Doutores e assombrações – Gilberto Freyre

Doutores e assombrações, inclusive certa “mensagem” de Raul Pompéia morto, para Martins Júnior, vivo.

Pelos fins do século passado e começos do atual um dos sólidos homens de negócios da praça do Recife era o D. Pertencia ao número de negociantes que os jornais daqueles dias costumavam denominar “conceituados”. Apenas em vez de pertencer à Irmandade do Santíssimo Sacramento, fazia da sua casa — da casa de residência, é claro, e não da de comércio — um centro de sessões de espiritismo que chegaram a ser frequentadas por alguns dos doutores mais ilustres da cidade.

Velho professor da Faculdade de Direito do Recife, que assistiu, já formado em direito, mas ainda muito jovem, a algumas das sessões, me informa: “Frequentei algumas vezes as tais sessões, e certa ocasião levei o seu tio Tomás (refere-se ao médico Tomás de Carvalho) e o Ribeiro de Brito (o depois senador federal por Pernambuco, João Ribeiro de Brito). Não vimos nada de extraordinário. Apenas o Tomás e o Brito, numa das vezes, comentaram umas respostas de famoso médico, aliás negro, através de um médium, respostas que, segundo eles, estavam de acordo com a terapêutica da época. O médico chamava-se Dornelas. Evocava-se com frequência esse doutor negro.”

Aliás, segundo a tradição popular, esse doutor negro chegou a aparecer à cabeceira de mais de um doente pobre do Recife. Aparecia de cartola e de sobrecasaca como nos seus dias de homem da terra. Ou deste mundo, como diria mestre Silva Melo, também médico e homem de ciência preocupado com o problema das assombrações.

De Dornelas se conta que, ainda vivo, passava certa vez, de sobrecasaca e de cartola, por uma das ruas mais fidalgas da cidade do Recife quando, da varanda de um sobrado opulento, iaiá mais aristocrática resolveu zombar de qualquer jeito do preto metido a sábio e encartolado como qualquer doutor branco. E não encontrou meio mais elegante de manifestar seu desdém pela “petulância do negro” que este: cuspir-lhe sobre a cartola. Pois cartola era chapéu de branco e não de negro.

Sentiu Dornelas a cusparada sobre o chapéu. E tirando a cartola ilustre e examinando a cusparada, diz a lenda que concluiu logo a olho nu: “Coitada da iaiá! Tuberculosa. Não tem um ano de vida.” E antes de findar-se o ano, saía do sobrado fidalgo um caixão azul com o cadáver da moça. Morrera tuberculosa.

Olho mau de negro? Não, diz a lenda: olho clínico. Mas olho clínico iluminado por alguma coisa de sobrenatural. O que fez de Dornelas, no fim da vida, um médico chamado pelos doentes mais graves como se fosse também um negro velho com extraordinários dons africanos de curar males que os doutores brancos e de ciência apenas europeia desconheciam.

Depois de morto, tornou-se um dos espíritos mais invocados nas sessões de espiritismo da cidade. Na verdade, do Nordeste inteiro, onde ainda hoje são célebres “as receitas do dr. Dornelas”.

O fato é que entre a medicina e o espiritismo, no Recife, desde os dias das primeiras “aparições” ou das primeiras “receitas” de Dornelas, que há namoro. No consultório de dois médicos ilustres dos primeiros anos da República — médicos e propagandistas da Abolição e da República: os mesmos que frequentaram por algum tempo as sessões na casa do negociante D. — chegou a fazer-se espiritismo experimental ou científico. De médium serviu, mais de uma vez, o bravo abolicionista, companheiro de Joaquim Nabuco e, depois de vencedora a causa da Abolição, apóstolo da causa da “proteção aos animais”, João Ramos. Outras vezes, o velho Guedes Pereira, também homem honrado e de bem, empunhou o lápis revelador. Ainda outras vezes, o médium foi Ulisses Pernambucano de Melo — não o médico, mas o tio do médico e filho daquele guarda-mor da alfândega, homem belo e aquilino como bom. Fonseca Galvão: o primeiro Ulisses Pernambucano da família Gonsalves de Melo — Fonseca Galvão.

Foi numa dessas sessões de consultório de médico que se passou o caso que vai aqui fixado pela primeira vez: o encontro — segundo a interpretação de alguns — de Raul Pompéia já morto com Martins Júnior ainda vivo. Pelo menos Martins, o homem do “direito positivo” e da “poesia científica”, ficou convencido de que com ele se comunicara, pelo lápis de um médium, o próprio Raul Pompéia. Foi um assombro para o cientificista não só do direito como da poesia.

Que fale de novo o então jovem bacharel e depois o professor de direito que assistiu com olhos críticos à sessão memorável e viu o mestre já glorioso de “direito positivo” e de “poesia científica” assombrar-se com a mensagem do amigo morto: “…assistiram a sessão o Martins Júnior, seu primo, o farmacêutico Graciliano Martins, e dois ou três outros cujos nomes me escapam no momento. Fizeram-se várias invocações”… “O Martins então lembrou-se de chamar o Raul Pompéia. Fez várias perguntas que foram respondidas, causando muitas delas certa impressão ao Martins que segundo parece era íntimo de Pompéia. Ulisses (o médium) então muito novo, nunca ouvira falar de Pompéia nem sequer conhecia O ateneu. Quase a terminar a sessão, Martins, que estava de viagem para o Rio, disse: ‘Bem, Raul, vou para o Rio. Nada queres para os nossos amigos e companheiros da Semana? Alguma coisa? para o Valentim?’ A resposta lembro-me bem que foi a seguinte: ‘Reúna a tropa, emende os braços e acostele-os de uma só vez’. Com essa resposta Martins ficou muito impressionado e disse: ‘É o Pompéia, não há mais dúvida.’ E fez questão de ficar com a papelada da sessão.”

Passou-se o fato numa sala de consultório médico do Recife, entre instrumentos cirúrgicos e frascos de remédio — tudo que havia então de mais moderno e mais europeu em medicina. Nesse ambiente cientificista é que o também cientificista Martins Júnior ficou com a exata impressão de ter conversado com Raul Pompéia, amigo morto.

Finda a sessão, o mestre de direito ainda fixou bem o pince-nez para ler com vagar os papéis com as respostas. Principalmente aquela “Reúna a tropa, emende os braços e acostele-os de uma só vez”. Não podia haver engano: era Pompéia. Só Pompéia falava ou escrevia assim. O jurista, o positivista, o cientificista da “poesia científica”, estava assombrado: “Aquilo era Pompéia! Mas como? Não podia ser!”

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