Fantasma de menino feliz – Gilberto Freyre

Contou-me dona Carmem de Sousa Leão que na casa de família recifense muito das suas relações — e creio até que do seu parentesco — moradora em velha rua da Boa Vista, costumava há anos aparecer e desaparecer por encanto a figura de um lindo meninozinho, não me lembro se louro e cor-de-rosa, como os meninos-jesus flamengos, se moreno como um bom e belo brasileirinho do Norte. Brincava o fantasmazinho e sorria como se fosse menino vivo, rico e feliz. Neto em casa de avó.
Era a mais bela das assombrações. Bela e difícil de ser explicada pela gente da casa onde aparecia: casa antiga da Boa Vista. Casa de gente sinhá e não à-toa.

Pois o fantasmazinho não intimidava pessoa alguma da casa nem aterrorizava menino vivo nem pedia missa ou doce às senhoras de idade nem dava a impressão de ir quebrar porcelanas ou vidros caros da família nem gemia nem suspirava como se estivesse sofrendo penas no outro mundo. Era o contrário dos fantasmas convencionais. Apenas sorria e brincava como se fosse criança ainda deste mundo.

Pouco misterioso, deixava que a família chamasse conhecidos e vizinhos para vê-lo brincar. Não se incomodava com os olhos dos curiosos. Continuava a sorrir e a brincar. Até que, por encanto, desaparecia.

Era quando as pessoas que acabavam de ver sorrir e brincar fantasmazinho tão sem jeito de fantasma de sessão de espiritismo ou de casa mal-assombrada, sentiam o frio do outro mundo arrepiá-las: quando o meninozinho desaparecia de repente, sumindo-se da vista dos vivos como qualquer fantasma de gente grande. Misterioso como qualquer assombração de história de alma-do-outro-mundo.

Diz-se que mais de uma vez o meninozinho-fantasma pareceu querer beijar pessoas vivas. Beijo de filho em mãe, de neto em avó, de sobrinho em tio. E neste caso, parecido esse fantasmazinho do Recife com aquele fantasma também de menino, embora já quase rapaz, de que falam tradições inglesas; e que aparece na coleção de Lord Halifax de histórias de casas assombradas, aparições, ocorrências sobrenaturais: Lord Halifax’s ghost book (Londres, 1930). Desse fantasma fala também o escritor Osbert Sitwell no livro encantador que é sua autobiografia: The Scarlet tree (Londres, 1946). Diz Sitwell que o fantasma apareceu, em casa de gente sua, tendo se identificado o menino morto: certo Henry Sacheverell, filho de uma Sitwell. O menino se afogara aos 15 anos, no remoto ano de 1724. Diz-se que, durante anos, não só acordou mais de uma pessoa fidalga — uma delas a Condessa de Carlisle — com um beijo, como certa vez, havendo festa — baile de fantasia — em casa dos Sitwell, compareceu vestido de mocinho do tempo de Jorge II; e dançou alegremente valsas com as moças. De estranho só se notaram nele o excesso de palidez do rosto e o frio, também exagerado, das mãos: mãos tão frias que mesmo de luvas pareciam geladas. Mas a alegria desse menino morto há longos anos era a de um vivo bem vivo. Fantasma, também, de menino feliz.

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