo? Responde, com sinceridade: matarias o marido?”. O pobre-diabo suava:

— Sei lá! Não sei. Depende.

O interrogatório não tirava o apetite de Olavo. E pelo contrário. Ele se sentia com um desses apetites selvagens, vitais. Estendia o prato para a esposa: “Bota mais arroz”. Sem prejuízo das garfadas, insistia:

— O lógico, rapaz, é que morra o amante. Ou a mulher. O marido por que, ora bolas? Só porque forneceu a esposa, sem saber e sem querer? E, além disso, eu, aqui entre nós, que ninguém nos ouça, eu não acredito que tivesses peito, que fosses bastante homem para matar ninguém. Nem o marido, nem ninguém!

Silêncio. Lúcia e Aristóbulos já não comiam mais. Só o outro jantava numa voracidade de possesso. Então, Aristóbulos perguntou, lívido: “Tu achas que eu não seria bastante homem?”. Mastigando, o outro responde:

— Duvido!

Súbito, Aristóbulos ergue-se. Com um golpe de calcanhar, atira longe a cadeira, ao mesmo tempo que um revólver aparece na sua mão. Aperta o gatilho, uma, duas, três vezes. Ferido de morte, o marido arqueja, ainda:

— Foi minha… Tua e minha… De nós dois… Traía você comigo…

Morreu ali mesmo, com a boca cheia de arroz.

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