Fatalidade – Conto de Nelson Rodrigues

By | 18/07/2022

Diante do espelho, pintava os lábios, quando a filha entrou no quarto:

– Vai sair?

– Vou.

– Aonde?

Respondeu, sem paciência:

– Não é da sua conta. E a menina, sumária:

– Também vou.

Já nervosa, atirou, longe o pincel de batom. Virou-se para Maria Lúcia:

– Você parece até que anda me espionando! — e a interpelou desesperada: — Você vai aonde, criatura?

– Aonde você for.

E Julieta, que estava de combinação, os belos ombros nus, ergueu-se:

– Será que eu tenho que levar sempre reboque atrás de mim? Ora veja!

Sem uma palavra, a pequena apanhava um vestido no guarda-roupa, enquanto a mãe, indignada, assistia a esses preparativos. Por fim, Julieta explodiu:

– Eu não vou mais a lugar nenhum, pronto! Mas olha aqui: você anda de marcação comigo há muito tempo. Mas eu vou me queixar a teu pai. Deixa estar!

Pôs o quimono em cima da combinação e saiu do quarto, bufando:

– Que mal fiz eu a Deus?!…

Duas mulheres

Era mãe ainda moça, ainda bonita, de uma filha única, de 15 anos. Há cerca de um ano começara a dizer, no fundo divertida: “Minha filha está de marcação comigo.” E era verdade. Todos os seus gestos, palavras e atos pareciam merecer o controle da menina. Se ela ria alto, Maria Lúcia a cutucava: “Não ri assim, mamãe!” O fato é que, com o correr do tempo, a sensação de vigilância, de espionagem, se tornou cada vez mais intensa. Sempre que se preparava para sair, a filha surgia como por encanto: “Eu também vou.” Isso, que acontecia muito, passou a acontecer sempre. E Julieta, que a princípio achava graça, começou a se irritar: “Ora, bolas!” Interpelava ao marido: “Será que eu não sou dona do meu nariz?” Ele, conciliatório e bem-humorado, aconselhava: “Deixa! Deixa!” E explicava: “Gosta de ti.” Mas chegou um momento em que a interferência da filha se tornou ousada e perturbadora. Um dia, numa festa, a mãe dançou muito com o mesmo par. A filha veio ralhando no automóvel:

– A senhora parecia nem sei o quê!

— Eu?…

– É, sim! Dançou quinhentas vezes com aquele sujeito! A minha cara caiu no chão!

Perdeu a paciência:

– Olha aqui, Maria Lúcia: vê se não dá palpites, ouviu? Você é uma pirralha muito audaciosa!

Mas a pequena, insolente, concluiu:

– Que papel!

Incidentes dessa natureza se multiplicaram. Julieta começou a experimentar uma sensação torturante: de que nunca estava sozinha e de que os dois olhos da pequena a acompanhavam por toda a parte. Nessa tarde, enquanto a filha lia no gabinete, ela, às pressas, se vestira para sair. Já vimos que Maria Lúcia surgira no último momento. Feito uma fúria, esperou o marido. Quando o marido apareceu, pouco depois das sete, ela exclamou:

– Nossa filha é de amargar, Heitor! Eu não aguento mais!

Pai e marido

Era um homem caladão, mas uma grande alma. Seu feitio sóbrio não combinava com a natureza expansiva e juvenil de Julieta. Esta gostava de festas, passeios, teatros, visitas. E ele, que preferia dormir cedo, aconselhava: “Arranja uma companhia e vai. Eu fico.” Como pai, era, também, um discreto nas suas expansões. E, contudo, ninguém mais amigo de sua filha. Naquele dia, ao ouvir as queixas da mulher, impressionou-se. Deu um tapinha na face de Julieta: “Deixa por minha conta. Vou falar, já, com Maria Lúcia.” Pouco depois, ralhava com a pequena:

– Que negócio é esse? Você quer mandar em sua mãe? Onde é que nós estamos? Em absoluto!

Maria Lúcia, que estava sentada, ergueu-se, lívida:

– Quer dizer que o senhor está contra mim?

– Mas evidente!

Então, aquela pequena, que adorava o pai. Exaltou-se: “O senhor não compreende, não vê que é por sua causa?” Agarrou-se a ele: “Mamãe é muito moça e bonita e…” Queria dizer, em suma, que a mulher formosa é mais amea-çadora e que sua presença de filha impedia muita coisa. Heitor tentou interrompê-la: “Basta!” E ela, obstinada e veemente:

– Minha mãe faz coisas que não devia. Dança com todo mundo! Pela primeira vez, Heitor gritou:

– Nem mais uma palavra!

Arquissensível, Maria Lúcia pôs-se a chorar. Heitor, passou-lhe um verdadeiro sermão:

– Isso que você está dizendo não se diz, nunca! Nenhum filho pode julgar a própria mãe! Seja ela a pior mulher do mundo, ele tem que respeitá-la, sempre!

Ergueu o rosto:

– Quer dizer que minha mãe pode fazer o diabo? E ele:

– Esse é um problema de sua mãe e não de você. O que eu não quero, nem admito, é que você critique sua mãe. Por quê? Sim, por quê? Eu, que sou o marido, tenho absoluta confiança em minha mulher — e sublinhou: — Absolutíssima!

Levantou-se a menina. Por entre lágrimas, disse:

– Eu tomava conta de minha mãe. Mas já que o senhor não quer, nem ela, paciência. Mas eu quero que o senhor saiba de uma coisa — pausa e continuou: — Se algum dia, eu souber de alguma coisa, eu… eu… Juro, papai, que me mato!

Menina triste

Durante cerca de um ano, Maria Lúcia tiranizara Julieta. E, súbito, mudava a situação. O próprio Heitor impôs com sua maneira discreta, mas inflexível: “Você não me sai com sua filha, Maria Lúcia precisa aprender.” Julieta respirou. Sentiu-se, enfim, libertada. Na companhia de amigas, de temperamento alegre também, vivia em festas, teatros, passeios. As amigas diziam: “Estás com tudo!” Admitia, feliz: “Mais ou menos.” Nunca a sensação de liberdade lhe fora mais doce. Quando, nos bailes, perguntavam pelo marido, explicava:

– Meu marido gosta de dormir cedo.

Teve, ainda, uma última discussão com a filha. Esta viera dizer: “A senhora está livre. Papai não liga e eu não saio mais com a senhora…” Julieta, tirando os brincos, suspirou: “Mas que xarope é você, Deus me livre!” Sem se dar por achada, a filha continuou:

– Não faça nunca o que uma esposa não possa fazer… E se fizer, já sabe: há de chorar lágrimas de sangue…

Usava, pela primeira vez, a expressão “lágrimas de sangue” que, para ela, parecia traduzir o supremo horror. A verdade é que, não tanto as palavras, mas um certo quê de adulto e de viril no seu rosto, abalou Julieta. Pouco depois, porém, estava de novo imersa na sua vida deliciosa e frívola; e já não se lembrou mais do rosto inescrutável da filha.

Doença

Mas a pequena mudara por completo. Uma noite, depois do jantar, chamou o pai. Disse, baixo:

– Ela não gosta do senhor… Eu sei que ela não gosta do senhor…

No primeiro momento, Heitor quis ser enérgico. Mas sentiu tanta tristeza em Maria Lúcia, uma doçura tão patética nos seus olhos lindos e desesperados que se calou. Pouco depois com a mulher, diria: “Talvez fosse negócio levar Maria Lúcia a um psicanalista…” Julieta, que limava as unhas, admirou-se:

– Por quê?

Acendeu um cigarro: “Ela não está normal. Anda com umas ideias, umas atitudes meio esquisitas!” Julieta deu um muxoxo:

– O que ela quer é movimento! O que ela quer é carnaval!

Pecado

Mas no dia seguinte, pela manhã, Julieta falou um tempo infinito no telefone, baixinho. Por puro instinto feminino, Maria Lúcia conjeturou: “É homem.” E não perdeu mais a mãe de vista. À tarde, Julieta fez uma interminável toilette, com toda minúcia e deleite. Ao sair do quarto, pronta, a própria filha admitiu: “É linda!” Esperava a mãe, no corredor, e quis barrar-lhe a passagem: “Não vá… Eu não admito que a senhora faça isso com papai…” Foi empurrada. E, então, a pequena correu na frente. Com desesperada agilidade, apanhou um copo em cima do aparador. Julieta estacou atônita. A filha dizia, numa euforia tremenda: “Isso é veneno! Veneno!” Já no limite entre a vida e a morte, completou:

– A senhora não pode trair nunca meu pai, nunca! Eu não quero! Nunca!

A mãe avançou, como louca. Mas só pôde bater num copo vazio. Maria Lúcia bebera tudo, de uma só vez e se torcia em dores medonhas, no chão. E, então, aquela mãe se sentiu culpada da morte da menina. Quando o marido chegou, Julieta gritava dentro da casa:

– Ela quis evitar uma coisa, que tinha acontecido ontem! Coitadinha!…

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