Feia demais – Conto de Nelson Rodrigues

By | 14/07/2021

Quando chegou em casa, as irmãs o esperavam com a pergunta sôfrega:

— Você está namorando aquela pequena?

— Estou.

Houve um espanto indignado:

— Não é possível, não pode ser!

— Por quê?

E todas, num coro feroz:

— Porque é um bucho horroroso! Arranja uma pequena melhor, mais interessante, bonitinha!

O rapaz empalideceu, ressentido com a grosseria dos comentários. E teve uma atitude muito bonita e viril. Primeiro chamou todo mundo de “espírito de porco”. Em seguida, anunciou:

— Pois fiquem sabendo que eu vou me casar com esse bucho! Té logo!

Virou as costas e foi jogar sinuca no boteco da esquina.

A PEQUENA

Mãe e filhas se entreolharam, assustadas. Uma das pequenas suspirou: “O caso é sério”. Houve, em derredor, a aprovação: “Seriíssimo”. E a mãe, que gostava muito daquele filho, fez um voto de abstenção, usando da seguinte alegoria:

— Amarra-se o burro à vontade do dono. Ele quer casar, não quer?

Admitiram: “Parece”. Ela concluiu:

— Pois que case e seja feliz.

Havia, porém, a esperança ou o desejo de que, com o tempo, Herivelto se convencesse da fealdade da menina. Mas que esperança! Estava realmente apaixonado, disposto a se casar de qualquer maneira e no mais breve prazo. Um dia, a mãe, que se caracterizava por um senso comum tremendo, chamou-o: “Vem cá, meu filho. Vamos conversar direitinho”. Herivelto atendeu; fez, porém, a ressalva solene, quase ameaçadora: “Converso, minha mãe, desde que a senhora não fale mal de fulana”. A outra admitiu, mais do que depressa: “Evidente! Eu até gosto da menina”. Pigarreou e prosseguiu:

— Você quer casar, não quer?

— Quero.

Veio, então, a pergunta à queima-roupa:

— Mas com que, meu filho? Casar com a roupa do corpo não é possível. E você, aqui pra nós, não ganha o suficiente.

O rapaz ergueu-se. Ficou andando de um lado para outro, com as duas mãos nos bolsos. E, de repente, estacando, definiu-se:

— Minha mãe, sabe qual é a minha opinião? É a seguinte: o que decide na vida é o peito. Vou me casar no peito!

De noite, com a pequena, contou o episódio. Interpelou-a: “Topas morar num quarto comigo?”. Era um momento crucial. Jacira, porém, foi magnífica. Respondeu à altura:

— Com você, meu filho, eu topo tudo!

FEIA COMO A NECESSIDADE

A verdade é que, num clima de paixão, tanto o rapaz como a pequena estariam dispostos a morrer de fome. Herivelto teve o trabalho de burilar uma frase a propósito dos matrimônios pobres: “O casamento”, dizia ele, “é uma questão de amor e não de bóia”. Em vão o advertiam: “Olha que vais dar com os burros n’água”. Replicava, otimista: “Paciência”. Um dia, após um namoro agradabilíssimo, casaram-se. Quando Jacira entrou na igreja, de braço com o padrinho, estava, segundo testemunhas visuais, “um pavor”. Houve quem perguntasse: “Essa menina tem dinheiro?” Não, não tinha. E ninguém compreendia como um rapaz bem apanhado como o Herivelto a tivesse escolhido entre todas. A família do noivo se agarrava, com unhas e dentes, ao seguinte e melancólico consolo: “Não é bonita, mas tem bom coração”.

Só no sétimo ou oitavo dia de lua-de-mel é que Herivelto começou a desconfiar da verdade. Jacira estava diante do espelho espremendo espinhas. E fazia isso com um deleite, uma volúpia extraordinária. Em silêncio ou, por outra, assoviando, o rapaz contemplava a mulher. Sem querer, sem sentir, estava fazendo um julgamento físico de Jacira. Esta ainda se virou e fez o comentário:

— Ih, meu filho! Estou com uma pele infame!

AS OUTRAS

A partir de então, quando estava em casa, ele não fazia outra coisa senão espiar, espreitar a fealdade da esposa. Uma coisa o espantava e amargurava: “Eu estava cego, completamente cego!”. Olhava agora Jacira e se saturava de sua falta de graça e de feminilidade. Por outro lado, começava a experimentar uma irritação doentia e contínua. Um dia, em que Jacira estava particularmente desinteressante, fez uma pergunta perversa:

— Será que uma mulher feia não desconfia da própria fealdade?

A outra não percebeu a sugestão. Coçando a cabeça com um grampo, ria:

— Que nada! Pergunta a um bucho se ele é bucho, pergunta.

Durante dois ou três segundos, quase Herivelto a interpela: “E tu?”. Conteve-se, porém. Mas sua ilusão se extinguira até o último vestígio. Sabia, agora, que sua mulher, a mulher com quem se casara para sempre, era feia, excepcionalmente feia, feia de uma maneira constrangedora, intolerável. Começou a ter resistências com Jacira, uma espécie de alergia, de incompatibilidade física tremenda. Precisava desabafar com alguém. Correu à própria mãe:

— Mamãe, eu estava bêbado, completamente bêbado, quando casei!

Fora de si, apertando a cabeça entre as mãos, gemia: “Feia demais!”. E repetia: “Demais!”. Certos deveres ou hábitos de marido já o enfureciam. Por exemplo: ao sair para o trabalho e ao voltar acostumara-se a beijar a mulher na boca. E se, agora, simulava um engano, uma distração, e roçava os lábios na face de Jacira, esta fazia a reclamação amorosa: “Na boca, meu filho, na boca!”. Ele se crispava. Esse beijo na boca se transformou, com o tempo, numa fobia. Por outro lado, na rua, no ônibus, ficava fazendo confrontos entre as transeuntes e Jacira. Se encontrava uma mais jeitosa, delirava: “Isso é que é corpo!”. Ou, então: “Que rabinho!”. E, se estava com um amigo, cutucava o amigo: “Olha que espetáculo!”.

A AMANTE

O pior de tudo é que Jacira tinha um temperamento carinhosíssimo. Gostava de dar e receber carinho. De noite, quando Herivelto chegava, ela vinha sentar-se no seu colo e se derramava em dengues: “Tu gostas da tua gatinha, gostas?”. Exasperado, e fazendo um esforço para se conter, rosnava: “Sossega. Há hora pra tudo. Vamos jantar”. E se iam a um cinema Jacira voltava de lá impossível:

— Eu não acho a Lana Turner nada essas coisas. Vulgar.

De fato, a pobre pequena era exigentíssima, sempre vendo defeitos nas outras mulheres. A Barbara Stanwick parecia-lhe “tão sem graça”. Herivelto caiu das nuvens, estacou, furioso: “Barbara Stanwick sem graça?! Você bebeu?”. Teve vontade de fuzilar a esposa com a pergunta: “Se ela é sem graça, você o que é?”. Mas a situação matrimonial tornara-se insolúvel. Era agora dominado por uma obsessão. Dizia para si mesmo: “Tenho que arranjar uma cara”. Arranjou uma, com efeito, que trabalhava numa casa de modas. Era uma fulana alta, que, na opinião de muitos, lembrava um cavalo de corrida. De uma maneira ou de outra, o fato é que Herivelto se apaixonou.

Uma vez, de longe, a fulana viu Jacira. Ao primeiro ensejo, fez, para Herivelto, o comentário:

— Bem feinha tua mulher, hein?

Ele esbravejou: “Um bucho horroroso!”. A fealdade da mulher o humilhava. E o interessante é que Jacira não desconfiava de nada, não percebia que era abominada pelo esposo.

O INFIEL

Até que aconteceu o inevitável. Uma noite, Herivelto chegou em casa bêbado. E pior do que isso: com manchas de batom no pescoço, no lenço etc. Ela, então, que jamais admitira a hipótese de uma infidelidade, virou uma autêntica leoa. Avançou para o marido, de dedo em riste; esganiçava-se: “Que é isso? Que negócio é esse?”. Bambo em cima das pernas, o marido teve uma sinceridade de ébrio:

— Tenho uma amante… Tenho uma amante…

A princípio, ela não compreendeu. Repetiu, no seu assombro: “Uma amante!”. Mas já o rapaz rolava na cama, ficava de bruços, resmungando coisas ininteligíveis no seu idioma de bêbado. Ela, subitamente feroz, o revirou; segurava-o pela gola do paletó, sacudia-o e gritava!: “Eu também vou te trair, ouvistes?”. De manhã, quando Herivelto acordou, ela, que não dormira, repetiu:

— Vou fazer o que você me fez. Por essa luz que me alumia!

TRAGÉDIA

Não teve pressa. Durante quarenta e oito horas, debateu-se em dúvidas medonhas. Trair era ou devia ser facílimo; restava, porém, a pergunta: “Com quem?”. Passou em revista todos os amigos e conhecidos. Ia excluindo um por um, através de um processo eliminatório. Acabou se fixando num amigo do marido, um tal de Mascarenhas. Telefonou-lhe, sem dizer quem era. E o outro, ouvindo uma voz feminina, inflamou-se. Queria um encontro imediato, num lugar assim assim. Ela foi bastante feminina para adiar a entrevista. Depois de uns quinze dias de telefone, Jacira submeteu-se. O outro marcou hora e deu o endereço de um apartamento que mantinha para tais aventuras. Duas horas depois, ela estava lá, apertando o botão da campainha.

O próprio abre e Jacira invade o apartamento. Ele parece atônito, não compreende.

Jacira percebe nos seus lábios uma expressão de descontentamento quase cruel. Espera uma palavra, uma iniciativa. E como ele não faz,nem diz nada, ela o interpela:

“Então?”. O fulano balbucia:

— Desculpe, mas não é possível… Sinto muito… Desculpe…

Pela primeira vez, Jacira sente parcialmente a verdade. Foge dali, como uma criminosa. Em casa, no quarto, coloca-se diante do espelho grande. Revia-se, de corpo inteiro. Compreende tudo. Compreende por que fora quase escorraçada. Coincidiu que, nessa noite, bêbado outra vez, o marido a ultrajasse com a palavra: “Bucho! Bucho!”.

Teve ódio, um ódio inumano, indiscriminado, contra si mesma, contra o marido, contra o mundo. Esperou que Herivelto mergulhasse no sono de embriagado. Então, já serena, derramou álcool em cima dele e riscou o fósforo. Por entre chamas, ele se revirava, se contorcia, como se tivesse cócegas. Fugiu, uivando, perseguido pelas labaredas. Vizinhos atiraram baldes d’água em cima dele. Herivelto morreu, porém, ali mesmo, nu e negro.

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