E foram todos à praia – Crônica de Moacyr Scliar

By | 07/06/2022

“Advogado improvisa escritório na praia.”
Cotidiano, 20 jan. 1999

A notícia segundo a qual um advogado carioca tinha instalado o seu escritório na praia do Arpoador gerou reações as mais contraditórias. Alguns acharam um absurdo; é uma pouca- vergonha, uma falta de respeito, onde é que se viu praticar advocacia dessa maneira. Outros acharam graça: coisa de Rio de Janeiro, foi um comentário que se ouviu bastante. Mas muitos ficaram pensando: será que o advogado do Arpoador não tinha razão? Será que não estava certo ele em mandar as convenções para o espaço, em benefício de uma vida mais livre, mais descontraída?

Não foi surpresa, portanto, quando, próximo ao lugar onde atendia um advogado, apareceu uma barraca com uma pequena placa: “Escritório de Contabilidade”. Logo depois surgiu um consultório médico e outro de psicologia. Em seguida, foi a vez de um consultor de empresas e de uma agência de publicidade. A essa altura as academias de ginástica se multiplicavam.

O movimento – um verdadeiro movimento social, organizado, contando inclusive com um lobby no Congresso – já não se restringia ao Arpoador nem ao Rio, mas se propagava rapidamente pelo Brasil. Dos Estados interioranos vinham caravanas inteiras, carregando cartazes de apoio à vida na praia. Em breve o litoral brasileiro, de sul a norte, estava todo ocupado por pessoas que, em trajes de praia, exerciam as mais diversas atividades. Todos tranquilos, todos bronzeados.

Tão bronzeados que pareciam índios. O que deu, a algum estilista, a ideia de criar uma moda retrô com tangas, cocares, tacapes. O que só contribuiu para aumentar a descontração.

Estão todos na praia, portanto. Mas é com certa apreensão que eles olham para o mar.

Temem que um dia apareça ao largo uma frota de caravelas e que um homem desembarque dizendo, muito prazer, gente, meu nome é Pedro Álvares Cabral.

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