Disse um campônio a sua amada – Conto de Nélida Piñon

Se o dinheiro não bastar, eu aposto o coração. É uma moeda que também tem preço. Arranco do peito e fresco ainda jogo ele sobre a mesa para juntos ouvirmos as batidas de um órgão que me fez te amar desde a manhã até o anoitecer, para ao teu lado comover-me com as lágrimas que hás de derramar, sem dúvida, pelo meu sacrifício. Mas, se ainda assim achares que nem um coração despeja o sangue com que esperavas nutrir-te por muitos anos, podemos ir em busca de outras partes do meu corpo, não me importo que justamente você me tome os pedaços, não há ali o que já não te cedi adiantado.

E isto desde o primeiro dia em que te conheci. Veio-me então da boca um grunhido de raiva por conta da perdição com que teus olhos me ameaçavam. Primeiro fingindo não me ter visto, depois já não podendo mais disfarçar, ruborizou-se de modo a que tua inocência me envolvesse com fios de lã e arame. Senti-me um bucaneiro destronado, com algas e polvos nas mãos. Em ti eu enxergava ao mesmo tempo, e isto apesar das adversidades, um ombro amigo e um ninho onde esconder a cabeça das intempéries.

Não sei qual terá sido seu primeiro passo em falso. Sei que a mim mesmo proclamei imperativo que o inimigo era você e não eu. Pois não tem a criatura o direito de sucumbir ao que lhe arrasta a alma pelo chão sem ao menos resistir, usando para isto cota de ferro, gritando por socorro. Só porque lhe oferecem à porta uma vida de aventuras que excede aos próprios sonhos. A loteria do amor.

Se ela é a minha perdição, há de perder-se comigo, escrevi no bilhete que até hoje arrasto na carteira, para não esquecer. O papel desfaz-se entre os meus dedos do mesmo modo como evitas entregar-te às minhas mãos.

Desde o início tudo em mim organizava-se para uma paixão sem limites. O amor cravava- me ao solo, tinha ambições de viajar ao centro da terra. Obrigando-me a caçadas onde buscasse, além de bisões extintos, uma flora esquecida, um mundo mineral em abandono, os sentimentos enfim que as trevas e as normas proíbem. Ia o bem- querer me iluminando, enquanto este amor detonava a ordem das estações.

Com os olhos eu te dizia, seja bem-vinda à casa dos meus sentimentos, a esta casa secreta feita de sal, folhas, açúcar, cacos de vidro. Mas eu sabia das dificuldades. Todos os gestos e palavras fortes estavam proibidos. O teu próprio nome, enigma de ti mesma, escapava- me, era um dardo no meu corpo. E eu o seguia, como hoje ainda. Só para pronunciá-lo, que sua sonoridade ressoasse em mim. Uma vez que você é o território das coisas e das pessoas. E não identifico o que não cabe nos teus limites. Talvez por isso cerco-me de armas, já pelas manhãs, os teus cabelos sobre o travesseiro. Sei que és implacável, o teu objetivo é o centro do meu corpo. Ali acampas e ali transgrides. Exerces o poder de que necessitas. A vida ali está, e você bem sabe. Caminhas firmes, mastigas os obstáculos, em minha direção. Te suplico, não, não avances mais. Peço libera nos a malo,  mas você é de uma geração que não aprendeu latim, nasceu com a missa traduzida para um português sem encanto, desprovido de magia, carvão e fogo.

Lembro-me de quando entraste no meu carro pela primeira vez, logo pediste a direção. Até então eu havia sido o timoneiro do próprio destino. Mas, o que querias, a velocidade, o desmando, ou a minha morte? A vista escureceu-me, solidário eu com a minha própria sorte. Felizmente, o calor da tua chegada devolveu-me a vida ao mesmo tempo. Eu me dizia, acaso morro e vivo unicamente para testemunhar um amor que se quero pronuncio seu nome, dou-lhe endereço, e junto seguirão flores?

E, no entanto, quanto mais te via, jamais te enxergava toda. Devia sempre completar o que faltava, uma vez que tanto havia que eu, sim, mal sabia onde encontrar-me. O passeio pelo teu corpo tornou- se o caminho da terra. Mal me refazia dos teus precipícios, e lá esbarrava contra os seios. Pequenos, sólidos, neles minhas mãos pousaram a primeira vez por muito tempo. Lembra-se? E quando depois de não sei quantos dias consumidos nesta travessia completei a coleção do teu rosto, que pelos detalhes ricos e luminosos compunham um dicionário, descobri ali faltar o verbete amor. Socorri-me rápido no Aurélio, que também não me salvou. O Mestre não te previra, amor. Desde, então, passei a te inventar com um direito conquistado por um corpo que se vem deixando ficar em pedaços pelo caminho.

Quantas vezes você me chama de selvagem. Embora hesite em enumerar as tribos brasileiras, por falha de memória, ou claudique o seu orgulho nacional. Agride-me com a certeza de que jamais receberá batismo cristão quem ainda mergulha nas entranhas maternas com o propósito de não esquecer a doçura do primeiro leite. Justamente este leite que me impulsiona a seguir-te pelas ruas, só para você se recordar que, pisando a terra, esta terra será em seguida decifrada pelos meus passos.

Quem sabe me chamas de selvagem porque te beijo como você quer, o que te impede de reclamar a própria custódia. E que culpa tenho, vamos, admita, ah, e sou selvagem ainda porque fecho os olhos bebendo champanha enquanto arrebatos verbais esgotam a última gota no cristal de vinte e três vibrações. Medito, então, ser selvagem para ela é um alívio, e para mim uma carga. Ou será para ela o retrato do seu amor, e a certeza do meu destino.

Claro que origino de uma montanha onde se apascentam ovelhas e cabras, sempre sob a proteção do cajado, maçãs, e do pão de milho, e enquanto dura a luz natural da terra. Posso pois arrancar meu coração para satisfazer a tua vaidade. E o que não faria para afirmar a tua beleza? Não quero dúvidas quando te olhes no espelho, este lago traiçoeiro que por mim dispensarias, para se consultar unicamente em meus olhos, amigos, sofredores, e mais velhos.

Você ri quando lhe asseguro ser a única referência do teu corpo. Meu corpo é meu corpo, diz você querendo falar, isto sim, domínio. Finjo não perceber, peço reconsideres, como admitir o próprio corpo se o meu não te confirma a pele, o gosto de sal, as pulsações da vida nos extremos nervosos, os olhos que se cerram com estremecimentos repentinos. Você resiste, não insista, não importa o que conquistes em mim no futuro, sou a única a avaliar a própria beleza, mesmo porque há muito você está perdido pelo amor. Não, não é pelo amor que me perdi, te enganas muito. Estou no mundo refazendo-me graças ao nascimento familiar. Sou de raça antiga, esta é a verdade, os nossos tonéis de carvalho abrigavam vinho tão espesso, que bastava bebê-lo para os lábios inscreverem na parede palavras imperecíveis. Entre nós a brincadeira era decifre e não me devore. Você ri dos meus exageros. Acusa de ser a fantasia o meu alimento, a forma de resistir ainda quando me querem queimar. Sempre urrei no meio da noite como um cão, divisando sombras mentirosas, apesar dos fios dourados do teu cabelo.

Esta paixão pela terra chegou-me com a límpida água da fonte, eu que a cuspia para limpar os dentes. O avô foi o primeiro a ensinar-me a perder partes do corpo com elegância, especialmente se justa fosse a causa. Dizia sorrindo que nem as emendas do destino podiam transformar um homem. Eu era de pedra e junco, devia assim ficar. Eu cedia-lhe o sorriso que o fizesse saber que havia compreendido. Com você, porém, é diferente. Rio temeroso de não rir na manhã seguinte. Embora teu rosto se ilumine quando pulo inesperadamente as janelas, corro ao seu encalço numa esquina distante da que havíamos combinado encontrar, quebro o vidro do teu carro, só para deixar-te bilhetes e gerânios, flor de pouca estima.

E beijando teus dentes impecáveis pergunto, onde está a minha alegria se da boca me vêm igualmente suspiros, palavras tristes aos borbulhões. Você não acredita, diz como pode ser triste quem amanhece amando vorazmente a terra. E é verdade, mesmo se te perco, a terra é minha, foi presente de berço. Tomo-a pelas manhãs no braço, para a terra e eu sentirmos os impulsos deste amor. Mas, não te entristeças, que te amo também, e tanto que o coração está à disposição, para o teu garfo e a tua faca, para o serviço de prata, para o sacrifício e o prazer, sei bem que a caminhada em tua companhia é longa e áspera.

Não pense que vou perder-te. Se você sair correndo, eu tomo o bonde e vou atrás. Todo meio de transporte é acessível ao amor. Só voltaria derrotado se você gritasse cansei de te amar. Nunca mais me verias. Ia me esconder atrás de um rio que te tivesse na outra margem. E ainda que falassem de teu nome, eu te pensaria morta, porque você me teria matado primeiro. E não adiantaria tocar-me o ombro cm tabernas amigas, onde o repasto uma vez foi comum a nós dois. Eu te olharia talvez, não poderia evitar que se fizesse a nossa história, mas desmancharia qualquer enredo pedindo licença para instalar-se, para todos os efeitos cu não havia estado na mesma sala, apesar do cheiro arrebatado do teu perfume que teimoso instalou-se cm minhas narinas.

Não ria, por favor, se me perderes uma vez, perderás para sempre. Eu nunca voltei igual para os objetos quebrados. Ajudo a reconstruí-los, para benefício de minha memória e de meu futuro, mas aos meus olhos são jarros enterrados na terra. Mas eu te tenho pensando em não perder-te. A minha paixão reconstitui a morte e a transfiguração. Uma falta de ar que deixa a memória entrar, quando necessita que a vida me invada.

Tudo me arde, sou uma sarça ardente. Então te arremeto bilhetes pelo correio, alguns seguem direto para o teu regaço, ali os deposito enquanto dormes. Penso, como sou leviano não cuidando do que escrevo se ela toma a si a tarefa de valorizá-los. Eu porém me descuido da escritura. Só cuido do amor, este sentimento carnívoro, gordo, de vísceras fartas, dentro cabem farinha, feijão, pimenta, lágrimas, ah, os teus beijos e o cheiro da agonia. Tenho vontade de furar com alfinete o balão do sentimento. Porque é uma esfera de gás, sabia? Sobrevoa os obstáculos da terra. Pois tudo é geografia. E não será o amor também um acidente geográfico, um istmo, um conjunto de ilhas a quem chamam península?

Ah, amor, não fique triste, que este mundo é todo teu, de todas as ilhas você é a mais bela, intransigente, cercada de amorosas silvestres. De rochedos difíceis, eu te vejo, como os de Dover, impecavelmente brancos. Eu passo perto como alado, dando-lhes bicadas, estralando os dentes, me desplumo, quero armar ninho e sou expulso. E você gargalha para o mar, porção generosa do teu signo.

Por natureza, você é amiga das águas, enquanto alio-me à terra. E sempre que ingênuo penso-te em terra firme, qual o quê, envias bilhete rabiscado sobre a líquida superfície da tua baía amada, e que jamais recebo.

Como ler a tua ortografia marítima, quando a palavra se forma de sonho, devaneio e infinita indecisão pelo futuro. O futuro é a tua obsessão. Eu me contento com o presente, ainda que mergulhe no passado para caçar algumas imagens que me cede ele em troca de alimentá-lo com as sobras mal vividas do dia de hoje. Só que não posso, sinto muito. Se recorro ao passado é para despertar pelas manhãs sem súplicas, quando teço um cotidiano de rendas, bordado, em que tudo cabe, nada dele seja expulso. Ao passado, vou sim, como a um cinema, vejo a fita, cada filme, ainda que o mesmo, parece-me sempre diferente. Aí decido viajar, emplumado e novo. Você irrita-se que eu desapareça cumprindo fielmente a minha palavra de ausentar-me tantos dias. Não regresso senão no prazo determinado. Não quero jamais que você desconfie de minha palavra. Apesar de líquida, e nadar exaustivamente nos fins de semana, você anseia pelas coisas firmes, quer sejam pedras, casa, tijolo, ou o olhar direto que surpreendes em mim.

Você finge não ligar quando te traem, te mentem. Diz, a vida é assim mesmo, acaso não sou adulta para compreender, acaso não traí e escarrei em rostos incautos? A verdade é que você quer o meu peito rasgado todas as noites, pela alegria de ver-me em brasa, certa de que o seu barco ancorado em mim vê a palavra minha cumprir-se. Exiges de mim muito mais que confessas. Eu te entendo, me queres padecendo em troca da segurança. Deste modo, disponho- me ao sacrifício, para modelar o leito em que repousarás aliviada. E talvez porque devas aprender a sofrer enquanto choro. Não me chame de mesquinho. Afinal, você quis diluir os meus sentimentos, fez-me crer que eles ocupam modestos aposentos da casa, sem direito ao teu salão, onde me ofereçam o cafezinho.

E, no entanto, basta que me olhes com esta mirada de mel, com que as abelhas te regalaram visando à corrupção, e com a qual nutres c envenenas ao mesmo tempo, para que te siga e admire. Como me fascina este poder que me faz buscar as vitrines que vendem pedaços de minha alma. Quero a perdição que só você me assegura. Da qual emerjo com a volúpia de te decifrar. O que há com o amor primaveril que o verão espreme entre os dedos? Sob o império da tua inocência, alimento-me ao longo da semana.

Ana acusa-nos de sermos criaturas da caverna simulando elegância. O certo é que o amor impõe excessos, assim não indagues até quando existiremos um para o outro. Assusta-me esta luz filtrada pelo sol. Não consigo ver à distância, para te responder. Intuo que esta ânsia de mutilar pedaços do corpo, como prova de amor, corresponde à incerteza do dia de amanhã. Um amor ferido combatendo os anos.

Às vezes, abandonas a terra firme a nado. Suplico então que voltes, não vês que sou o único a alimentar o teu grande sonho. A trovoada traça o roteiro de nossas almas, a chuva sempre foi delicada conosco. Será que a tua vigília é para não perder o amor que consideras delicado, o arrebato que nos obriga a madrugarmos, e nos levará à queda final?

Jogamos com a dor, ambos sabendo que a tua sombra há de soterrar-me por muito tempo. Meus escombros te seguirão ainda que vivas num palácio de cristal, de cristal para que passando ao largo eu te enxergue através da transparência mantida a álcool e algodão. Como contrariar este seu riso de medo? Se você quiser o coração, em pedaços que seja, eu te oferto. Lamento que brinques com um rosto que na quarta-feira será uma terna lembrança.

Quando me ameaçaste deixar, eu te escrevi. Todas as palavras incluí na carta. Não cuidei de corrigir o estilo. O estilo não é o homem, é a sua dor. Deixei-a na casa de Ana, portadora do meu agravo até o teu peito. Em casa, aboli os roteiros que me levariam a você. E vigiava-me para ter orgulho. Até que rasguei as cordas com os dentes e exigi de Ana a carta de volta. Quero o pergaminho, o texto morreu, por muito tempo as palavras não terão sentido. E disse lhe, aceitas o tesouro do meu apartamento, constituído da acquavit com que ela e eu forjamos fantasias? E que nos amamentou por uma estação, e qual terá sido, meu Deus?

Ana pediu paciência, a carta por si solucionaria o amor desastroso. E recusou o fel da bebida que celebrou o sentimento humano. Foi então que no meu destino de camponês consenti que a garrafa ficasse no apartamento, para testemunhar esta carta.

Não sei onde você está agora, daí te propor o coração. Você diz que volta, acho porém que está a nadar em qualquer enseada, com veleiro à distância. Ah, sempre me faltou carta marítima com que medir os anseios das tuas correntes atlânticas. Como imaginar para onde segue quem usa braços e pernas para fugir, e recusa as árvores e as dunas humanas, o nosso silêncio. Amanhã é sexta-feira, talvez regresses para tomar meu coração. Como das outras vezes. Só que a cada volta tua, e sempre que te oferto o coração, sinto que te tenho como se te perdesse. Tenho-te apenas o tempo de acostumar-me a perder-te para sempre. Assim, te faço discreto pedido, não me arraste contigo quando te fores. Ou não me aceites, ainda que te peça para seguir o teu caminho. Não quero despojar-me de um coração que te ofereci com tanta opu- lência. Mas, se o quiseres realmente levar contigo, deixes ao menos algumas de suas fibras em minha casa. Com elas apenas hei de encontrar um outro retrato vivo que, sem me desprover, há de me fazer derramar lágrimas de alegria, enquanto eu lhe esteja propondo os últimos pedaços de coração que meu corpo sedento de amor ainda produzirá.

Do teu camponês que se despede sem saber que é para sempre.

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