Lindas e feias – Crônica de Paulo Mendes Campos

By | 19/05/2021

No meu tempo de menino, em minha cidade, havia de moças bonitas uma dúzia e mais três. Três que a gente não tinha muita certeza de escalar no time de cima. O número é estimativo, mas a verdade é concreta. Minas ainda se espreguiçava na renda agropastoril. Confinada à montanha, precariamente educada e vestida, anemizada por sete mil preconceitos, a moçada mineira gozava uma juventude curta e sem brilho.

Moças bonitas, é claro, surgiam, raramente embora, nos mais imprevisíveis distritos, alumbrando os municípios. Em São João del-Rei, por exemplo, luzia uma garota meio pálida, como convinha aos madrigais, mas suavemente linda na aristocracia do seu perfil. Para os lados do Triângulo, em Uberaba e Uberabinha, falava-se de tempos em tempos em novas beldades despontadas.

Do Norte, do Sul, da Zona da Mata, Varginha, Carmo do Paranaíba, Diamantina, Montes Claros, Três Corações, Figueira do Rio Doce, de qualquer canto, próspero ou emperrado, podia chegar a notícia duma estrela de primeira grandeza.

Uma constelação esparsa iluminava a província de Marília. As jovens se casavam com uma pressa natural e financeira; a expectativa ansiosa voltava, outras moças bonitas começavam a brilhar aqui e ali, por todo o áspero e melancólico território.

Em suma, a beleza feminina era um acidente individual, gratuito, raro e generoso como o talento. Não havia era condição social para a existência numerosa e permanente de mulheres belas. O milagre acontecia ou não acontecia; quando acontecia, o rapaz solteiro arregalava os olhos pedintes, na esperança privilegiada de desposar a peregrina beleza. Não o conseguisse, durante um ano e tanto era o rapaz venerado localmente como portador duma paixão magnífica e incurável. O cultivo da dor de cotovelo alheia pelas populações substituía a leitura de romances. Depois, o incurável se curava e casava com qualquer prendado bagulho, fecundando as Gerais.

Para o poeta, Minas não há mais. De fato, mudou muito. Fábricas, piscinas, campos de esporte, rodovias, aeroportos, foram modificando depressa o regime social. Exercícios físicos e dinheirinho e dietas cumpriram rigorosamente o seu dever: entre as gentes mais favorecidas já se distingue uma boa média de beleza e saúde.

Na fase poética da feiúra, o mineiro descia para o Rio como a alma do purgatório ingressa no clarão do Paraíso: arrebatada pela quantidade e pela qualidade dos anjos. Já quando o trem noturno fervia sob o sol de Cascadura, os olhos de Minas desfrutavam as premissas dum andar diferente, ancas descontraídas, ritmos novos, formas que não se ocultavam sob as vestes, pernas fornidas e nuas, timbres de voz sem timidez ― a carioca.

Às moças montanhesas faltava (se me entende, por favor) um vago toque de obscenidade, que é raiz do magnetismo animal.

Era o Rio uma cidade fascinante e perigosa, feita de braços, coxas, seios, cabeleiras, lábios… Copacabana doía de tanta mulher linda. Nós, mineirões, disfarçávamos o terror (que terror?), esse que a mulher bela e desenvolta provoca nos homens sombrios e virtuosos de gestos. Nem só o céu, diz o mestre, talha a bondade, mas também a timidez. Éramos bonzinhos e secos. Os grandes pecados públicos não eram para Minas Gerais, e o Rio pecava às escâncaras, com alegria e confiança no perdão. Mas Minas daquele tempo, oh, Minas Gerais!

419 Visualizações