Contos dos bosques de Curitiba – Dalton Trevisan

By | 15/11/2021

NELSINHO encostou a porta, encurralada a moça no canto:

– É hoje.

Roçou a sombra do lábio, a espinha na asa do nariz. Ela voltou-lhe a face: beijou-a ferozmente na boca.

Fechou a porta, empurrando-a com o pé. Certa que iriam ficar nos toques e blandícias, pendurou-se ao seu pescoço. Pousou a mão no peitinho, ela se encolheu, vergonha do seio pequeno? Era dona experiente, sem provocá-la não conseguia nada:

– Duvido seja carne – é borracha!

– Não faça isso. Vem gente. – Suspirosa, pesando cada vez mais no seu ombro. – Se vem gente?

O herói estendeu a mão, deu volta à chave:

– Vem não.

Arquejante, estalou os dois colchetes, ergueu lhe a blusa. Ela que baixou o sutiã. Surgiram dois bocados cor-de-rosa:

– Nunca vi coisinha mais linda!

Ai, mãezinha do céu, aquilo sim era seio – dois de uma vez, sem mentira.

Se apertasse o biquinho espirrava leite?

Brasão de família, ela confidenciou que o da mãe era mais bonito.

– Depressa. Vem gente.

Risinho abafado, queixou-se de cócega.

– Que maravilha – a mão cheia, ele sopesava o fruto. – Ó perfeição da natureza!

Ares de distraída, olho ausente no teto:

– Sou nervosa. Hoje estou fria.

– Como é que você gosta?

– Sem inspiração eu não posso.

– Ah, é…

Beijava-a raivoso, lábio inchado de mordida. Ela titilou a língua no céu da boca. O herói, sem sair do lugar, descreveu duplo salto mortal.

Deslizou a mão no joelho, debaixo da saia cinza. Magra, usava anágua.

Assustadiça, arregalou o olho:

– Não. Não. Aqui não.

– Seja boba.

Conversinha em sussurro, na ânsia louca do mais cobiçado prêmio da terra.

– Querido, pode vir alguém.

Na última resistência, vencida pela surpresa. Levantou-lhe a anágua e viu

– o que ele viu? Babados, brincos e rendas da ilha da Madeira!

– Ai, você me machuca.

Da vacina contra varíola, queixou-se de íngua no braço.

– Já faço benzedura de íngua.

A bela soltou o botão da saia e correu o fecho. Agora de blusa e anágua. Sem blusa. Sem anágua, desfeita aos pés. Magrinha e branca, dava pena – deitou-a no sofá de couro vermelho.

– Espere, meu bem.

Ela derrubou o sapato, raspando na beirada o calcanhar. De joelho no tapete, Nelsinho babujou-lhe o seio.

– Me olhe. Abra o olho.

Toda trêmula, escondeu o rosto no seu ombro:

– Sinto vergonha. Gemido abafado de terror:

– Tenha pena de mim!

– Juro que…

Quem me dera um espelho, uma almofada, um anel mágico.

-… não faço mal.

Sem inspiração, a bela enterrou-lhe a unha no pescoço:

– Me beije. Ai, meu amor – e rilhando com fúria os dentes. – Ai, me beije.

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