Fazer as Pessoas Rirem e se Sentirem Felizes – Conto de Rubem Fonseca

By | 03/02/2022

Não gosto que saibam o que eu faço. Mesmo trabalhando disfarçado morro de medo de que um dia alguém me veja na rua e grite “é ele, é ele”.

Não sei fazer mais nada e isso que eu faço aprendi com o meu pai. Ele morreu. Mas algum tempo antes de morrer ele ficou louco. Mesmo assim continuou trabalhando e ninguém percebia. Ele entrava no meu quarto e perguntava “quem é você?”.

Eu o vestia para ele ir trabalhar. Nós íamos juntos, trabalhávamos no mesmo lugar. Ele trabalhou destrambelhado mais de um ano. Eu dizia “vamos”, e ele me seguia como um sonâmbulo. Eu vestia a roupa nele, colocava o nariz, pintava onde tinha que pintar, pensativo, mas não sei o que ele pensava, ou se pensava, quem é que sabe o que se passa na cabeça de um maluco? Mas assim que entrava no picadeiro ele olhava as arquibancadas e mesmo se elas estivessem vazias despertava e logo começava a realizar as palhaçadas em que era um mestre. Um filósofo ou alguém parecido com um filósofo disse que o trabalho tudo vence, e eu acredito nisso, que o trabalho faz bem, principalmente se você é maluco. Ele estava muito gordo, é bom o palhaço ser gordo, o gordo é engraçado, o magro causa tristeza. Mas ele não morreu da cabeça. Morreu do coração. Maluco não morre, a cabeça é forte. Está tudo na cabeça, até a nossa alma. O coração é fraco.

Passei a usar as coisas dele no trabalho. As calças, o camisolão, os suspensórios, os sapatos. O nariz não, o nariz eu usava o meu mesmo. O meu era mais novo, mais vermelho, mais redondo. Meu pai quando eu comecei dizia: “Nós temos que ser líricos, sabe o que é lírico, ópera lírica? A cantora da ópera é sempre uma gorda, canta coisas sentimentais, entendeu? É isso que nós temos que ser, líricos, e além disso bobos, e engraçados, mas não somos engraçados como os anões, os nanicos são anormais, nem somos iguais à mulher barbada, nós somos cômicos, fazemos as pessoas rirem e se sentirem felizes.”

Que pessoas? Cada vez vinha menos gente assistir ao espetáculo. Parece que isso acontece no mundo inteiro, as pessoas veem o circo pela televisão. Eu me lembro de quando era pequeno e meu pai me levou para ver um circo alemão chamado Sarrasani. A arquibancada estava lotada e isso acontecia todos os dias. O circo tinha um domador de elefantes, um domador de leão, muitos bichos, creio que até um urso, mulheres quase nuas que ficavam em pé sobre cavalos que corriam, um sujeito que engolia fogo, malabaristas de todos os tipos, equilibristas, coisas incríveis. Lembro que meu pai apontou para um dos palhaços e disse “eu sou melhor do que esse cara”.

Meu pai era bom, mas foi ficando velho e costumava dizer “os velhos sabem mas não podem, os jovens podem mas não sabem”. Ele já não conseguia fazer certos movimentos que nós palhaços temos que fazer, e foi ficando triste, palhaço finge que é triste, mas não pode ser triste.

No circo em que eu trabalhava o único animal que se exibia era um cachorro que andava nas duas patinhas de trás, só isso; tinha um casal que fazia acrobacias, um mágico, um anão corcunda e dois palhaços, eu e o meu pai. O circo era armado nos subúrbios mais pobres da cidade e as arquibancadas ficavam vazias, cada vez mais vazias. Todo mundo tem televisão em casa, até os pés-rapados.

Então um dia cheguei em casa e a minha mulher tinha ido embora.

Deixou um bilhete, a letra dela era horrível, mas deu para ler qualquer coisa como estar indo embora, aproveitar a carona de um amigo, ir para bem longe.

Meu pai contava que antigamente ele gritava no circo:

“O palhaço o que é?”

E todos respondiam gritando:

“É ladrão de muié.” Era assim que eles gritavam, muié em vez de mulher.

Minha mulher me deixou, o circo fechou, não consegui lugar de palhaço em nenhum outro lugar. Eu não era um palhaço muito bom, não era engraçado como o meu pai, que até maluco fazia as pessoas rirem. Na verdade o circo tinha acabado, ou tinha ido para a televisão.

Eu precisava arranjar um trabalho, senão ia morrer de fome. Felizmente arranjei um emprego de porteiro noturno.
Era um prédio pequeno, habitado só por gente velha. Eu podia dormir a noite toda, deitado num colchonete que levava dobrado numa saca. Era um emprego bom e os velhotes e as velhotas gostavam de mim.

Engraçado, tem mais mulher velha que homem velho. Por que será?

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