Ele era de Berkeley – Conto de João Gilberto Noll

By | 20/08/2015

Ele afundou os pés brancos no jardim de camélias. Ele era um homem de Berkeley e aos domingos não tinha o que fazer, salvo passar a mão pela barba, ouvir vozes solitárias em pequenos delírios pela Telegraph Avenue, entrar sem querer ser visto na livraria Cody’s, abrir uns poemas de Milosz que também vivia em Berkeley… depois andar, andar desbragadamente pelo campus da Universidade sim, de Berkeley, em meio a seus esquilos, e pensar, pensar que estava começando a ficar louco, a falar sozinho como se não pudesse mais reter seus sofismas secretos, a suspirar, sempre a suspirar baixinho que estava sim a ficar louco em plena primavera de Berkeley.

Quando ele bateu na minha porta ali em North Berkeley, logo depois de eu surpreendê-lo pela janela do quarto a afundar seus pés no meu jardim de camélias, quando eu abri pensei logo em chamar a polícia, bater a porta e correr ao telefone – ele, não digo que em andrajos mas quase, farelo de pão na barba, cabelo em desalinho mas não, não foi o que fiz, pedi uns segundos e nem encostei a porta nem nada, fui até a sala onde os meus gêmeos brincavam com umas cores sob a proteção da baby-sitter mexicana, pedi que ela levasse as crianças a passear um pouco na manhã bonita, que não esquecessem a bola, a moça mexicana olhou-me quando viu o homem plantado sob o arco californiano do alpendre, os pés descalços sujos da terra, as crianças nem o notaram tão evasivas com a perspectiva do passeio, a baby-sitter costumava lhes ensinar palavras em espanhol, agora ela lhes falava algo como cometa-cometa-cometa, ainda tive tempo de lhes sugerir alguma coisa, não sei o que pronunciei porque já entrara no olhar do homem que eu agora pegava pela mão e conduzia até a cadeira que parecia ter se mantido sempre ali, à espera.

Ele sentou-se, falei que já voltava. Voltei com uma toalha de banho úmida, morna, e a enrolei em torno dos seus pés. O relógio da torre da Universidade tocou meio-dia.

Eu estava umedecendo mais uma vez a toalha, de joelhos debruçada sobre a borda da banheira, quando ouvi as crianças chegando, a moça dizia no seu inglês engraçado que agora todos iam comer.

Aí a moça gritou. As crianças desandaram em choro. Corri até a sala de onde tudo vinha. O homem caído no chão. Parecia desmaiado ou quem sabe morto. As crianças urravam de chorar. A baby-sitter com uma cratera na expressão me dizia palavras incompreensíveis.
Sim, estaremos felizes se formos para Tânger, eu disse me ajoelhando ao lado do corpo do homem de pés descalços agora limpos. Estaremos felizes se tivermos a estrela Nud sobre nossas cabeças, lá, na ponta leste do mundo, sim, estaremos felizes em qualquer lugar, é só não perdermos tempo antes que o teu corpo acabe aqui em meio aos berros dos gêmeos e da moça mexicana, acredita, eu te digo, é possível.

Foi quando tive o instinto de desabotoar sua camisa, e no seu peito eu li a tatuagem eu sou deus, é verdade eu vi a tatuagem roxa no seu peito e vi que as letras estavam inermes como se pertencessem a outra conjunção de forças vamos dizer assim, como se aquele eu sou deus que se via inscrito ali fosse a promessa silenciosa do que por enquanto só pudesse aturdir – e as crianças choravam alto e a mexicana cuspia sons inconformados e eu agora teria que ir ao telefone sim, chamar a polícia de Berkeley com as crianças puxando a barra da minha saia e a mexicana engrolando desesperos, mas quando a voz do outro lado da linha me perguntou em que poderia me ajudar eu desliguei e olhei para o corpo jogado no chão, me aproximei com os gêmeos e a mexicana aos gritos em minha volta, o telefone a tocar agora mas eu me aproximei do corpo e pedi perdão, só isso: perdão, feito uma palavra que não quisesse dizer nada mais que ela própria, sem vínculos com sentimentos anteriores, como se a palavra pudesse no momento chorar e no minuto seguinte aconchegar-se mais à sua própria seiva para apenas descansar…

Pois eu disse perdão e o homem de Berkeley aí abriu os olhos. E me olhou. Sorriu. E seus dentes estavam em ruínas: ali, hirtos, como gravetos a guardar uma voz que até agora eu não conseguira escutar.

Hein? murmurei com certo esforço, como se quisesse acordar. Havia um corpo sobre o meu. Lembrei da minha unha mais aguda e a enterrei com energia na concha da mão.

Estava escuro, não deu para enxergar se o que saía da minha mão ainda era sangue ou um material mais ralo, incolor quem sabe… O corpo sobre o meu ainda respirava. Eu podia sentir os sopros rarefeitos no meu ouvido.

De repente ele se urinou todo sobre mim.

– Podemos ir – suspirei ao perceber que ele já tinha feito tudo.

O cheiro incandescia em volta – já se constituía em quase luz.

– Podemos ir – repeti mais perto do pequeno buraco negro do ouvido dele.

Não foi dessa vez que a sua garganta me respondeu. Ouvi sim o meu próprio eco, no começo nítido, inteiro… aos poucos esfarinhando-se porém – o que me reforçava a sensação de que eu estava de fato pronta para ir…

Vamos sim, agora, eu disse me agarrando ao vasto corpo sobre mim deitado e que cheirava estonteantemente a mijo fermentado em quase luz.

A moça mexicana anda pelas aléias do campus. Sobe os degraus do Wheller Hall. Senta-se na sala de aula, ouve o professor ler alguns versos de Auden. Pensa nos gêmeos. Ao sair das aulas sentará a uma das mesas do Café Musical Offering e olhará pelo vidro o rapaz passar. Ele pára e sorrateiramente olha para dentro do café. Por tênues segundos mira a moça mexicana. O relógio de Berkeley dá as doze batidas do meio-dia. Os gêmeos, ah, os gêmeos a esperam.

É hora ela pensa… ah, é hora…

Para Candace Slater e Gwen Kirkpatrick

Publicado em Estado de São Paulo
22 de junho de 1997

Joao-Gilberto-Noll

 







 

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