Mandrake – Conto de Rubem Fonseca

By | 30/06/2022

Eu jogava com as brancas e empregava o bispo em fianqueto. Berta preparava um forte centro de peões.

Aqui é do escritório do dr. Paulo Mendes, disse a minha voz no telefone- gravador, dando a quem ligava trinta segundos para deixar sua mensagem. O sujeito disse se chamar Cavalcante Méier, como se entre os dois nomes existisse um hífen, e que estavam tentando envolvê-lo num crime, mas — tlec — o tempo dele acabou antes de dizer o que pretendia.

Sempre que a gente está num jogo duro um cliente telefona, disse Berta. Tomávamos vinho Faísca.

O sujeito ligou novamente, pedindo que eu ligasse para a casa dele. Um telefone da zona sul. Atendeu uma voz velha, cheia de calos (de reverência) nas cordas vocais. Era o mordomo. Foi chamar o doutor.

Tem mordomo na história, já sei quem é o assassino. Mas Berta não achou graça. Além de viciada em xadrez ela levava tudo a sério.

Reconheci a voz do gravador: o que quero lhe relatar tem que ser pessoalmente, posso passar no seu escritório?

Eu estou em casa, expliquei, dando o meu endereço.

Mixou o jogo, bebê (Berta Bronstein), eu disse, discando o telefone. Alô, dr. Medeiros, como é que vai a situação?

Medeiros disse que a situação não era grave, mas também não era tranquila. Medeiros só pensava em política, tinha sido coisa e loisa no início da revolução e apesar do seu escritório ser o maior da cidade ele não se libertava da nostalgia do poder. Perguntei se ele conhecia um tal de Cavalcante Méier.

Todo mundo conhece.

Eu não. Até pensei que o nome fosse falso.

Medeiros contou que o homem era fazendeiro em São Paulo e no Norte, exportador de café, açúcar e soja, suplente de senador por Alagoas, um homem rico.

O que mais? Tem rabo de palha, andou metido em comborças financeiras, é tarado sexual, além de latifundiário?

Para você o mundo só tem canalhas, não é? O senador é um homem público da maior honorabilidade, um líder empresarial, um cidadão exemplar, inatacável.

Lembrei a ele que o banqueiro J. J. Santos também era inatacável e eu tivera de livrá-lo das garras de um travesti maníaco num motel da Barra.

Você ganhou dele um Mercedes, é assim que agradece?

Eu não tinha ganho o carro, tinha extorquido, como os banqueiros fazem, juros e taxa de administração.

Medeiros com voz melíflua: qual o problema com o Cavalcante Méier? Eu disse que não sabia.
Vamos acabar a partida, disse Berta.

Não posso receber o sujeito nu, posso?, eu disse.

Estava me vestindo quando a campainha tocou, três vezes em dez segundos. Um homem impaciente, acostumado a que lhe abrissem as portas com presteza.

Cavalcante Méier era elegante, magro, cinquenta anos. O nariz era ligeiramente torto. Os olhos eram fundos, castanho-esverdeados, intensos.

Eu sou Rodolfo Cavalcante Méier. Não sei se o senhor me conhece. Conheço. Tenho sua ficha.
Minha ficha?

Sim. Vi que ele olhava para o copo na minha mão. Quer um pouco de vinho Faísca?

Não obrigado, disse ele, evasivo, vinho me dá dor de cabeça. Posso sentar?

Fazendeiro, exportador, suplente de senador por Alagoas, serviços prestados à revolução, eu disse.
Irrelevantes, ele cortou, seco.

Membro do Rotary Clube, eu disse de molecagem. Country Clube apenas.

Um líder, um homem de bem, um patriota.

Ele me olhou e disse firme, não brinque comigo.

Não estou brincando. Também sou patriota. De maneira diferente. Por exemplo: não quero declarar guerra à Argentina.

Também tenho sua ficha, ele me imitou. Cínico, inescrupuloso, competente. Especialista em casos de extorsão e estelionato. Ele falava como se fosse uma gravação, lembrava-me uma caixa de gargalhadas em que se dá corda e sai um som que não é humano, nem animal. Cavalcante Méier tinha dado corda nele mesmo, a corda que fazia a voz de fazendeiro falando com meeiro. Competente sim, inescrupuloso e cínico não. Apenas um homem que perdeu a inocência, eu disse.

Mais corda na caixa. Você leu os jornais?

Respondi que nunca lia jornais e ele me contou que uma jovem havia aparecido morta na Barra, dentro do próprio carro. Saíra a notícia em todos os jornais.

Essa moça era, ehn, minha, anh, ligada a mim, entendeu? Sua amante?

Cavalcante Méier engoliu em seco.

Já havíamos terminado. Eu achava que Marly devia encontrar um jovem como ela, casar-se, ter filhos.

Ficamos calados. O telefone tocou, alô Mandrake. Tirei o som. Sim, e depois?

Nossa relação era muito discreta, eu diria, secreta mesmo. Ninguém sabia de nada. Ela apareceu morta na sexta-feira. No sábado recebi um telefonema, um homem, me ameaçando, dizendo que eu a havia matado e que tinha provas de que éramos amantes. Cartas. Não sei que cartas podem ser essas.

Cavalcante Méier disse que não procurara a polícia porque tinha muitos inimigos políticos que se aproveitariam do escândalo.

Além disso, nada sabia que pudesse esclarecer o crime. E que sua filha única ia casar-se naquele mês.

Minha ida à polícia seria um gesto ética e socialmente inútil. Gostaria que você procurasse essa pessoa para mim, visse o que ele quer, defendesse os meus interesses da melhor maneira. Estou disposto a pagar para evitar o escândalo.

Como é o nome do sujeito?

Márcio, foi o nome que ele me deu. Quer que eu vá me encontrar com ele num lugar chamado Gordon’s, em Ipanema, hoje à noite, às dez horas. Ele estará de motocicleta, de blusão negro, e nas costas do blusão está escrito Jesus.

Combinamos que eu iria me encontrar com Márcio e negociar o preço do seu silêncio. Podia valer muito ou não valer nada.

Perguntei quem lhe indicara o meu nome.

O dr. Medeiros, ele disse, levantando-se. Saiu sem me estender a mão, apenas um aceno com a cabeça.
Fui procurar a caixa de gargalhadas. Remexi o armário de roupas, a estante, muitas gavetas até encontrá-la na cozinha. Dona Balbina adora ouvir as gargalhadas.

Levei a caixa para o quarto, deitei e liguei. Uma gargalhada convulsiva e inquietante, engasgada no goto, roxa, de alguém a quem tivessem enfiado um funil pelo ânus e as gargalhadas atravessassem o corpo e saíssem mortíferas pela boca, congestionando os pulmões e o cérebro. Aquilo exigia um pouco mais de vinho Faísca. Quando eu era menino, um homem, na minha frente, no cinema, teve um ataque de riso tão forte que morreu. De vez em quando me lembro daquele sujeito.

Pra que você está ouvindo esse barulho horrível? Você parece maluco, disse Berta. Vamos continuar o jogo? Agora vou ler os jornais, eu disse.

Merda, disse Berta, jogando o tabuleiro e as peças no chão. Uma mulher impulsiva.

Na mesinha de cabeceira estavam todos os jornais. Jovem secretária morta dentro do próprio carro na Barra. Um tiro na cabeça. A vítima estava com joias e documentos. A polícia não acreditava em roubo. A morta ia de casa para o trabalho e voltava cedo. Saía muito pouco à noite. Não tinha namorado. Os vizinhos diziam que era amável e tímida. Os pais informavam que ela ao chegar do trabalho ia para o quarto ler. Ela lia muito, disse a mãe, gostava de poesia e romances, era meiga e obediente, sem ela a nossa vida ficará vazia, sem sentido. Havia nos jornais várias fotos de Marly, alta e magra, de cabelos compridos. Seu olhar parecia triste. Ou era apenas impressão minha? Sou um romântico incurável.

Afinal fui jogar com Berta. Abri com as pretas, peão do Rei. Berta repetiu minha jogada. Em seguida movi meus cavalos. Berta me repetindo, criando posições simétricas que levariam à vitória o mais paciente, o que cometesse menos falhas, ou seja, Berta. Sou muito nervoso, jogo xadrez para me irritar, explodir in camera, lá fora é perigoso, tenho que manter a calma.

Tentei me recordar da partida de Capablanca com Tarrash, São Petersburgo 1914, onde tinha ocorrido uma abertura dos quatro cavalos e uma cilada terrível fora armada, mas que cilada era essa? Não conseguia me lembrar, na cabeça o motoqueiro do Gordon’s.

Não adianta me olhar com essa cara vitoriosa, eu disse, vou ter que sair agora.

Agora? No meio da partida? Outra vez? Você é um covarde, sabe que vai perder e foge.

É verdade. Mas além disso tenho que ver um cliente.

Berta, os braços levantados, começou a prender os cabelos. O sovaco de uma mulher é uma obra-prima, principalmente se ela é magra e musculosa como Berta. O sovaco dela também cheira muito bem, quando não tem desodorante, é claro. Um cheiro agridoce e que me deixa muito excitado. Ela sabe disso.

Vou encontrar um motoqueiro no Gordon’s.
Ah, um motoqueiro?

Tem um Hitchcock às onze na tv.

Não gosto de televisão, detesto filmes dublados, disse Berta de mau humor.

Então fica estudando a abertura Nimzovitch, ela permite boas ciladas posicionais. Daqui a pouco eu volto.

Berta disse que não me esperaria, que eu não tinha consideração por ela, nem respeito.

Quando parei na porta do Gordon’s, ainda dentro do carro, vi o motoqueiro. Era um rapaz baixo, forte, de cabelos castanho–escuros. Ele discutia, de maneira insolente, com uma moça. Ela tinha cabelos tão negros que pareciam pintados, seu rosto era muito pálido, diferente do das meninas bronzeadas que frequentavam o Gordon’s. Talvez a sua palidez fizesse os cabelos mais negros e estes por sua vez tornassem o rosto mais pálido, que por seu turno — enquanto eu me divertia com essa proposição, me lembrando do quaker da lata de aveia que eu tomava quando era criança — um quaker com uma lata de aveia na mão onde tinha outro quaker com uma lata de aveia na mão etc, ad infinitum — a moça sentou na garupa da moto e eles partiram velozmente pela rua Visconde de Pirajá. Eu não podia segui-los, meu carro ficara bloqueado. Saltei, fui ao balcão do Gordon’s, pedi uma coca e um sanduíche. Comi lentamente. Esperei uma hora. Eles não voltaram.

Berta estava na cama, dormindo, a televisão acesa. Liguei para o Cavalcante Méier.
O apóstolo não apareceu, eu disse. Não adiantava contar o que havia acontecido.

O que o senhor vai fazer? Ele falava baixo, com a boca encostada no fone. Meus clientes sempre falam assim. Me irritam.

Nada. Vou para a cama. Amanhã conversamos. Desliguei. Beijei de leve os lábios de Berta. Ela acordou.

Diz que me ama, disse Berta.

Levantei de manhã já com vontade de tomar vinho Faísca. Berta não gostava que eu bebesse tão cedo, mas vinho português não faz mal a nenhuma hora do dia ou da noite. Liguei o gravador e havia um recado do Cavalcante Méier.

Disquei.

O senhor leu os jornais?, Cavalcante Méier perguntou. Acabei de acordar, menti. Que horas são?

Meio-dia. Leu os jornais? Não, é claro que ainda não leu. A polícia diz que tem um suspeito.

Eles sempre têm um suspeito, que costuma ser inocente.

Sendo inocente posso ser o suspeito, conforme a sua lógica. Outra coisa, o tal Márcio telefonou. Disse que vem à minha casa hoje à tarde.

Estarei aí. O senhor me apresenta como seu secretário particular.

Desde que horas você está tomando vinho?, Berta perguntou, entrando na sala.

Expliquei a ela que Churchill acordava e tomava champanha, fumava charutos e ganhava a guerra.

Li os jornais, fumando um panatela escuro da Suerdieck. O espaço dedicado à morte de Marly era grande, mas não havia novidade. Não se falava em suspeito.

Telefonei para o Raul.

Esse crime da moça da Barra. Qual é a dica?

Que moça? A que foi estrangulada, a que foi atropelada, a que levou um tiro na cabeça, a que —

Tiro na cabeça.

Marly Moreira, secretária da Cordovil & Méier. Quem está com o caso é gente minha.

Dizem que há um suspeito. Você sabe alguma coisa?

Pode deixar que eu apuro.

Cavalcante Méier morava na Gávea Pequena. Parei o carro no portão e toquei a campainha. Um guarda particular saiu de uma guarita. Usava um revólver na cintura e tinha cara de quem não sabia usar a arma. Abriu o portão.

É o dr. Paulo Mendes?, ele perguntou. Sim.

Pode entrar.

Você devia pedir a minha identidade.

Ele mexeu desconcertado no quepe e pediu minha identidade. Esses falsos profissionais estão hoje em todos os lugares.

Subi por uma alameda ladeada de quaresmeiras, através de um gramado bem-cuidado. Grama inglesa, certamente. O mordomo abriu a porta. Ele era mesmo velho como eu havia previsto e tinha no rosto o rancor e nas costas a corcunda do lamber sapatos, tantos anos. A voz reverente perguntou meu nome, pediu-me que esperasse.

Fiquei andando de um lado para o outro no hall de mármore. Havia uma larga escadaria que levava ao andar superior. Uma jovem desceu as escadas acompanhada de um cão dálmata. Tinha cabelos louros, vestia jeans e uma blusa de malha justa. Eu não podia despregar os olhos dela. Ao chegar perto de mim perguntou, impessoal:

Está esperando alguém? Olhos azuis. O dr. Cavalcante Méier.

O papai já sabe que o senhor está aqui? O olhar dela me atravessava como se eu fosse de vidro.

O mordomo foi avisá-lo.

Sem outra palavra me virou as costas, abriu a porta e saiu, acompanhada do cachorro.

Um dia, quando era adolescente, ia andando pela rua quando vi uma mulher bonita e me apaixonei de maneira súbita e avassaladora. Ela passou por mim e continuamos andando em direções opostas, eu de rosto virado, vendo-a distanciar-se agile e noble, avec sa jambe de statue, até que ela desapareceu no meio da multidão. Então, num impulso desconsolado, virei-me para a frente, para além daquela passante e bati com a cabeça num poste.

Fiquei olhando a porta por onde a moça saíra, passando a mão na cicatriz da testa que o tempo não apagara.

Favor me acompanhar, disse o mordomo.

Atravessamos uma sala enorme que tinha no centro uma mesa grande redonda, cercada de cadeiras de veludo. E outra, com poltronas e grandes quadros nas paredes.

Cavalcante Méier me esperava, no escritório forrado de livros. Quem é a moça do cachorro, perguntei, uma loura bonita?

É minha filha Eva. Vai casar-se no dia 23, já lhe disse.

Cavalcante Méier estava, como da primeira vez, trajado com roupas elegantes. Seu cabelo bem-penteado, um risco ao lado, nem um fio sequer fora do lugar. Parecia o Rodolfo Valentino em A Dama das Camélias, com Alia Nazimova.

Perguntei se ele havia visto o filme. Não, não era nem nascido quando o filme foi exibido. Eu também não, mas frequentava as cinematecas.

Cordovil & Méier tem alguma coisa a ver com o senhor? É a minha empresa de exportação.

Então a moça morta era sua empregada?

Era secretária do meu gerente de marketing internacional.

Uma sombra passou pelo rosto de Cavalcante Méier. Poucos artistas sabiam fazer uma sombra passar pelo próprio rosto. Everett Sloane sabia, Bogart não sabia. Caretas são outra coisa.

O telefone tocou. Cavalcante Méier atendeu.

Pode deixar, ele disse.

Ouvi o barulho de uma motocicleta. O som parou por algum tempo e depois voltou a ser ouvido. Cavalcante Méier pareceu não dar importância ao ruído, dava instruções ao mordomo para trazer imediatamente à sua presença a pessoa que chegara.

Márcio, o motoqueiro, entrou na sala, no rosto a mesma arrogância que ostentara no Gordon’s. Olhando melhor, parecia uma máscara mal colocada.

Você disse que estaríamos sozinhos, quem é este sujeito? Meu secretário.

A conversa é só entre nós dois, manda ele embora. Ele fica, disse Cavalcante Méier, controlando sua ira. Então quem vai sou eu, disse Márcio.

Esperem, calma, não vamos criar problemas, posso esperar lá fora, eu disse.

Saí rapidamente para o salão. Da janela vi Eva sentada no gramado, o dálmata a seu lado. O sol filtrado pelos galhos das árvores dourava ainda mais os seus cabelos.

A porta do escritório se abriu e Márcio passou rapidamente por mim, sem me olhar. Ouvi o barulho da motocicleta. A moça, nesse instante, levantou-se depressa.

Está tudo resolvido, disse Cavalcante Méier, da porta do escritório.

Como assim?, perguntei sem sair da janela. Eva correu pelo gramado, seguida pelo cão, e desapareceu do meu campo visual.

Cheguei a um entendimento com esse indivíduo. Não preciso mais dos seus serviços. Quanto lhe devo?

Quem foi mesmo que disse que a linguagem existe para esconder o pensamento?, perguntei saindo da janela.

Não sei e não me interessa. Quanto lhe devo?

Nada.

Virei-lhe as costas. O mordomo estava no hall. Parecia ter andado por trás das portas ouvindo todas as conversas.

Peguei meu carro. Não havia sinal de Eva. O guarda abriu o portão para mim. Perguntei a ele se o motociclista havia parado no meio do caminho antes de entrar na casa.

Parou perto do lago, para falar com dona Eva.

O guarda olhou alguma coisa por cima da capota do carro. Olhei também e vi uma moça pálida, de cabelos escuros, parada a uns vinte metros. Era a garota que eu tinha visto na garupa do motoqueiro, no Gordon’s. Ao notar que eu a observava afastou-se, caminhando lentamente.

Quem é aquela moça?, perguntei.

É sobrinha do doutor, o guarda disse. O nome era Lili e ela morava na casa do tio.

O telefone da guarita tocou. O guarda foi atender. Ao voltar foi abrir o portão. Aproximei o carro.

Esse cara da motocicleta já esteve aqui antes?

Não sei de nada, disse o guarda virando o rosto. Devia ter recebido instruções de evitar conversas comigo.

Cheguei em casa, abri a geladeira, tirei uma garrafa de vinho Faísca. Na mesa um bilhete: você podia ter usado a cilada de Würtzberg. Bastava oferecer a Dama, mas isso você nunca faz. Te amo. Berta.

Liguei para o meu sócio, Wexler. Hoje não vou ao escritório.

Já sei, Wexler disse. Vai jogar xadrez com uma mulher e tomar vinho. Fico dando duro enquanto você come as mulheres.

Estou com um caso mandado pelo dr. Medeiros. Contei tudo para ele.

Isso não vai dar em nada, disse Wexler.

Liguei para o Raul. Ele marcara um jantar no Albamar com o delegado que estava no caso da Marly.

Na cidade?, chiei.

A Homicídios é na cidade. O nome dele é Guedes.

Guedes era um homem jovem, precocemente calvo, magro, de olhos castanhos tão claros que pareciam amarelos. Pediu uma coca-cola para beber. Raul tomava uísque. Não tinha Faísca e pedi um Casa da Calçada. Prefiro os maduros, mas às vezes um verde geladinho cai bem.

Marly tinha um Rolex de ouro no pulso, uma aliança de brilhantes e seis mil cruzeiros na bolsa, disse Guedes.

Isso facilita, disse Raul.

Facilita, mas estamos no escuro, disse Guedes. Os jornais dizem que vocês têm um suspeito. Isso é para despistar.

Já surgiu nesse enredo o nome do chefe dela na Cordovil & Méier, o gerente de marketing?, perguntei.

Artur Rocha. Os amarelos olhos suspicazes de Guedes examinaram meu rosto. Li o nome dele no jornal, eu disse.

O nome não saiu no jornal. Os olhos de Guedes ardiam em cima de mim. Eu não ia sacanear aquele cara, ele parecia um tira decente.

Fiz um pequeno serviço para o presidente da firma, o senador Cavalcante Méier.

Eu mesmo tomei o depoimento do Artur Rocha. Ele afirmou que nada sabia sobre a vida da secretária, disse Guedes.

Você acha que ele disse a verdade?

Já viramos a vida dele pelo avesso. A moça foi morta na sexta-feira, entre oito e nove horas da noite. Às onze horas Rocha estava em Petrópolis, na casa de amigos. Ele não se interessa por mulheres, parece que gosta mesmo é de ostentar sua riqueza.

Mandou fazer um picadeiro na casa dele, em Petrópolis, e dizem que mal sabe montar. Entendeu a jogada? Os grã-finos menores têm quadra de tênis e piscina.

Ele tem tudo isso e ainda um picadeiro e cavalos para emprestar aos amigos.

Se um gerente ganha para isso, imagine o presidente, disse Raul.

Ele não deve ser assalariado, deve ser sócio. Salário temos nós, quer dizer, eu e o Raul, o senhor não.

Epa!, não me chama de senhor, me chama de Mandrake, eu disse. Dizem que o senhor é um advogado rico.
Antes fosse.

O Mandrake é um gênio, disse Raul, que já havia bebido metade da garrafa de uísque. É um tremendo filho da puta. Ele comeu a minha mulher. Hem, Mandrake, se lembra?

Sofro até hoje por isso, eu disse.

Já te perdoei, disse Raul. E àquela filha da puta também.

A mulher dele dava para todo mundo. Eles não eram mais casados. Enfim.

O crime se configura, em princípio, como um crime passional, disse o Guedes, pouco interessado na minha conversa com Raul. Artur Rocha não tem capacidade de se apaixonar ou matar por paixão, ou dinheiro, ou outra coisa qualquer. Mas tenho a impressão de que ele está mentindo. O que acha você?

Quando investigo um crime até minha mãe é suspeita, disse Raul. Guedes continuava me olhando, esperando uma resposta.
As pessoas matam quando sentem medo, tergiversei, quando odeiam, quando invejam.

Direto do almanaque Capivarol, disse Raul. Sei que ele está mentindo, disse Guedes.

Sozinho no carro eu disse, mais tarde, para o espelho retrovisor, está todo mundo mentindo.

No dia seguinte os jornais já não davam destaque à morte de Marly. Tudo cansa, meu anjo, como dizia o poeta inglês. Os mortos têm que ser renovados, a imprensa é uma necrófila insaciável. Uma notícia nas colunas sociais chamou minha atenção: o casamento de Eva Cavalcante Méier com Luís Vieira Souto não mais se realizaria naquela semana. Alguns colunistas lamentavam que o enlace tivesse sido cancelado. Um deles exclamava: o que será feito com a imensidão de presentes que o ex-futuro casal já recebeu de todos os cantos do Brasil? Um problema realmente sério.

Peguei o carro e fui para a estrada da Gávea. Parei a cem metros do portão da casa. Enfiei no toca-fitas do carro um cassete do Jorge Ben e fiquei batucando com ele no painel do carro.

Primeiro apareceu o Mercedes. Cavalcante Méier sentado no banco traseiro. O motorista vestido de azul-marinho, camisa branca, gravata preta, quepe preto na cabeça. Esperei mais meia hora e os portões se abriram, e um Fiat esporte saiu em disparada.

Fui atrás. O carro fazia as curvas em alta velocidade, os pneus zunindo. Não era fácil segui-lo. É hoje que morro, pensei. Qual das minhas mulheres sofreria mais? Berta talvez deixasse de roer unhas.

O Fiat parou no Leblon, na porta de um pequeno edifício. A moça saltou do carro, entrou por uma porta onde estava escrito Bernard — Ginástica Feminina. Esperei dois minutos.

Sala de espera atapetada, paredes cheias de reproduções de bailarinas de Degas e posters de dança. De trás de uma mesa de aço e vidro uma recepcionista de cabelos oxigenados, toda maquiada, de uniforme cor-de-rosa, me deu bom-dia, perguntou se eu desejava alguma coisa.

Queria inscrever minha esposa no curso de ginástica.

Pois não, disse ela pegando uma ficha.

Cocei a cabeça e expliquei que não queria a minha esposa frequentando qualquer curso, que podiam me chamar de antiquado, mas eu era assim mesmo.

A recepcionista sorriu com a boca inteira, como só sabem fazer os que têm todos os dentes e disse que aquele era o lugar certo, uma academia frequentada por senhoras e moças do soçaite. Ela falou soçaite de boca cheia. Suas unhas eram longas, pintadas de vermelho-forte.

Como é o nome de sua esposa?

Pérola… Hum, ahn, mas quem ensina é uma professora? Ou é um homem? Um professor, mas que não me preocupasse, Bernard era muito respeitador. Pedi para ver um pouquinho da aula.

Só um pouquinho, disse a loura, levantando-se. Ela era da minha altura, um corpo esguio, de seios pequenos, toda sólida. Você também faz ginástica?

Eu não, este corpo foi Deus que me deu, mas podia ser obra de Bernard, ele faz verdadeiros milagres.

Saiu deslizando na minha frente, até uma porta com um espelho, que entreabriu.

As alunas acompanhavam o ritmo agitado da música transmitida em alto volume por caixas acústicas espalhadas pelo chão. Num golpe rápido elas inclinaram o tórax para a frente, a cabeça para baixo, empurraram as mãos entre os joelhos para trás, depois endireitaram o corpo, levantaram novamente os braços e começaram tudo de novo.

Eram umas quinze mulheres, vestidas de malhas de diversas cores predominando o azul, mas havia vermelho, rosa, verde. No meio da sala, com uma vara na mão, estava Bernard, também de malha. Devia ter sido bailarino e certamente orgulhava-se de suas nádegas firmes.

Não curve os joelhos, Pia Azambuja! Contraia as nádegas, Ana Maria Melo!

Vupt! uma varada na bunda de Ana Maria Melo.

Siga o ritmo, Eva Cavalcante Méier! Não pare, Renata Albuquerque Lins! Bernard dizia os nomes das alunas por inteiro, eram sobrenomes importantes, dos pais, dos maridos.

A recepcionista fechou a porta. Já viu tudinho, não viu?

Ele sempre bate nas alunas?, perguntei.

É de leve, não machuca não. Elas não se incomodam. Até gostam. Bernard é maravilhoso. As alunas chegam cheias de celulite, flácidas, posturas erradas, pele ruim, e o Bernard as deixa com um corpo de miss.

Fizemos a ficha da minha mulher. Pearl White?

Minha mulher é americana. Pearl quer dizer Pérola.

Não sei qual é a graça em fazer piadas que ninguém entende, mas vivo fazendo isso.

Fiquei andando de um lado para o outro defronte do Fiat, jogando com as brancas, controlando o centro 3r, 3d, 4br, 4r, 4d, 4bd, 5br, 5r, 5d, 5bd, 6r e 6d. Poder e raio de ação. Giuoco Piano. Siciliana. Nimzoíndia.

Eva surgiu com os cabelos molhados, calças compridas de brim, blusa de malha, braços nus. Carregava uma bolsa grande.

Alô. Postei-me na frente dela.

Eu o conheço?, ela perguntou friamente.

Da casa do seu pai. Ele me contratou para ser advogado dele. Sim…?

Mas já me dispensou.

Sim…?, ela falava rispidamente, mas não ia embora.

Queria ouvir o que eu tinha a dizer. As mulheres são curiosas como os gatos. (Os homens também são como os gatos. Enfim.)

Alguém queria envolvê-lo na morte de Marly Moreira, a moça que apareceu na Barra com um tiro na cabeça.

Só isso?

Um chantagista chamado Márcio afirma que tem documentos que podem incriminar o seu pai.

O que mais?

A polícia suspeita dele. Tenho mais coisas a dizer, mas não aqui na rua. Quando o garçom veio ela pediu uma água mineral. Deus, Bernard e Regime Feroz tinham feito aquela maravilha. Pedi vinho Faísca. Ficamos em silêncio.

Se meu pai corre perigo você devia falar com ele mesmo. Não sei o que adianta falar comigo.

Seu pai dispensou os meus serviços. Ele deve ter tido alguma razão.

Contei a ela as entrevistas que tivera com Cavalcante Méier, minha ida ao Gordon’s, o encontro entre sua prima Lili e o motoqueiro Márcio. O rosto dela permaneceu impenetrável.

Você acha que meu pai matou essa moça? Sorriso de desprezo. Não sei.
Meu pai tem muitos defeitos, é vaidoso e fraco, e outras coisas piores, mas não é um assassino. Basta olhar para ele, para se ter essa certeza.

Rememorei os rostos dos assassinos que conhecia. Nenhum deles tinha cara de culpado.

Alguém matou a moça e não foi um assaltante.
Nem meu pai.

Márcio, o motoqueiro, quando foi ver o seu pai, parou no jardim para conversar com você.

Você está enganado. Não sei quem é essa pessoa.

Olhei bem o rosto inocente dela. Eu sabia que ela sabia que eu sabia que ela mentia. Eva tinha uma cara botichelesca, pouco brasileira, naquele dia de sol, talvez por isso mais atraente para mim. Não gosto de mulheres queimadas de sol. É um artifício. A pele sabe a sua cor, e os cabelos, e os olhos. Usar o sol como cosmético é uma estupidez.

Você é muito bonita, eu disse.

Você é uma pessoa desagradável, feia e ridícula, ela disse. Eva levantou-se e saiu, pisando como Bernard ensinava.

Cheguei em casa, desliguei o telefone-gravador. Berta havia ido para a casa dela. Passei toda a minha vida sem sonhar ou esquecendo a maioria dos sonhos. Mas de dois sonhos eu sempre lembrava, só e sempre esses dois. Num eu sonhava que estava dormindo e sonhava um sonho que eu esquecia quando acordava, com a sensação de que uma importante revelação se perdia com o meu esquecimento. No outro eu estava na cama com uma mulher e ela tocava no meu corpo e eu sentia a sensação dela ao tocar no meu corpo, como se meu corpo não fosse de carne e osso. Eu acordava (fora do sonho, na realidade) e passava a mão na minha pele e sentia como se ela fosse coberta de um metal frio.

Acordei com o barulho da campainha da porta. Wexler.

O que você andou arranjando? Sabe quem está atrás de você? O delegado Pacheco. Você agora anda metido com os comunas?

Wexler contou que cedo, pela manhã, o delegado Pacheco havia aparecido no escritório me procurando. Pacheco era famoso no país inteiro.

Ele quer que você vá à delegacia falar com ele.

Eu não queria ir mas Wexler me convenceu. Do Pacheco ninguém escapa, ele disse.

Wexler foi comigo. Pacheco não nos fez esperar muito tempo. Era um homem gordo, de rosto agradável, não aparentava a maldade que a sua fama difundia.

Suas atividades estão sendo investigadas, Pacheco disse, com ar sonolento.

Não sei o que estou fazendo aqui, sou corrupto, não sou subversivo. Era outra piada.

Você não é uma coisa nem outra, Pacheco disse com voz cansada, mas não seria difícil provar que é as duas coisas. Ele me olhou como um irmão mais velho olhando para o caçula traquinas.

Um amigo me procurou para dizer que você o anda molestando. Pare com isso.

Posso perguntar quem é o seu amigo? Molesto muita gente.

Você sabe quem é. Deixe-o em paz, palhaço.

Então já vamos, disse Wexler. O pai dele havia sido morto no pogrom do gueto de Varsóvia em 1943, na frente dele, um menino de oito anos. Ele lia a cara das pessoas.

Cuidado com aquele nazista, disse Wexler na rua. Afinal, em que embrulho você anda metido?

Contei o caso Cavalcante Méier para ele. Wexler cuspiu com força no chão — ele não dizia nome feio mais cuspia no chão quando ficava com raiva — e me agarrou com força no braço.

Você não tem mais nada com o caso. Sai dessa. Esses nazistas! Outra cusparada.

Liguei para Berta.

Bebê, você abre com a Ruy Lopes e eu ganho de você em quinze lances.

Mentira. As dificuldades das pretas nesta abertura são muito grandes quando os enxadristas se equivalem, como era o nosso caso. Eu apenas queria ter perto de mim alguém que me amava. Tua cara não está boa, disse Berta ao chegar.

Minha cara é uma colagem de várias caras, isso começou aos dezoito anos; até então o meu rosto tinha unidade e simetria, eu era um só. Depois tornei-me muitos.

Coloquei a garrafa de vinho Faísca ao lado do tabuleiro.

Começamos a jogar. Ela abriu com a Ruy Lopes, como tínhamos combinado. No décimo quinto lance minha situação era difícil.

O que está acontecendo? Por que você não usou a defesa Steinitz pra deixar a coluna do Rei aberta para a Torre? Ou a defesa Tchigorin, desenvolvendo o flanco da Dama? Você não pode ficar inerte assim ante uma Ruy Lopes.

Olha Berta, Bertinha, Bertonga, Bertete, Bertíssima, Bertérrima, Bertinhazinha, Bertinhona, Bebê.

Você está bêbado, disse Berta. Estou.

Não jogamos mais.

Eu quero abraçar você, deitar a cabeça no teu peito, sentir o calor entre as tuas pernas. Estou cansado, Bebê. Além do mais estou apaixonado por outra mulher.

Como? Dando uma de Le Bonheur pra cima de mim? É um filme medíocre, eu disse.

Berta jogou todas as pedras do tabuleiro no chão. Mulher impulsiva. Quem é essa mulher? Eu fiz um aborto seu, tenho o direito de saber. A filha de um cliente.

Quantos anos? A minha idade? Ou você já está baixando? Dezesseis? Doze? A tua idade.
Ela é mais bonita do que eu?

Não sei. Talvez não. Mas é uma mulher que me atrai.

Vocês homens são infantis, fracos, fanfarrões! Bobo, você é um bobo! Eu te amo, Bebê, eu disse pensando em Eva.

Então fomos para a cama, eu pensando o tempo todo em Eva. Depois que fizemos amor Berta dormiu de barriga para cima. Roncava levemente, a boca aberta, inerte. Sempre que bebo muito durmo apenas meia hora, acordo com complexo de culpa. Ali estava Berta, de boca aberta como um morto sonhando. Que fraqueza é dormir! As crianças sabem. É por isso que durmo pouco, tenho medo de ficar desarmado. Berta roncava. Estranho, numa pessoa tão suave. O sol ia surgindo, uma luz fantástica entre o branco e o vermelho, aquilo merecia uma garrafa de vinho Faísca. Acabei de beber, tomei banho, me vesti, fui para o escritório. O vigia do prédio perguntou, deu formiga na cama, doutor?

Sentei e fiz as alegações finais de um cliente. Wexler chegou e começamos a discutir coisas sem importância, mas que nos deixaram exaltados.

Deve ser uma merda ser filho de imigrante português, disse Wexler. E filho de judeu morto no pogrom?, perguntei.

Meu pai era professor de latim, minha mãe tocava Bach, Beethoven e Brahms no piano, teu pai pescava bacalhau, tua mãe era costureira! Wexler foi na janela e cuspiu.

Bach, Beethoven, Brahms, Belsen e Buchenwald, os cinco bês, no piano, eu disse.

Ele fez uma cara de dor, um olhar que só os judeus são capazes de mostrar.

Desculpe, eu disse. A mãe dele tinha morrido em Buchenwald, uma mulher jovem, que no retrato era bonita e tinha um rosto doce e moreno. Desculpe.

O dia acabou e eu decidi não ir para casa. Não queria ver Berta, o telefone- gravador, nada, ninguém, só pensava em Eva. Minhas paixões duram pouco, mas são fulminantes.

Um hotel ordinário na rua Corrêa Dutra, no Flamengo. Apanhei a chave, fui para o quarto, deitei olhando para o teto.

Havia uma lâmpada, um globo sujo de luz, que eu acendia e apagava. O barulho da rua misturou-se com o silêncio, numa gosma opaca e neutra. Eva. Eva. Caim matou Abel. Alguém está sempre matando alguém. Passei a noite rolando na cama.

De manhã paguei o hotel e fui cortar o cabelo e fazer a barba.

A defesa Steinitz, eu disse ao barbeiro, não é assim tão eficiente, a Torre tem os seus movimentos limitados, é uma peça forte, porém previsível.

O senhor tem razão, disse o barbeiro, cautelosamente.

A defesa Tchigorin arrisca a Dama e eu nunca arrisco a Dama, continuei. Está tudo errado, o hino nacional com sua letra idiota, a bandeira positivista sem a cor vermelha, toda bandeira deve ter a cor vermelha, de que vale o verde das nossas matas e o amarelo do nosso ouro sem o sangue de nossas veias?

É tudo uma pouca vergonha, disse o barbeiro.

Enquanto o barbeiro falava do custo de vida eu lia o jornal. Márcio Amaral, também conhecido como Márcio da Suzuki, fora encontrado morto no seu apartamento no bairro de Fátima. Um tiro na cabeça. Na mão direita um revólver Taurus, calibre 38, com uma cápsula deflagrada no tambor. A polícia suspeitava de homicídio. Márcio da Suzuki estaria envolvido no tráfico de entorpecentes na zona sul da cidade.

Isso não me interessa mais, que todos se fodam, o senador canalha e sua filha dedetizada, a sobrinha pálida, a secretária morta e seus pais falantes, o motoqueiro, o Guedes, o raio que o parta, pra mim chega.

O barbeiro me olhou assustado. No meu apartamento um bilhete:

Onde você se meteu? Está louco? Wexler quer falar com você, coisa urgente. Estou na loja. Liga pra mim. Te amo. Morro de saudades. Berta.

Eu ainda gostava de Berta, mas meu coração não disparava mais ao ouvir sua voz ou ler seus bilhetes. Berta se tornara uma pessoa perfeita para casar, quando eu fosse velho e doente.

Liguei para Berta, marquei um encontro para aquela noite. O que podia eu fazer? Disquei, Wexler.

Pensei que o Pacheco tinha posto a mão em você, disse Wexler. O Raul está te procurando, diz que é importante.
O telefone de Raul tocou, tocou, tocou e quando eu ia desligar ele atendeu.

Estava no banheiro. O Guedes queria muito falar contigo. Passa na Homicídios, ele disse.

Contei ao Raul as ameaças do Pacheco. Raul me mandou tomar cuidado. Na Homicídios. Guedes me recebeu logo.

Eu jogo aberto com você, ele disse. Leia isso.

A letra era redonda, os pingos dos ii pequenos círculos: Rodolfo, não pense que você pode me tratar dessa maneira, como um objeto que se usa e joga fora. Estou disposta a fazer as maiores loucuras, falar com a sua mulher, fazer escândalo na firma, botar a boca no mundo, nos jornais, você não sabe do que eu sou capaz. Não quero mais apartamento nenhum, você não me compra, como faz com todo mundo. Você é o homem da minha vida, nunca conheci outro, nem quis, nem quero. Você tem me evitado, não é assim que acabam relações como a nossa. Eu quero te ver. Me telefona, sem demora. Ando muito doida, nervosa, sou capaz de tudo. Marly.

Então?, disse o Guedes. Então o quê?

Você tem alguma ideia? Que ideia posso ter?

Que achou da carta?

Já foi feita alguma perícia grafotécnica?

Não. Mas tenho certeza que a letra é de Marly Moreira. Sabe onde a carta foi encontrada? Com um tal Márcio Amaral, vulgo Márcio da Suzuki. Quem matou Márcio revirou o quarto, possivelmente atrás da carta, mas se esqueceu de procurá-la no bolso da vítima. A carta estava lá.

Coisa de amador, eu disse.

É amador mesmo. Tentou fingir que a morte era suicídio sem saber os truques. Márcio não tinha sinais de pólvora nos dedos, a trajetória do projétil é de cima para baixo, muitos erros, o assassino de pé e a vítima sentada. Acho que sei quem é o assassino. Um homem importante.

Cuidado, homens importantes compram todo mundo.

Nem todos se vendem, disse Guedes. Ele poderia dizer que era incorruptível, mas os que realmente não se vendem, como ele, não se gabam disso.

O senador Rodolfo Cavalcante Méier matou Marly, continuou Guedes. Márcio, não sabemos como, obteve a carta e começou a chantagear o senador. Para esconder o primeiro crime o senador cometeu outro, matando Márcio.

Ali estava na minha frente um homem decente fazendo o seu trabalho com dedicação e inteligência. Tive vontade de contar a ele tudo o que sabia, mas não consegui. Cavalcante Méier nem sequer era meu cliente, era um burguês rico nojento e talvez um assassino torpe e mesmo assim eu não conseguia denunciá- lo. Meu negócio é tirar as pessoas das garras da polícia, não posso fazer o contrário.

Então?, perguntou Guedes.

O senador não precisaria matar pessoalmente, encontraria alguém para fazer o serviço para ele, eu disse.

Não estamos em Alagoas, disse Guedes.

Aqui também existem pistoleiros que matam por uma ninharia.

Mas nesses não se pode confiar. A polícia põe a mão neles, enche de porrada e eles contam tudo. Não são jagunços de fazenda, protegidos pelo feudo, disse Guedes. Além do mais você concordou que os dois crimes são coisa de amador.

Repeti que não sabia nada dos crimes, que minha opinião era superficial.

O Raul disse que você poderia ajudar, disse Guedes, decepcionado, quando me despedi dele.

Armei o tabuleiro de xadrez. Botei uma garrafa de Faísca no balde de gelo.

Não quero jogar xadrez nem beber vinho, disse Berta. O que foi, meu bem?, perguntei, farto de saber.

Só continuo com você se você acabar com essa moça. Nada tenho com ela, como posso acabar o que não existe?

Você gosta dela, isso existe. Quero que você deixe de gostar dela. Você uma vez me disse que só gosta de quem gosta de você, que só gosta de quem você quer. Quero que goste apenas de mim. Do contrário adeus, não tem mais jogo de xadrez, trepadas na hora que você bem entende, pileques de vinho. Eu odeio vinho, seu cretino, bebo por sua causa. Odeio, odeio, odeio.

E xadrez?

Xadrez eu gosto, disse Berta enxugando as lágrimas. Em vez de ser um protagonista da sua própria vida, Berta o era da minha.

Prometi que ia fazer força para esquecer Eva. Deixei que ela ganhasse de mim usando o contragambito Blemenfeld. Para falar a verdade ela ganharia de qualquer forma, pois o tempo todo eu pensava em quem poderia ter feito a carta de Marly Moreira chegar às mãos de Márcio da Suzuki. p4d, c3br. Cavalcante Méier certamente guardaria a carta com cuidado. c3br, p3r. Por que não a destruiu? Talvez não a tivesse recebido, interceptada por alguém. p4b, p4b. Nesse caso seria alguém da casa dele, se é que a carta foi para a casa dele; podia ter ido para o escritório. Meu palpite era a casa. O mordomo? Ri. p5d, p4cd. Está rindo, é?, disse Berta, daqui a pouco você vai ver. pxpr, pbxp, Berta riu por sua vez. Alguém da segurança, ou a esposa, que eu nunca tinha visto, ou a filha, ou a sobrinha. Como dizia Raul, há que desconfiar até da própria mãe. pxp, p4d. Mate!, disse Berta.

Bebê, nem Alekhine jogaria com tanto brilho, eu disse. Você é que jogou mal, disse Berta.

Eu estava disposto a esquecer Eva, como havia prometido a Berta, mas ao chegar na casa de Cavalcante Méier, Eva abriu a porta e meu entusiasmo voltou de novo. Eu havia ido primeiro ao escritório e me disseram que o senador estava em casa, indisposto. Na mão eu carregava um jornal com notícias sobre a morte de Marly Moreira. O assunto ganhara novamente a primeira página dos jornais. A perícia estabelecera que Márcio da Suzuki fora morto pela mesma arma que assassinara Marly. O delegado Guedes numa entrevista dizia que havia um figurão envolvido e que a polícia estava prestes a detê-lo, custasse o que custasse. Falava-se também em tráfico de entorpecentes.

Quero falar com seu pai.

Ele não pode atender ninguém.

É do interesse dele. Diga-lhe que a polícia tem a carta. Só isso. Ela me olhou com o rosto impassível de boneca, a pele saudável parecia de louça, faces rosadas, lábios vermelhos, radiantes olhos azuis, um vicejar violento na flor da idade. Parecia um slide colorido projetado no ar.

Ele não pode atender ninguém, Eva repetiu.

Olha aqui, menina, seu pai está numa enrascada e eu quero ajudá-lo. Vai e diz a ele que a polícia tem a carta.

Cavalcante Méier me recebeu de robe de chambre curto de veludo vermelho. Seu cabelo estava cuidadosamente penteado e oleado, recentemente.

A polícia tem a carta, eu disse. Sabem que foi dirigida a um certo Rodolfo e acham que esse Rodolfo é o senhor. Felizmente o envelope não foi achado e eles não podem provar nada.

Eu rasguei o envelope, disse ele, não sei por que não rasguei a carta também. Guardei-a na gaveta da mesinha de cabeceira do meu quarto.

Um vício de banqueiro, guardar documentos, pensei.

Eu não matei Marly. Não tenho a menor ideia de quem o fez. Não sei se acredito nisso. Acho que foi você.

Prove-o.

Parecia Jack Palance, Wilson o pistoleiro, calçando as luvas negras e dizendo prove-o, para Elisha Cook Jr., antes de sacar rapidamente o Colt e dar-lhe um estrondante tiro no peito e jogá-lo de cara na lama sulcada pelas rodas das carroças.

Existem muitos Rodolfos no mundo. Posso provar que nunca vi essa moça na vida. Sabe onde eu estava na hora do crime? Jantando com o governador do estado. Ele pode confirmar isso. Você é um homem mortificado pela inveja, não é? Você odeia os que venceram na vida, os que não acabam a vida como advogados de porta de xadrez, não é?

Não odeio ninguém. Apenas desprezo canalhas como você. Então o que veio fazer aqui? Atrás de dinheiro.

Não, atrás da sua filha.

Cavalcante Méier levantou a mão para me bater. Segurei a mão dele no caminho. Seu braço não tinha força. Larguei a mão daquele porcaria, áulico explorador, sibarita, parasita.

Raul estava me procurando no escritório.

Guedes foi afastado do caso Marly Moreira por uma portaria do chefe de Polícia, de hoje. Deu entrevistas proibidas pelo regulamento.

Acham que ele está querendo se promover. Foi transferido para a delegacia de Bangu. Não pode mais abrir o bico.

Guedes não queria se promover. Acreditava na culpa de Cavalcante Méier e queria botar o préstito na rua antes que abafassem tudo. Um crente, na imprensa e na opinião pública, um ingênuo, mas muitas vezes esse tipo de pessoa realiza coisas incríveis.

Como é que está a coisa?, perguntou Wexler. Ah, Leon, estou apaixonado!

Você sempre está. A Berta é boa menina.

Já é outra. A filha do senador Cavalcante Méier.

Você quer comer todas as mulheres do mundo, Wexler disse recriminante. É verdade.

Era verdade, eu tinha uma alma de sultão das mil e uma noites; quando era menino me apaixonava e passava as noites chorando de amor, pelo menos uma vez por mês. E adolescente comecei a dedicar minha vida a comer as mulheres. Como as filhas dos amigos, as mulheres dos amigos, as conhecidas e desconhecidas, como todo mundo, só não comi minha mãe.

Tem uma moça na sala de espera, querendo falar com você, disse dona Gertrudes, a secretária. Dona Gertrudes estava cada dia mais feia, começava a crescer uma corcunda nela, e bigodes, tive a impressão que me olhava vesgo, um olho para cada lado. Uma santa pessoa. Pensando bem, ela era assim mesmo?

Eva, na sala de espera. Ficamos lendo um o olhar do outro. Você joga xadrez?, perguntei. Não. Bridge.

Você me ensina?, perguntei. Ensino.

Eu me controlava para não sair voando pela sala como um besouro doido. Não foi meu pai, sei que não foi.

Eu te amo, eu disse. Aconteceu no primeiro dia em que te vi. Seu olho parecia um maçarico.

Eu também fiquei muito perturbada naquele dia. Estávamos de mãos dadas quando Wexler entrou na sala.

Raul acabou de chegar. Eu disse que você estava ocupado. Você quer falar com ele?

Deve ser coisa ligada ao caso de Marly. Vou falar com ele. Você espera aqui, eu disse para Eva.

Estava na porta quando Eva disse: salva meu pai. Voltei.

Para isso você tem que me ajudar.

Como?

Começa deixando de mentir para mim. Não mentirei mais.

O que você conversou com Márcio da Suzuki em sua casa? De onde você o conhecia?

Márcio fornecia cocaína para minha prima Lili. Mas há seis meses, mais ou menos, ela deixara o vício. Naquele dia perguntei a Márcio se Lili voltara a cheirar e Márcio disse que não. Meu medo era de que ele tivesse ido levar tóxico para ela.

Onde Lili arranjava dinheiro para comprar o pó?

Papai dá a Lili tudo que ela pede. Ela é filha do irmão dele que morreu quando Lili era menina. A mãe dela não quis saber da filha, casou-se de novo e Lili veio morar com a gente quando tinha oito anos.

Por que você disse que sabe que o seu pai não matou Marly e o Márcio? Meu pai não seria capaz de matar ninguém.

Então é apenas um pressentimento, uma simples presunção?

Sim, ela disse desviando os olhos dos meus.

Raul estava em pé, na sala de Wexler, andando dum lado pro outro.

Guedes diz que vai denunciar o senador como assassino e que não se incomoda com o que possa acontecer.

O Guedes está maluco, eu disse. Temos de evitar que ele faça essa besteira.

Eu e Raul saímos à procura de Guedes. Eva foi para casa, prometi que depois lhe telefonaria.

Guedes estava no Instituto Oswaldo Éboli, conversando com um perito amigo. Preparava a documentação para entregar aos jornais.

Não foi o Cavalcante Méier, eu disse.

Até dois dias atrás você nada sabia sobre o caso, agora vem me falar com essa certeza.

Contei a ele parte do que eu sabia.

Se não foi o Cavalcante Méier, então quem foi? Não sei. Talvez traficantes de tóxicos.

Eu esmiucei a vida de Marly Moreira, não existe a menor chance dela estar envolvida com traficantes de tóxicos. E os dois foram mortos pela mesma pessoa. Seu raciocínio está totalmente furado.

Tentei defender o meu ponto de vista. Mencionei o álibi do Cavalcante Méier. Afinal o testemunho do governador não poderia ser ignorado.

São todos uns corruptos. Você vai ver, quando o governador deixar o cargo vai ser sócio do Cavalcante Méier num dos negócios dele.

Guedes, você vai quebrar a cara.

Não tem importância. O que posso perder? O meu emprego? Já cansei de ser polícia.

Acusar um inocente é calúnia, é crime.

Ele não é inocente. Eu tenho minhas provas. Os olhos de Guedes rutilavam de retidão, justiça, honradez e probidade. Você sabia que o senador Cavalcante Méier tem registrado na polícia um revólver Taurus 38, o calibre dos projéteis que causaram a morte de Marly e do Márcio?

Muita gente tem um 38 em casa. Quando é a entrevista?, perguntei. Amanhã às dez horas.
Cheguei na casa da Gávea quando a noite caía. O que foi, que cara é essa?, perguntou Eva.
Onde está seu pai?

No quarto. Ele não está se sentindo bem.

Preciso falar com ele, é importante.

Fiquei surpreso ao ver Cavalcante Méier. Seu cabelo estava em desalinho, a barba por fazer, os olhos vermelhos como se ele tivesse bebido muito ou chorado. O olhar de Jannings, professor Rath, no Anjo Azul, lutando para não sentir vergonha, surpreso com a incompreensão do mundo. Junto de Cavalcante Méier estava Lili, rosto mais pálido do que nunca, a pele parecia pintada de cal. Segurava uma bolsa na mão. Um vestido negro realçava seu belo ar fantasmagórico.

Fui eu sim, disse Cavalcante Méier. Papai!, exclamou Eva.

Cavancante Méier soava falso. Vi muitos filmes e conheço os canastrões.

Fui eu, já disse que fui eu. Diga ao seu amigo polícia que pode me prender. Fora da minha casa!

Aproximou-se de mim como se fosse me agredir. Eva segurou-o. Vai embora, por favor, vai embora, suplicou Eva.

Ao sair, Lili me acompanhou. Parou junto ao meu carro. Posso ir com você?
Pode.

Lili sentou-se ao meu lado. Dirigi lentamente pelas alamedas escuras dos jardins da casa e descemos a estrada.

Ele está mentindo, eu disse. Deve ser para proteger alguém. Talvez Eva.

O corpo de Lili começou a tremer, mas não saía um som de sua garganta. Ao passar perto de um poste de luz vi que o seu rosto estava molhado de lágrimas.

Não foi ele, não. Nem Eva, disse Lili, tão baixo que eu mal distinguia as palavras.

Então era isso. Eu já sabia a verdade, e o que isso adiantava? Existem mesmo culpados e inocentes?
Estou ouvindo, pode começar, eu disse.

Descobri que eu amava o tio Rodolfo há dois anos, não mais como um tio, ou pai, que era o que ele tinha sido para mim até então, mas como se ama um amante.

Fiquei calado. Sei quando uma pessoa começa a abrir a alma até o fundo. Somos amantes há seis meses. Ele é tudo na minha vida e eu na dele.

Foi por isso que você matou a Marly ? Sim.

Ele sabia?

Não. Só lhe contei hoje. Ele quis me proteger. Ele me ama, tanto quanto eu o amo.

Seu rosto na penumbra do carro parecia uma estátua fluorescente iluminada por uma luz negra.

Posso contar como foi. Então conte.

Meu tio me disse que estava tendo problemas com uma moça que trabalhava numa das firmas dele e com quem tivera um caso. Ela ameaçava fazer escândalo, contar tudo para minha tia. Minha tia é uma mulher muito doente, gosto dela como se fosse minha mãe.

Eu nunca a tinha visto. As famílias ricas têm segredos invioláveis, rostos secretos, cumplicidades sombrias.

Ela não sai do quarto dela, tem sempre uma enfermeira à sua cabeceira, pode morrer a qualquer instante.

Continua.

Meu tio recebeu a carta, acho que foi numa segunda-feira. Toda noite, cerca das onze horas, eu ia para o quarto dele, e saía cedo, antes que os empregados começassem a arrumar a casa. Eva sabia disso?

Sabia.

Continua, eu disse.

Naquele dia tio Rodolfo estava muito nervoso. Me mostrou a carta, disse que Marly era uma louca, que o escândalo poderia matar a tia Nora, arruiná-lo politicamente. Tio Rodolfo é um homem muito bom, não merece uma coisa dessas.

Continua, eu disse.

Tio Rodolfo me mostrou a carta dessa tal Marly e depois largou-a na mesinha de cabeceira. No dia seguinte apanhei a carta, localizei aquela mulher e telefonei para ela. Disse quem eu era e que tinha um recado do tio Rodolfo. Marcamos um encontro para depois do expediente. Escolhi um local ermo, onde às vezes tomo banho de mar. Ela chegou arrogante, disse que eu avisasse ao tio Rodolfo para não tratá-la com desprezo. Quando a velha morrer, ela ameaçou, aquele canalha vai ter de casar comigo. Eu levava na bolsa o revólver do tio Rodolfo. Dei apenas um tiro nela. Ela caiu para a frente, gemendo. Saí correndo, peguei meu carro, fui procurar o Márcio, pedir a ele que me vendesse um pouco de pó. Fiquei cheirando cocaína na casa dele, a primeira vez em mais de seis meses. Estava desesperada. Dormi e Márcio deve ter revistado a minha bolsa e retirado a carta enquanto eu dormia. Quando soube pelo tio Rodolfo que você ia se encontrar com Márcio no Gordon’s, eu me antecipei para evitar que você o encontrasse. Inventei que tio Rodolfo tinha mandado a polícia prendê-lo.

Para de chamá-lo de tio, por favor.

Eu sempre o chamei assim, não vai ser agora que vou mudar. Márcio ficou furioso e no dia seguinte foi à casa do tio Rodolfo. Você viu tudo, esta parte você conhece.

Tudo não.

Encontrei Márcio no jardim, quando ele saía. Me disse que tio Rodolfo ia pagar, mas que ele não iria devolver a carta. Marquei um encontro para comprar cocaína, disposta a acabar com ele. Márcio estava sentado numa poltrona vendo televisão, já cheio de pó, mandrix e uísque. Me aproximei e atirei na sua cabeça, não senti nada, só nojo, como se ele fosse uma barata.

Você não achou a carta. Estava no bolso do Márcio.

Procurei em todos os lugares, no bolso eu nunca iria procurar, tocar nele me repugnaria, disse Lili.

E o dinheiro?

Estava numa mala. Levei para casa. Está todo no armário do meu quarto. Parei o carro. Ela segurava a bolsa com força, as mãos trêmulas.

Me dá isso, eu disse.

Não!, ela respondeu, apertando a bolsa de encontro ao peito.

Arranquei a bolsa da sua mão. Dentro o Taurus, cano de duas polegadas, cabo de madrepérola. Os olhos dela eram um abismo sem fundo.

Deixa o revólver comigo, Lili pediu. Balancei a cabeça negativamente.

Então me leva de volta para perto do tio Rodolfo.

Tenho que encontrar o Guedes. Pega um táxi. É bom contratar logo um advogado.

Está tudo perdido, não é? Infelizmente. Para todos nós, respondi.

Coloquei-a num táxi. Saí à procura de Guedes. Pensei em Eva. Adeus minha querida, longo adeus. O grande sono. Não havia ninguém dentro do meu corpo, as minhas mãos no volante pareciam ser de outra pessoa.

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