Lagartixa – crônica de Paulo Mendes Campos

By | 12/06/2013

Sinto nojo e medo de lagartixas domésticas, acabei odiando o pobre bicho. Outro dia vi um menino brincar com uma, das menores, por sinal, e estremeci como se a criança estivesse a cutucar um violento jacaré.

Meu apartamento vinha sendo a residência de três enormes lagartixinhas. Noites mal dormidas. Pensei: preciso matá-las para livrar-me do receio de que me caiam na cara durante o sono.

Ontem liquidei duas.

A primeira foi mais fácil. Para começar, fitei-a longamente, como a convencer-me de minha superioridade física e moral. Armado de um cabo de vassoura, aproximei-me cauteloso, enquanto ele me olhava, a duvidar de minhas reais intenções. Não é possível – concluí – que este sujeito vai me dar, a mim que nada lhe fiz, uma cacetada. Como eu continuasse avançando recuou um pouco, mas, pejando-se da covardia, tornou a refletir que eu não teria motivos para maltratá-la.

Seu nobre raciocínio custou-lhe o rabo, o rabo porque, no desconcerto da emoção, o golpe desviou-se alguns centímetros do alvo. Enquanto o rabo – momento puro de misterioso pavor – estertorava-se no chão, a bichinha esgueirou-se pela parede, ocultando-se atrás de um móvel. Os saltos do rabo solitário me acabrunhavam. Senti meu valor desfalecer. Agora, no entanto, o problema era outro; tratava-se, piedosamente, de livrar a lagartixa daquele rabo inquieto, ou seja, destruir a lagartixa aleijada. De que vale uma lagartixa sem rabo? De que vale um rabo sem lagartixa. Afastei o móvel, tive a impressão triunfante de que ela fremia de horror.

Desferi o segundo golpe com tal confusão de sentimentos que a infeliz ficou descadeirada. Tonta, sem noção do perigo, começou a arrastar-se penosamente pelo rodapé, desgraciosa e lenta. Com a terceira bordoada, estrebuchou de barriga para cima. É cadáver, respirei.

Coisa nenhuma. Ao remover o corpo, fui surpreendido por um pulo que a colocou de novo, toda estragada, na posição normal. Veio-me um frio ruim à espinha. Tive vontade de sair, dar uma volta pela praia, tomar um conhaque. A essa altura, entretanto, já não podia permitir a mim mesmo fraquezas dessa espécie. O tiro de misericórdia (ai de mim) teria liquidado um gambá.

O assassinato da segunda, (a verificação chocou-me bastante) foi incomparavelmente mais fácil. Menos emocionado, já meio habituado ao crime, desferi apenas dois golpes furiosos e fatais.

Joguei os corpos no lixo, e estava a escrever isto, quando alguém, lendo por cima do meu ombro, corrigiu a minha ignorância em dois pontos: primeiro que lagartixa dá sorte; segundo, que, decepado o rabo de uma lagartixa, cresce-lhe outro. Assim sendo, quanto ao rabo retifico logo: uma lagartixa sem rabo, a longo prazo, vale uma lagartixa inteira. No tocante à sorte, quero dizer que o extermínio das duas inocentes parece que me ajudou muito a libertar-me do medo. A terceira lagartixa, ausente na hora da matança, pode ficar agradecida ao sacrifício de suas irmãs. E se ela me der sorte, eu lhe pouparei a vida.

 



 

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10 thoughts on “Lagartixa – crônica de Paulo Mendes Campos

  1. Dara Graziele

    aulas de redação precisam de mais contos como esses… <3

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  2. GaY

    ODEBAIXOÉGGGGGGGGGGGGGGGGGGGGGGGGGGGAYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYY

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  3. #RertadaMentalmente

    Tcaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaau

    meus ANIGUInhols dol Acrle…………….

    #SouRetardadooooooooooooooooooooooooooo

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  4. 01010110 01100011 00100000 11101001 00100000 01000111 01100001 01111001

    01010011 01100101 00100000 01110110 01100011 00100000 01100011 01101111 01101110 01110011 01100101 01100111 01100101 00100000 01101100 01100101 01110010 00100000 01101001 01110011 01110011 01101111 00100000 01100100 01100101 01110011 01100011 01101111 01100100 01101001 01100110 01101001 01100011 01100001 01100100 01101111 00100000 01110000 01100001 01110010 01100001 01100010 01100101 01101110 01110011 00100000 01110110 01100011 00100000 01110000 01100101 01110010 01100100 01100101 01110101 00100000 01110011 01110101 01100001 00100000 01110110 01101001 01100100 01100001 00100000 01100001 01110001 01110101 01101001 00100000 01101001 01100100 01101001 01101111 01110100 01100001 00100000 01101101 01100001 01100011 01101000 01101001 01110011 01110100 01100001 00101110

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