Confissões de um embaixador – Crônica de Rubem Braga

By | 30/10/2021

Um amigo do Rio me escreve, meio irônico, perguntando como vou enfrentando essas coisas de protocolo e etiqueta, e confessa que não me vê bem de fraque, nem a fazer salamaleques.

Respondo-lhe que vou indo. Já que virei embaixador, devo me comportar como tal; afinal toda a minha vida enfrentei mais ou menos bem as tarefas que me tocaram, das mais humildes às mais honrosas.

“Sem brilho e fulgor”, como diz um velho samba — mas razoavelmente.

Do fraque, da casaca e de outras roupas de rigor lhe direi, amigo, que prefiro andar de calça e paletó-saco; mas por isso mesmo que nunca liguei muito a roupas, pouco me importa vestir as de gala.

Elas são, para um embaixador, roupa de serviço — “roupinha da briga”, como se diz no Rio — e não honram nem desonram mais quem a veste que o macacão ao mecânico. E por mais antipáticas e ridículas que possam parecer ao homem do povo, que nunca as usa, têm isto de simpático e mesmo democrático: são uniformes. Igualam as pessoas que as vestem; nada se parece mais a um homem de smoking que outro homem de smoking; o do rico não é muito melhor que o do pobre, e todos se confundem em qualquer reunião. Esse caráter igualitário (dentro de um certo meio) das roupas de homem contrasta com os trajes femininos; em toda festa as mulheres mais ricas ou de mais bom gosto aparecem com vestidos mais caros ou mais elegantes que os das outras; há uma competição permanente, que os cronistas mundanos acirram e os comentários das amigas e inimigas movimentam. De chapéus femininos, nem se fala, tal a variedade e tão tênues os limites entre o sublime e o ridículo; pois eu comprei uma cartola no Chiado, e ela é perfeitamente igual a qualquer outra cartola de Marrocos, e deste mundo.

A quem não é fátuo, não é o fato que o fará; veja, amigo, que fiz uma frase em efe, ou em fá.

Do protocolo, direi que este mundo tem suas regras, como todo convento as tem. Antigamente, quando se encontravam chefes de Estado ou embaixadores de vários países, cada um se achava com mais direitos que o outro, e merecedor de mais honrarias. Isso dava motivo a muitas disputas vãs.

Hoje eu chego ao meu posto e quando começo a visitar os colegas, não pergunto qual é o mais importante, pergunto apenas quem chegou há mais tempo; e é nessa ordem estrita da antiguidade no posto que os visito. Quando me retiro, o colega vem me trazer não apenas à porta, mas à calçada, chova ou faça sol; e não arreda o pé antes que meu carro se movimente e ele me envie um último aceno e um último sorriso. Ao receber visitas, faço o mesmo, seja o visitante embaixador da mais vaga republiqueta ou da mais forte potência mundial.

Cumprir essas regrinhas que qualquer livro de etiqueta ensina, é ser correto; e ser correto evita ser parco ou excessivo em cumprimentos, ambos os extremos igualmente odiosos.

A regra, uma vez estabelecida e aceita por todo o mundo, funciona como um reconhecimento de que todas as nações, todos os agrupamentos humanos merecem igual respeito. É cômodo — e fundamentalmente simpático.

Vê você, meu amigo, que me adapto ao ofício, tanto quanto posso, e procuro ver o lado bom dele, inclusive de seus ossos; não creio que ele me faça melhor do que sou, nem mais tolo. Abraço, adeus.

Marrocos, janeiro, 1962.

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