História de uma bota – Conto de Graciliano Ramos

By | 11/06/2022

Quando os amigos chegaram, o dono da casa estava sentado na pedra de amolar, pregando uma correia nova na alpercata. Levantou-se e foi acabar o trabalho escanchado na rede, resmungando aperreado, misturando assuntos:

– Caiporismo. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, seu Gaudêncio. Hum! Entretido, nem ouvi a salvação de vossemecês. Que estrago! Para sempre seja louvado, seu Libório. Como vai essa gordura? Boa-noite, seu Firmino. Tome assento.

Os visitantes acomodaram-se. Das Dores e Cesária vieram da cozinha e arrumaram-se na esteira.

– A vida é um buraco, meus amigos, murmurou Alexandre. De volta da feira, dei uma topada, esfolei o dedo grande, rebentei a correia desta infeliz e andei légua e meia com um pé calçado e outro no chão. Estava aqui pensando no meu tempo de rico. Dinheiro no baú, roupa fina e um quarto cheio de sapatos de toda a versidade.

– E botas com esporas de prata, acrescentou Cesária.

– Isso mesmo, concordou Alexandre. Botas com esporas de prata e de ouro, penduradas no torno. Agora é a desgraça que se vê: um pedaço de sola amarrado no casco, espinhos, rachaduras no calcanhar. Não somos nada não, seu Libório.

Baixou a cabeça, esteve um minuto remexendo os beiços, monologando. Pouco a pouco desanuviou-se, um sorriso franziu-lhe a cara, o olho torto brilhou:

– Por falar em bota, lembrei-me do aperto em que me vi há muitos anos, quando furava mundo. Tomei um susto dos diachos, e, pensando nisso, ainda me arrepio. Se quiserem escutar, abram os ouvidos. Se não estiverem com disposição, usem de franqueza: calo a boca, seu Libório pega na viola e canta aí umas emboladas para a gente.

– Não senhor, escusou-se o cantador, modesto. Fale vossemecê.

Todos afirmaram que estavam curiosos, Alexandre tossiu, temperou a goela:

– Bem. O caso se deu numa das primeiras viagens que fiz à mata. Se não me engano, foi a primeira. Esperem, vou ver se me recordo.

Ficou um instante em silêncio, gesticulando, o olho torto fixo na telha.

– Isso, prosseguiu. Foi na primeira. Comprei dessa feita um papagaio sabido para Cesária, um bicho de tanta cadência como nunca se viu.

– O senhor falou nele, atalhou o cego. Um papagaio que tinha astúcias de cristão e valia um conto de réis.

– Não é verdade, seu Firmino, retorquiu Alexandre enfadado. Quem já viu papagaio de conto de réis? Esse que os amigos conhecem custou seiscentos e vinte e cinco mil e trezentos e saiu caro. Detesto exageros. Guardo as minhas conversas na memória, tudo direito. E se comprei o papagaio por seiscentos e vinte e cinco mil e trezentos, por que haveria de aumentar o preço dele? Responda, seu Firmino.

– Não sei não, murmurou o cego. O senhor é quem sabe.

– Pois é, continuou o dono da casa. Mas nós estamos gastando palavra à toa. Não interessa mexer num vivente miúdo, que se finou há muitos anos e o urubu comeu. Vamos ao negócio que prometi contar a vossemecês. Como já disse, foi para as bandas de Cancalancó.

– O senhor não disse isso não, rosnou o preto.

– Não disse? Pois fica dito, seu Firmino, tornou Alexandre. Foi na beira de um riacho, em Cancalancó, numa noite escura de meter medo no olho. Propriamente não era de noite: era de madrugada. Eu tinha corrido o sertão de cima a baixo, vendendo bois. No fim de seis meses havia um lucro enorme, dinheiro de papel em quantidade enchendo os bolsos da carona. E nesse dia, no termo de Cancalancó, decidi voltar para casa, porque já me aborrecia de tanto caminho, andava com a cabeça cheia de contas e muita saudade da patroa. Derrubei as cargas na beira do rio, arranjou-se uma fogueira, os tangerinos prepararam a comida e começaram a inventar lambanças, enquanto jantavam. Na cidade eu me hospedava em hotel caro e dormia em colchão fofo, mas ali no mato o jeito que tinha era arrumar-me no chão. Foi o que fiz. Mastiguei um punhado de farinha seca, um pedaço de carne de sol e uma rapadura, rezei minhas orações, tirei as botas e espichei-me na areia, vestido, com o rifle na mão, a carona cheia de notas servindo-me de travesseiro. Os animais ficaram roendo grama, peados de três pés para não se afastarem. Estive uma hora ouvindo as emboanças dos rapazes acocorados em redor do fogo. Depois eles se calaram, fizeram camas por baixo das catingueiras e pegaram no sono. Estava-se armando chuva, um calor medonho amolecia a gente, até as folhas das baraúnas tinham preguiça de bulir. A lua apareceu desconfiada e logo desapareceu. Uma nuvem engrossou na cabeça da serra, outra juntou-se a ela, veio uma terceira, espalhou-se, afinal o céu ficou todo coberto e não havia uma estrela para remédio. Um pretume dos diabos. A princípio, com luz do fogo, ainda enxerguei os arrieiros e os tangerinos que dormiam debaixo dos paus, as malas de couro e os surrões de mantimento, a minha sela e o par de botas. Mas as labaredas esmoreceram, as brasas cobriam-se de cinza, os tangerinos e os arrieiros, as malas e os surrões de matalotagem, a sela e o par de botas sumiram-se. Estou aqui desenterrando estas miudezas, e vossemecês pedem a Deus que eu me cale. Seu Firmino dá cada cochilo que faz pena e já abriu a boca três vezes, coitado.

– Eu? Que invenção! protestou o cego endireitando-se no cepo que lhe servia de cadeira. Sou lá capaz de cochilar ouvindo uma história que o senhor conta? Continue, seu Alexandre. Escutei perfeitamente. Uma noite escura e de chuva.

– Não, seu Firmino, corrigiu Alexandre. Sem chuva. Eu não disse que o senhor estava dormindo? Armação de trovoada, muito calor e um escuro da peste. Era o que havia. Tudo escuro. Repito isto para vossemecês não se admirarem do que me aconteceu naquela noite. Ora muito bem. Passei umas horas calculando o ganho, com a ideia de mandar levantar na fazenda um sobrado como os que tinha visto na capital, grandão, cheio de enfeites e trapalhadas. Queria ver Cesária experimentar cama de mola e espiar-se naqueles espelhos do tamanho de uma parede. Acho que os amigos nunca viram isso, mas há. Por volta de meia-noite enrolei-me no cobertor, caí na madorna e comecei a sonhar com os sobrados e os espelhos. Acordei de madrugada. Sentei-me, fiz o pelo-sinal, gritei aos homens, que se levantaram e foram pegar os animais. Já sabem que me tinha deitado com roupa e tudo, como é de costume quando a gente se aboleta nos descampados. Marombando, preguiçando, deixei a morrinha sair do corpo. Depois estirei um braço e procurei as botas que tinha largado ali perto na véspera. Achei uma bota, notei pelo jeito que era do pé esquerdo e calcei-me sem novidade. Mas quando fui calçar a outra sucedeu-me uma dos demônios. Meti a perna pelo cano, a perna entrou, entrou, e nada de chegar ao fundo. Uma bota regular vai ao joelho de um homem, não é isto? Pois essa passou o joelho, passou a coxa, tocou o pé da barriga, e se mais perna houvesse, mais teria entrado. — “Certamente alguém me arrancou a sola do calçado enquanto eu dormia”, pensei. Quem se havia atrevido àquela brincadeira maluca? Dei um grito de raiva. Nesse ponto os arrieiros voltavam do campo, com os animais no cabresto. Trouxeram um pedaço de facheiro aceso, aproximaram-se de mim e perderam ação: olharam uns para os outros, embasbacados, amarelos como defuntos. Sabem vossemecês o acontecido? Nem gosto de me lembrar. Uma jiboia tinha-se enrodilhado junto da fogueira. Percebem? Calcei bem a primeira bota mas quando ia calçar a segunda, agarrei a bicha nas queixadas e enfiei-lhe a perna pela boca adentro. Avaliem o medo que senti. Fiquei uns minutos abobado, sem mexer-me, e os companheiros, num assombro, nem tiveram coragem de me ajudar. Sim senhores, acalmei-me. Sempre arranjo calma nas horas difíceis. E, com muito cuidado, para não furar- me nos dentes da cobra, consegui descalçar aquela bota medonha. Felizmente ela não me mordeu. Suponho que também se assustou. Não foi senão isso, acreditem. Entalou-se, de queixo caído, e deu graças a Deus quando se viu livre daquela coisa que lhe atravessava o interior. Sacudiu a cabeça, aliviada, e sumiu-se devagarinho na catinga.


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Histórias de Alexandre

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