De como quebrei a cabeça à mulher do Melo – Conto de Monteiro Lobato

1906

– OLHA, esperam-te hoje em casa para o jantar.

– Impossível. Não janto fora.

– Abre uma exceção e vai.

– Impossível, já disse. Não insistas.

– Põe de lado a esquisitice e vai.

– Não é esquisitice, meu caro, é sibaritismo e prudência. Tenho para mim que comer é uma das boas coisas da vida. Mas comer o que se quer, como se quer, quando se quer. Gosto, por exemplo, de lombo de porco, mas a meu modo, assado cá dum jeito que sei. Se o como fora de casa, nunca o tenho ao sabor do meu paladar. Gosto ainda de comer quando tenho fome. Detesto o horário forçado, almoço às onze, jantar às seis, haja ou não apetite. Ora, a não ser em minha casa, onde não tenho horário, raramente o apetite coincidirá com o momento do bródio. Esta circunstância, aliada ao fato de ser induzido a comer o que está na mesa e não o que me pede a veneta, leva-me a recusar sistematicamente convites para jantar.

– Mas, homem de Deus, para tudo há remédio. Farás tu mesmo o cardápio, darás as receitas e só se porá a mesa à voz do teu apetite.

– Não. Em tua casa são todos de tal modo amáveis que receio não chegar à sobremesa sem cometer um homicídio.

— !!!

– Nunca te contei o meu rompimento com a família Melo? Éramos amicíssimos de longos anos e sê-lo-íamos até hoje se não fosse a minha imprudência aceitando um convite para lá jantar em dia de anos da dona Vidoca. Havia à mesa umas dez pessoas, todas íntimas, e as filhas, os genros — um povaréu. Dona Vidoca, como sabes, é uma criatura excessivamente amável e nesse dia excedeu-se. Serviu-me sopa, ela própria, mas carregando a mão como se eu fora um frade. Arrepiou-me aquele pantagruelismo brutal, mas calei a exasperação e ingeri com paciência toda a maranha de fios amarelos, boiantes num caldo untuoso. Mal absorvera a última colherada, a boa senhora, sem consulta prévia, atocha feijão num prato e passa-mo.

“— Não, minha senhora, muito obrigado!

“— Ora, coma! Deixe-se de história. Coma feijão que dá sustância.

“Não houve escapatória possível; tive que aceitar o truculento prato de caroços pretos, coisa que detesto. Olhei para a rodela escura, cor de chocolate, que se me esparramava pelo prato inteiro sem deixar transparecer uma nesga sequer da louça branca, enchi-me de resignação e empreendi o trabalho de Hércules que era trasladar tudo aquilo para o estômago. Mas meu sangue começou a esquentar e senti o nó das cóleras surdas a subir-me à garganta. Estava eu em meio da empreitada, quando vi a excelente senhora dirigir para o meu prato um enorme naco de carne fisgado no garfo.

“— Doutor, um pedacinho de carne assada? “Gaguejei, mal firme nas estribeiras:

“— Mas, minha senhora, eu…

“— Sempre com cerimônias! Olhe que aqui não se usa disso! Coma lá! “E soltou-me no prato o boi…

“Senti bagas de suor frio borbulharem-me na testa. O nó da garganta engrossou. Baixei a cabeça, resignado, e encetei silenciosamente a mastigação, matutando sobre o modo de dar cabo daquilo. Comer tudo era impossível; deixar no prato, impolidez…

“— Agora um pouco de arroz!

“Lancei um olhar facinoroso à santa criatura, que o interpretou de maneira errônea, como de assentimento.

“— Eu bem vi que estava querendo arroz.

“— Impossível, dona Vidoca! Peço-lhe perdão, mas estou satisfeito. Como pouco e o que tenho no prato janta-me por três dias.

“— Luxento! Coma lá!

“E zás!, uma, duas, três colheradas, das grandes.

“Uma onda de sangue escureceu-me a vista. Tive ímpetos de saltar pela janela. Contive-me, porém, e com a resignação dos verdadeiros mártires recomecei a mastigar.

“— Um pastelzinho agora?

“Era demais! A virtuosa criatura abusava da minha situação. Recusei desabridamente, áspero.

“— Já sei por que não quer… É que foram feitos por mim… Mas deixe estar…

“— Dona Vidoca! Pelo amor de Deus! — gaguejei.

“— Unzinho só! Para me dar opinião sobre o tempero da massa, sim?

Apare lá estezinho tostadinho, sim?

“Conheces o meu gênio, sabes com que facilidade saio fora de mim e cometo as maiores loucuras. Esse estado de superexcitação nervosa preludia por um tremor da voz e excessiva quentura nas faces. Naquele momento, sentindo os pródromos da erupção, entreguei-me a esforços sobre-humanos para conter a fera que mora em mim. E contive-a. Curvei de novo a cabeça e levei à boca mais umas garfadas.

“Aqui Melo principia a trinchar o leitão.

“Refleti: se mo oferecem, estouro. E fiquei de sobreaviso, engatilhado para o revide.

“Não tardou muito que dona Vidoca espetasse no garfo uma alentadíssima costela de leitão e fizesse pontaria para o meu lado.
“Ah! Perdi a tramontana! Agarrei na garrafa que estava na minha frente e abri a cabeça da santa criatura com uma pancada horrível!

“De nada mais me lembro. Ouvi um berro, um clamor. Senti o pânico em redor de mim e corri para a rua como um ébrio. Foi quando…”

Não concluiu. O amigo havia abalado.

Nota da primeira edição (1946)
Esta história deu origem a curioso incidente. Publicada em julho de 1906, sob o pseudônimo de Antão de Magalhães, no Minarete, que circulava não só em Pinda como nas cidades vizinhas, caiu sob os olhos de um hoteleiro da cidade de São Bento, de nome Melo e por coincidência esposo de uma senhora de apelido Vidoca. O excelente homem viu no artigo alusões pessoais e ofensivas a ele e sua família — e apresentou queixa-crime. Aqui vai a petição, transcrita do Minarete:

Ilmo. e Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito desta Comarca.
Diz F. F. Melo, por seu procurador, que, sentindo-se ofendido, com sua família, pelo injurioso artigo do Minarete, periódico de imprensa desta cidade, ora junto, distribuído por mais de quinze pessoas, intitulado “De como quebrei a cabeça à mulher do Melo” de 19 de julho de 1906, assinado por Antão de Magalhães, edição nº 159, e querendo a bem de seus direitos promover a responsabilidade criminal do autor, que não é pessoa conhecida, pelas injúrias que afetam ao suplicante e sua família, vem requerer a V. Exa. que se digne mandar intimar ao editor ou gerente da tipografia do dito periódico, senhor José Monteiro Salgado, que é quem assumiu a responsabilidade da publicação do Minarete perante a Câmara, preliminarmente, para exibir em juízo o respectivo autógrafo, em dia, lugar e hora previamente designados, requerendo também o suplicante a V. Exa. para isso uma audiência extraordinária, visto ser urgente a diligência etc. etc. Nestes termos, o suplicante requer que D. e A. esta, com os documentos inclusos, se proceda na forma da lei, a fim de que, terminadas as diligências, a exibição do referido autógrafo e pagas as custas do processo, sejam os autos originais entregues ao procurador do suplicante independente de traslado, para deles fazer o uso que convier ao suplicante.
P. deferimento E. R. M. Pinda, 26 de julho de 1906. Com a proc. inclusa — o advogado J. M. F. J.

O processo não foi por diante, irrisório que era. Apesar disso, a brincadeira custou ao escamado hoteleiro perto de um conto de réis…

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