Menino caçando passarinho – Conto de Dalton Trevisan

By | 27/11/2021

– ADVOGADO é padre, minha senhora. Pode confiar.

– Eu sei, doutor Nelson.

– Não se acanhe. Conte a verdade. Enganava seu marido, não é?

– Deus me livre!

– Nesta citação a senhora é culpada.

Dez anos casada. Um par de filhos. Seis meses atrás, uma perda. O resguardo, descansar na casa da mãe. De volta, deu com porta e janela trancadas. Na rua, recebeu a contrafé do oficial-de-justiça: desquite, alegação de adultério.

– Quem é esse João Maria, citado como cúmplice?

– Um compadre, doutor. Esse não vai contra mim.

Luto da mãe, o vestido preto colante, broche de borboleta. O marido tinha horror da sogra. Não lhe dirigiu a palavra nos três meses em que a velha se hospedou na casa, doente da bexiga. Tenha pena dela – suplicava a mulher. E você? Tem pena de mim?

Óculo escuro: olho roxo de um murro.

– Homem fraco na cama é forte fora dela.

– Como disse, doutor?

– Conte os fatos, minha senhora.

Passeio no campo, o marido, ela e as filhas. Desde que se negava, alegando mal de mulher, o bruto queria agarrá-la à traição. Atalho no bosque, mandou as crianças na frente. Derrubou-a na grama. Com os gritos, as crianças voltaram, nele batiam com a sombrinha: Não surre a minha mãe! Não afogue a minha mãe!

– Cuidar com carinho, dona Olga, de sua defesa.

Na vez seguinte: assinatura da procuração, os preâmbulos. Tão jovem, não definhava longe do marido? A separação de corpos, morando com o pai

– A senhora anda nervosa?

– Nem queira saber, doutor.

– E antes de casar?

– Era bem calma. Agora sofro dos nervos – às vezes tenho ataque! Ai, que beleza: ela tem ataque.

– A senhora… delirava, dona Olga? Olhinho baixo: Sim.

– Um bem que Deus lhe concedeu. Sabe, o delírio, o que há de maravilhoso. A mulher tem convulsão, dona Olga.

– É fato científico. Não se acanhe. Advogado em serviço não tem sexo.

– Eu sei, doutor.

– Aqui no escritório muita interrupção. Levo os papéis a um lugar sossegado. No hotel da estação, está bem?

– Sim.

Esperou de quinze para as quatro até quatro e meia – assustei a pombinha, essa não volta mais.

– Dona Olga. Por que não foi?

– Eu fui. O doutor não estava mais. Negaceava, a bichinha, sem dizer que não. No escritório, após o expediente, discutir a pensão do marido para os filhos. Seis em ponto, Olga entrou na sala de espera. O herói fechou a porta e investiu.

– O doutor era um ídolo. Pensa que mulher separada não é honesta?

– Um beijinho só.

– Olhe que eu grito.

Picaria – só um pouco – se abrisse a porta. Ligeiro beijo roubado, a que não correspondeu.

– Prometo me comportar.

Com a porta aberta – imagine se alguém! – insistiu no assalto. Passos na escada, o elevador ora subia, ora descia. Sentados no sofá, a bela concedeu- lhe a mãozinha, que cobriu de beijos inflamados.

– Olhe que eu saio.

Ia sentar-se na outra cadeira. Ele arrastava-a para o sofá. Luta silenciosa e feroz: os dedos arranhados pela unha afiada. Despedida cerimoniosa na porta:

– Passe bem, doutor.

– Os seus problemas eu resolvo. A senhora tenha confiança. Surgiu-lhe o marido uma tarde no escritório:

– Mais algum papel para assinar, doutor?

– Era só.

– Desconfio dela, doutor. Falam muito. Anda enfeitada demais.

– É moça direitinha. O senhor tem prova? Sabe de fato concreto?

– Fato, não sei, doutor. Desconfiança a gente sempre tem. A mulher capricha na roupa de baixo, que o homem se cuide.

Saia preta e blusa branca de rendinha, braço à mostra – uma cicatriz de vacina meio escondida. A moça lia a petição, o doutor lhe afagava o bracinho. A fingir que lia, o rosto abrasado de excitação.

– Vamos lá?

– Lá não dá, doutor. Lá não dá certo. Que o senhor quer de mim? O homem só faz as coisas por interesse. É esse o preço do homem!

Afogueada, a penugem do braço arrepiadinha. Ele não se conteve: alisou- o de alto a baixo com as duas mãos.

O doutor era influente – não sabia de uma vaga de professora?

– Já se considere nomeada, dona Olga.

À saída, ela fez biquinho com o lábio e, estando de salto alto, forçado a se pôr na pontinha do pé.

– Se der, eu vou. Não sei se posso. Eu não devo.

– Então às cinco?

Choveu bem na hora. Esbarrou no pai dela, o velho farmacêutico.

– Eu mando ela sem falta. O doutor pode confiar. Olga reagiu, que ele cambaleou de costas.

– Não adianta. Eu não quero.

– Então tudo acabou. O caso foi processado. Quer ir para casa, vá – e arquejava, de fôlego curto.

Entre os artigos de lei, a se lembrar do bracinho arrepiado, o olho amarelo de quem sofre do fígado – eu tenho ataque, doutor! Recado urgente pelo farmacêutico que ela o esperasse em casa, às duas da tarde.

Bateu palmas na porta dos fundos. Olga assomou à janela.

– Entre, que já desço.

Abriu a porta: estaria o diabo do velho? À espreita, quem sabe, atrás da cortina? Ela desceu a escada, repuxando a saia no joelho. O vestido caseiro, em chinelinho.

Imediatamente a agarrou aos beijos e abraços.

– Louco por você.

Abatida, sem pintura, de olheira – ai, mãe do céu, de olheira! Que dizia ela? Não mais que balbucios:

– Sim, doutor – e revirava o olho. – Ai, doutor.

Sempre a resguardar-se das três mãos. Uma hora inteira de beijos – o dentinho perfumado.

– Sossegue. Papai entra de repente. O senhor é doido?

Iniciação ao beijo de língua. O vestido afogado no colo, ele não podia espirrar o seio. Mordiscava a ponta da orelha.

– Sabia o que eu queria?

– Sim.

– Desde quando?

– Desde a primeira vez. Da conversa que advogado é padre.

– Ai, Olga. Me beije.

– Aqui não dá. Se papai chega?

– As crianças?

– Mandei no vizinho.

– Deixe. Mais um pouco. Só um pouco.

– Onde já se viu? É loucura.

– Conhece a minha posição. Sou casado. Houvesse risco, o primeiro a não querer.

À roda da casa, fingia coçar o nariz, com a mão no rosto. Na hora combinada, surgiu pressurosa e tossindo, lencinho na boca.

Deu volta à chave. Ela caiu-lhe nos braços, toda trêmula. Nem falar podia, tão assustada. Desabotoava o casaquinho – cuidado, querido, o pregador! Ele arrancou a gravata. Aos cochichos – já era hábito. Bem o marido tinha razão: a maravilhosa roupa de baixo – sedas e rendas! Aos beijos, de pé. Aos beijos, sentados no sofá. Deitados no tapete, rolando.

– Quer que morda ou beije?

– Sim.

– Beije ou morda?

– Sim. Ai, sim. Ai, sim.

– Abra o olho.

– Gema comigo, anjo. Agora.

O herói gemeu. Ela o acompanhou em tom mais baixo.

– Ai, ai. Eu morro.

Estirada no tapete, bem quieta, a combinação azul acima do joelho.

Ele abotoou o paletó, acendeu cigarro. A bela mordia um grampo, a observá-lo no espelho:

– Mais uma para tua coleção?

– Você é a única.

Foi introduzir uma nota na bolsa.

– Não sou dessas.

Esperou-a no portão dos fundos. No quintal vizinho, um menino caçava, atiradeira em punho e olhar perdido. Gente na rua: a negra velha, um soldado discutia com o barbeiro.

Saltinhos saltitando na pedra, ele tossiu três vezes.

– Que imprudência!

De saia xadrez, blusa de lã. Fechada a porta, dela o primeiro beijo:

– Obrigada, meu amor. Pode o que quiser. Agradecida pela nomeação, despiu-se a toda pressa. Ele, em cueca e meia preta:

– Fique nua.

O seio róseo empinadinho. Já ritual:

– Morda ou beije?

– Sim – a mania de repetir sim, sim. Como é que um bruto desprezava dona tão querida?

Suspiros e, ao apertá-lo nos braços, o cheiro capitoso de égua trêmula.

– Se não corro me atrasava. Bem louca. Você me deixou assim.

– Com o João não fazia… isso?

– Credo! Isso nunca aconteceu.

O herói beliscava o biquinho do seio inchado.

– Teu marido como é?

Um apressado, procurava-a sem aviso; em seguida dava-lhe as costas.

Não ficasse mal acostumada – um trapo sujo atirado no canto.

– Tem me seguido. Não é arriscado vir aqui? Estou com medo.

– Me beije. Não fale.

– Vai enjoar de mim? O homem consegue o que quer. Depois corre atrás de outra.

– Me beije. Ai, Olga. Não fale. Abra o olho. Grande olho amarelo agora bem vermelho. Acuda, Olguinha, me deu ataque.

– Fique de olho aberto.

À saída, assustou-se com o menino trepado na ameixeira.

– Tem gente aí.

– Boba. É um menino.

– Se ele me vê?

Menino caçando passarinho é cego para o que não for passarinho.

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