No espaço, sim, mas não perdido – Crônica de Moacyr Scliar

By | 01/06/2022

“Chega aos cinemas Perdidos no Espaço.”
Ilustrada, 2 jul. 1998

A nave espacial já tinha vencido a zona de gravidade da Terra e aproximava-se da Lua, quando de repente o comandante arregalou os olhos: à frente deles, em pleno espaço, estava um homem.

Vestia um improvisado traje de astronauta, confeccionado com retalhos plásticos e um capacete feito de um velho aquário. Ali estava, sorridente, como se esperasse pela espaçonave.

O comandante mandou parar, e o estranho astronauta aproximou-se.

– Quer que limpe o para-brisa? – perguntou, num inglês de estranho sotaque. – Ou quer que lave toda a nave? Se quiser, pode deixar comigo. Se quiser estacionar, eu cuido também.

– Mas de onde você é? – perguntou o comandante, assombrado.

– Sou brasileiro – foi a resposta. – Faz pouco tempo que cheguei. E estou gostando muito, para dizer a verdade.

– E o que é que você faz aqui?

– De tudo um pouco, lavo espaçonaves, como lhe disse, limpo para-brisas. E tenho umas coisinhas para vender, pilhas, cassetes, fones de ouvido… Essas coisas do
Paraguai, o senhor sabe. Numa viagem sempre podem ser necessárias.

A tripulação toda estava boquiaberta.

– Vocês querem saber como vim parar aqui – continuou o brasileiro. – Bem, não foi por vontade própria. Até há um mês atrás, eu estava empregado numa fábrica. Bom emprego, eu ganhava bem. Aí veio a crise. Um dia eu cheguei à fábrica e o gerente me disse: “Sinto muito. Seu emprego foi para o espaço”. Já pensou? Foi pro espaço.

Sorriu.

– Agora: eu não sou de desistir. Acho que a gente tem de correr atrás de emprego, de qualquer emprego. Se o emprego vai pro espaço – eu vou junto. É por isto que estou aqui. Não estou perdido, não. Estou lutando pela vida. O senhor não teria umas moedinhas sobrando?

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