Clamo e reclamo e fico – Crônica de Rubem Braga

By | 22/06/2022

Uma vez me perguntaram qual a qualidade fundamental, elementar, de uma mulher, e respondi: “Asseio corporal.” Eu era jovem e certamente tivera alguma experiência desagradável.

Hoje sinto como a resposta era antipática, machona. Eu parecia considerar a mulher, antes de tudo, um objeto de uso. Eu seria tolerante com falhas intelectuais, falcatruas sentimentais e mesmo pequenos deslizes morais — mas intransigente em questão de limpeza física.

Eis que neste momento não estou pensando em mulher nenhuma, e sim numa cidade: esta, do Rio de Janeiro, onde assisto. Muda-se agora o prefeito, e o que dá vontade de pedir ao novo é isto apenas: limpeza. Fui outro dia à casa de um amigo, que não visitava há muito. Na sua zona respirei o ar de uma noite embalsamada; cheiro de folha e de flor, de fruta, de terra fresca, de mato e de mar, que nos tonteia docemente quando a lua vai alta. Eram odores diversos, uns mais finos, outros mais adocicados, que eu ia sentindo ao longo das ruas — esse cheiro das trancas vegetais e da respiração das ondas que ao mesmo tempo excita e dá torpor. Durou pouco esse enlevo; o táxi continuou a rodar e de repente tivemos de tapar as narinas.

Porque esta bela cidade continua maltratada e suja. A longa incúria dos homens torna envenenado e imundo em muitos trechos esse ar em que a natureza espalha seus feitiços. Montes de lixo nos terrenos baldios; a baía conspurcada por todas as porcarias e agora também as praias de mar aberto imundas.

Agora me parece pior que nunca. Temos tido administradores vaidosos que fazem isto e aquilo para erguer monumentos à própria vaidade. Precisamos de um que traga este programa simples: limpar. Esta bela mulher não precisa de jóias nem de sedas; precisa, antes de tudo, de ser limpa. E, para nossa vergonha e nossa tristeza, ela é, antes de tudo, suja.

O governador Brizola acredita em eleições diretas, e quer ser, ou é mesmo, um bom moço, os camelôs são pais de família pobres, e, então, merecem nossa simpatia e nosso carinho; logo eles se multiplicam por mil. Aqui em frente à minha casa, na praça General Osório, existe há muito tempo a feira hippie.

Artistas e artesãos expõem ali aos domingos, e vendem suas coisas.

Uma feira um tanto organizada demais, sempre os mesmos artistas mostrando coisas quase sempre sem interesse. Sempre achei que deveria haver um canto em que qualquer artista pudesse vender um quadro, qualquer artista ou mesmo qualquer pessoa, sem alvarás nem licenças. Enfim, o fato é que a feira funcionava, muita gente comprava coisas — tudo bem. Pois de repente, de um lado e outro, na rua Visconde de Pirajá, apareceram barracas atravancando as calçadas, vendendo de tudo — roupas, louças, frutas, miudezas, brinquedos, objetos usados, ampolas de óleo de bronzear, passarinhos, pipocas, aspirinas, sorvetes, canivetes. E as praias foram invadidas por mil vendedores. Na rua e na areia, uma orgia de cães. Nunca vi tantos cães no Rio, e presumo que muita gente anda com eles para se defender de assaltantes. O resultado é uma sujeira múltipla, que exige cuidado do pedestre para não pisar naquelas coisas. E aquelas coisas secam, viram poeira, unem-se a cascas de frutas podres e dejetos de toda ordem, e restos de peixes da feira, e folhas, e cusparadas, e jornais velhos; uma poeira dos três reinos da natureza e de todas as servidões urbanas.

Ah, se venta um pouco o noroeste, logo ela vai-se elevar, essa poeira, girando no ar, entrar em nosso pulmão numa lufada quente. Antigamente a gente fugia para a praia, para o mar.

Agora há gente demais, a praia está excessivamente cheia. Está bem, está bem, o mar, o mar é do povo, como a praça é do condor — mas podia haver menos cães e bolas e pranchas e barcos e camelôs e ratos de praia e assaltantes que trabalham até dentro d’água, com um canivete na barriga alheia, e sujeitos que carregam caixas de isopor e anunciam sorvetes e quando o inocente cidadão pede picolé de manga, eis que ele abre a caixa e de lá puxa a arma. Cada dia inventam um golpe novo: a juventude é muito criativa, e os assaltantes são quase sempre muito jovens.

Mas não haveria algum jeito ao menos de haver menos ratos, menos baratas, e herpes, e sarnas e dermatites e hepatites e eczemas, todas essas belas coisas que se propagam entre gatinhas seminuas e moleques esmolambados, e mendigos e bêbados, e marginais maconhados a deambular?

Que fazer? Fugir de Ipanema, do Rio, do Brasil, do século XX? Do ruído das motocas e dos disparos dos policiais? Dos valões de esgoto e dos imbatíveis montes de lixo a escorrer dos morros?

Confesso-vos que por mim eu clamo e reclamo e choro, e não saio daqui. Planto-me nesta cidade, sobre o mar; vejo nesta noite azul de primavera que o Cruzeiro do Sul está nascendo; e as luzinhas trêmulas das traineiras contam que ainda há peixes no mar; e na floresta das montanhas ainda há gambás e micos, aves e serpentes. Limpe esta cidade, Senhor Prefeito, porque, em verdade, no mundo, nunca cidade nenhuma foi tão bela assim.

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