Coração de ouro – Conto de Nélida Piñon

O testamento incluía, como parte da herança, uma língua francesa soberba, com arcos, abside, transepto, regras escolásticas. E ainda um inglês que, apesar de inclinar-se às manifestações líricas, facilmente desarticulava certos conjuntos dentários.

Antenor Couto conformou-se com a sorte, que lhe veio acompanhada de ações, títulos, glebas na Barra da Tijuca, e dois edifícios. O primeiro na Avenida São João, povoado de inferninhos e traficantes. O outro na Avenida Rio Branco, coração do Rio antigo, cujos inquilinos iam desde autônomos a liberais ansiosos em ingressarem na vasta rede financeira do país.

Naturalmente a posse destes edifícios, situados nos pólos dramáticos de um país em desenvolvimento, iria provocar-lhe o gradativo abandono do francês, e a capitulação de um inglês que, em verdade, já lhe chegara tímido, de modo a envergonhá-lo quando se hospedasse no Hotel Pierre, após o término do inventário.

E embora quisesse guardar imaculada a emoção com que havia alisado a porta de entrada do edifício carioca, de aspecto senhorial apesar dos elevadores rangentes, não se esquivaria Antenor Couto em também tocar as paredes do prédio da Avenida São João.

Para a viagem a São Paulo, querendo experimentar os impulsos da fortuna, fretou um jato. E porque desejava um hotel que ao mesmo tempo aninhasse seus sonhos e o surpreendesse com o café da manhã, inclinou-se pelo Sheraton, contra os desejos do seu advogado que recriminava uma cadeia hoteleira que, pelas graças dos xeques, armadores, embusteiros internacionais, e grupos de vôo charter, desprezava os limites do ocidente.

Não quis apressar-se em desfrutar da vista do prédio da São João. Temia apresentar-se à portaria do hotel sem uma reserva de ao menos quinze dias de antecedência. Não queria que lhe notassem o suor, a urgência, e o hábito próprio das pensões. A fortuna destinando-o aos detalhes, exigia consulta diária a uma imaginária bola de cristal, cuja superfície polia com camurça e bafejava com sorte e saliva.

Aproximava-se do poder carente de informações, dele formando um rosto em tudo distante ao que sabia de um urso, por exemplo. De nada servia o vizinho a descrever-lhe as garras com que o poder expedia insinuante convite para deslizar por um chão encerado conduzindo ao futuro.

O espelho ainda era o único a segredar-lhe de que matéria o poder se cercava para arfar silencioso. Com que perspicácia banhar- se todos os dias até aprender que o poder dele emanante permaneceria na sala, como um bibelô, ainda que Antenor se ausentasse dali. Este poder prolongando-se mesmo na pessoa do seu carro. E multiplicando-se de acordo com suas posses, seu nome encimado como coroa de louros sobre escrituras, títulos, ações. Uma prodigalidade que o dispensava de praticar gestos para que o considerassem autor dos mesmos. Tanta complexidade superando afinal a própria índole do espelho que, para o refletir, dependia de cristais e brilho amalgamados. Como um cilício à sua cintura, a fortuna regia sua sombra e sua memória.

Automaticamente, os hóspedes da suíte presidencial tinham à chegada os hábitos cadastrados. Antenor Couto, porem, enviou-lhes a secretária três dias antes com informações julgadas indispensáveis ao seu conforto. De modo a mais facilmente compor-se o seu retrato bordado com famintas agulhas c fios pelas mãos de todos os funcionários da empresa.

O BMW 320 seguiu para São Paulo com ordens de pagar cm dobro o pedágio. O motorista esclareceria aos fiscais o quanto o seu patrão opunha-se às taxas em vigor. Assim como protestara contra os elevados impostos de transmissão da herança chegada à porta pela entrada da cozinha, quando ainda de pijama sorvia café carioca, censurava o paternalismo governamental em subsidiar obras que antes deviam os usuários manter. Uma posição cívica aliás defendida no Jockey, durante o almoço com que o advogado homenageava o inventário ora em curso.

Privado de condução, a secretária enviou-lhe de São Paulo carro de luxo, da antiga frota do Roberto Carlos, para levá-lo ao Galeão. Coberto de poeira e com uniforme azul, o motorista deixou-o ao meio-dia no aeroporto. E parecera-lhe natural o transporte vir de outro Estado. Absurdo seria obrigar um motorista desta cidade a mais uma vez enfrentar o congestionamento da Avenida Brasil. Sempre solidarizou-se com o profissional do volante obrigado a circular por ruas estreitando-se à medida que maior número de carros teimava em adotar idêntico roteiro. Realmente a cidade perdera respeito pelas ruas preferenciais, criadas em verdade para os que deviam responder pelos interesses nacionais. Junto à fortuna, viera-lhe a responsabilidade social, timoneiro que era de bens consideráveis. Dispensado do exame da bagagem, por ser o único passageiro, com ele não vinham outros convidados, sentiu-se ofendido. Sofria com a insinuação de que havia afastado os amigos justamente quando recolhia a prodigalidade da primeira safra. Como explicar à moça de azul que sua solidão devia-se à modéstia dos próprios atos, ao desejo de poupar os companheiros dos sentimentos mesquinhos que fortuna como a sua fatalmente gerava.

Para surpresa da moça, Antenor Couto exigiu que se revistasse a tripulação. Entre eles podia existir um pirata aéreo desejoso de visitar o mundo à custa de sua fortuna. E a ele também fiscalizassem, em hipótese alguma deveria sucumbir à tentação de alterar o roteiro com arma que não tinha, c verdade. Mas com a arma da palavra, do comando, da riqueza.

 — Não quero tornar-me pirata aéreo de mim mesmo.

O almoço foi servido com solenidade de jantar. E com que prazer deixou o Mouton Rothschild quase intacto na garrafa, difícil aprendizado que a sobriedade do rótulo e seu inconfundível preço ensinaram-lhe. Apesar do vinho, irritava-o pensar que lhe faltara coragem de pedir à secretária alguns endereços femininos. Logo a ela, com ar de princesa, dedos finos, delicado cerrar das pestanas, que lhe haviam recomendado como um cartão de visitas do Tiffany’s, espécie de cristal com dezesseis vibrações. Tão elegante era que lhe bastava erguer-se da cadeira, dizer bom-dia, intensificar o azul da pupila, para prestigiar a empresa.

Imediatamente tratou-a como parte da herança, dos móveis de assinatura, a cujo catálogo devotava atentas leituras. E porque suspeitava que o seu valor correspondia exatamente à cômoda shipwood do seu quarto, evitava arranhar-lhe a superfície, ou deformar-lhe a fechadura da alma com tema inadequado. Sonhava com um futuro em que ambos se aproximariam da realidade através de um código simples, em que ao mencionar papel timbrado ela o endereçaria a um discreto apartamento em Copacabana.

Ajustado à riqueza e ao cinto de segurança, começava a sesta, após três goles do Armagnac que os anos despojaram do rótulo, quando a aeromoça o despertou sem dar-lhe tempo de evitar a contração facial de que se envergonhava. E só após desfazê-la no banheiro com água c sabonete, exigiu que sobrevoassem São Paulo por mais quinze minutos, até ajustar- se a uma cidade que o Brasil sabia a caminho da loucura. À insinuação de que ardia em fogo o berço em que nascera, a aeromoça recolheu no rosto a mesma contrariedade que antes estivera em Antenor Couto.

No hotel, a secretária mostrou-lhe as vantagens da altura, dali apreciariam a cidade como se voassem. A certeza de que o viam em harmonia com o poder, sem tornar-se voraz, lisonjeava AC. Havia agora em sua vida uma nova escala musical a que obedecia. E, tomado pela emoção, falou à secretária em francês para assim ela estimulá-lo a enfrentar o inglês.

Mas, surpreendendo Antenor Couto em direção ao fundo do mar, já desencorajado por inúteis braçadas, ela própria adotou um inglês com sintaxe latina, tropeçando nas palavras em que a sabiam mestra. Ele aprovou tal fracasso aceitando champanha e canapés previamente encomendados para quando se sentasse naquela poltrona reservada aos hóspedes ilustres.

Uma garrafa não bastou para a sede dos dois. E sempre que outra lhes vinha à porta, transferiam a hora das despedidas. Sob o pretexto de consultar a agenda, centro nervoso das esperanças de AC, ia ela ficando no quarto, até que lhe foi sugerido instalar-se ali como em casa, a partir daquele momento ele seria seu hóspede.

Ao despertarem na mesma cama, as roupas dispersas no chão, ela folheou voraz a lista telefônica. Mas, como o brusco movimento destacava-lhe a beleza que a noite havia escondido, Antenor Couto ordenou champanha a pretexto do café da manhã. Sorveram quantidade que os levasse de novo ao leito, e, pela madrugada, tomando da agenda contra os seios ligeiramente dourados, ela disse:

 — Já perdemos o primeiro dia.

Tratavam-se com cerimônia. De senhor e de senhorita, como os notáveis de Carlos V. Entre suspiros removiam os prováveis compromissos da agenda. No quarto dia, no prédio da São João, AC envergonhou-se de uma propriedade que, além das marafonas, rufiões e traficantes, há muito não dedetizavam, as baratas seguiam pelo elevador com preguiça de usarem as escadas. Salvou-o da humilhação haver deixado a secretária no hotel. O administrador indicava os problemas a minarem o organismo de cimento, muito tempo levaria para repará-los.

 — Mas, não tem importância. Ainda que nuas e rasgadas suas paredes valem uma fortuna — olhou-o fundo nos olhos.

Afogou a desdita na penugem loira da secretária. E enquanto aguardava os telefonemas sonhados no Leblon, ela preenchia as últimas linhas da agenda, lamentando, quase a abandonar-lhe as páginas, não dispor de um segundo volume naquela noite ainda.

Antenor Couto despertou disposto a que o Brasil lhe reconhecesse os direitos. Traçou fronteira entre ele e a secretária e, de terno bege, aceitou a generosidade paulista sob forma de uma fatia de mamão. A secretária comovia-se pelos planos traçados no Rio de Janeiro que afinal ganhavam luz.

O motorista no carro cuidava em não transpirar, sempre evitando as cercanias da São João, celeiro de reminiscências e prosperidade, que talvez o patrão quisesse esquecer. Às três, encerraram o passeio. Já na suíte, ela redigia o segundo volume da agenda que destilava letra miúda e tinta preta, quando o telefone soou pela primeira vez. AC advertiu-lhe que não atenderia mesmo se ao aparelho estivesse o presidente de Usiminas, com quem recentemente almoçara no Montecarlo.

A secretária repetia: sinto muito, que pena, uma próxima vez, claro, seria um prazer, muito obrigada. Absteve-se ele de indagar as razões dos lamentos, que o executivo de Usiminas sofresse solitário o dissabor da rejeição. Fiel ao acordo, ela não lhe prestou satisfações. Atendia às chamadas que pessoalmente encomendou à telefonista com expressões e palavras idênticas.

Ao oitavo dia, Antenor Couto lamentou os excessos de tal agenda, queria afazeres amenos. Autorizou à portaria o cancelamento dos comitês que impusessem banquetes e discursos. Sensível às evoluções do mercado financeiro, cujas normas previra antecipando-se ao pensamento do Ministro, abanava a cabeça. A fortuna crescia- lhe durante a sesta.

A dois dias de regressar ao Rio, chegou um telegrama, o carimbo urgente. Tomou do envelope, suspirou, e disse, antes de passá-lo à secretária: nunca deixam em paz o homem de fortuna. Ela cheirou as bordas, sondou sua origem, mutilou-o com a tesoura. Na poltrona, AC media a distância entre ele e a cidade. E enquanto a secretária preparava a primeira das muitas malas, não a apoiou na hora da crise, ou regalou-a com um lenço que lhe enxugasse a testa. Ela apertava a agenda com ardor, que não fosse ao chão. Logo a agenda onde se instalara o coração de Antenor Couto, região nevrosada, também com ricos vasos, de batidas que divulgavam sentimentos e ritmos alternados por todo o corpo. Decidira cuidar do coração de papel sem lhe permitir espaço em branco. Tecia-lhe uma vida que se ia transferindo sempre para a próxima semana. Na vida dos dois não existiam horas que desperdiçassem sem conseqüências fatais. Tomava pois do coração de AC e o preenchia com horários, compromissos, para ele pulsar selvagem.

O Sheraton solidarizou-se com os motivos que impunham a partida. Sobretudo diante da sua insistência em saldar as noites previstas na reserva. No avião, concentrado nos problemas, pedia pressa ao Comandante.

A secretária tomava-lhe o pulso, receava as conseqüências de uma vida atribulada que não tinham como afugentar. As viagens se sucederiam, assim como os almoços no Museu, jantares em Roma, até que alcançassem um dia o Hotel Pierre. Ela prometia com o olhar segui-lo de perto, recolher os triunfos antes que esfriassem. Uma compota sem dúvida que provariam com pequenas colheres de prata, e seriam modestos. Jamais abandonaria a agenda, que era o coração dos dois. Ou esqueceria de providenciar telegramas redigidos pessoalmente com o propósito de inquietá-lo e trazê-lo de volta a casa, de onde novamente planejariam a próxima semana.

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