O Álbum – Mario Quintana

By | 06/05/2022

Todos os anos, a 31 de dezembro, a família se reunia para contar os sobreviventes e fazer o cômputo dos recém-nascidos. Pois bem, naquele ano morrera o Tio Hipólito, meio gira, mas divertido, e que tinha o apelido de “Que barulho é esse na escada?”, frase que a toda hora berrava do alto do sótão onde morava e onde recortava meticulosamente, a tesoura, de revistas e jornais velhos, figurinhas, estampas e textos, num álbum que não mostrava a ninguém neste mundo, nem no outro, se para lá o pudesse levar. Afinal, para que possuirmos álbuns ou colecionarmos coisas, se depois hão de cair nas mãos de herdeiros ignaros e irreverentes, que as venderão por atacado ou as relegarão para a ignomínia dos porões escuros, onde ficarão mofando como trastes… essas queridas coisas para sempre impregnadas da nossa alma e do nosso carinho?

Pois foi a alma de Tio Hipólito que seus sobrinhos dilaceraram literalmente naquele ano, ao deparar entre guinchos irreprimíveis, logo à primeira página do livro secreto, com o belo retrato do Vovô Humphreys, o da homeopatia, seguindo-se-lhe a curiosa radiografia de uma mão atravessada por uma agulha e mais um recorte com a seguinte trova portuguesa:

“Quando eu era rapariga,
Minha mãe recomendou:
Minha filha, não te cases,
Que tua mãe nunca casou.”

Embora não fosse eu da família, mas simplesmente acompadrado nela, deram-me o álbum para folhear, o que fiz com a maior seriedade e respeito. Aliás, não podia deixar de admirar o senso artístico com que estavam distribuídos os textos e figuras em cada página. Só estranhei um pouco é que os sonetos do festejado poeta Hermes Fontes aparecessem apenas pela metade e além disso cortados em diagonal — compreendem? — formando um triângulo retângulo no canto inferior direito da página, como que a deter a hábil desordem com que nela se derramavam, digamos, as estampas do “Minas Gerais”, do busto de Alexandre Herculano, das quatro mulheres vocalizantes anunciando, sílaba a sílaba, a Lu-go-li-na, e assim por diante.

Outra coisa que me causou espécie foi que, da “minha” Vênus de Botticelli, apareceu-me unicamente a cabeça decapitada, com aquela cabeleira espantosamente viva e oval angélico de seu rosto inclinado.

Fiquei triste, porque o Nascimento de Vênus é dessas coisas que sempre me fizeram bem aos olhos e portanto à alma. Em compensação, mais adiante, encontrei-lhe o busto e os seios, embaixo da gravura da Primeira Locomotiva. Não pude mais: pus-me a folhear aflitamente o álbum, como quem procura desesperadamente os restos da bem-amada estraçalhada no mais pavoroso desastre do século.

Encontrei-lhe os pés brotando, muito alvos, da larga concha marinha, a qual se equilibrava milagrosamente em cima da calva de um tal de sr. João P. de Souza Filho, natural de Cataguases, antes de usar Tricomicina. Na página 27 encontrei a suave curva dos quadris, o ventre… Estava enquadrada entre duas colunas com os sucessivos instantâneos da queda de um gato, animal que, como se sabe, sempre cai de pé. Eu é que quase caí sentado quando, depois de percorrido todo o álbum, achados os braços, as mãos, os “joelhos sem joelheiras”, o resto, só não pude encontrar o baixo-ventre…

Fiquei horrorizado como quando Jack, o Estripador, andava às soltas em

Londres; indaguei, pálido:

— Esse Tio Hipólito era mesmo um homem muito solitário, não?

— Sim — cacarejou, com um súbito rancor na voz esganiçada, uma das três sobrinhas solteironas —, comia no quarto e não gostava de barulho, especialmente de cacarejo de galinhas. Por sinal que uma madrugada quase que o mano Juca matou ele. Ouviu barulho no fundo do quintal, pensou que fosse ladrão, pegou do revólver e se tocou de mansinho pro galinheiro, mas graças a Deus a noite estava clara e ele viu a tempo que era o Tio Hipólito segurando uma galinha (já tinha pegado três) e enrolando esparadrapo no bico do animal, para que não cantasse mais. O mano Juca se retirou como chegara, sem ser suspeitado, e ficou acordado até o clarear do dia, pensando no que devia fazer. E nós também, escutando os protestos dos pobres animais que pouco a pouco se foram calando um a um e que amanheceram todos mortos por sufocação. E só o que pudemos fazer no outro dia foi uma canja de uma das galinhas e mandar as outras onze e o galo preto para a festa de Natal do Asilo Padre Cacique… O senhor não leu no jornal? “Generoso gesto das irmãs Fagundes. Um nobre exemplo a imitar.” Até recortamos. Aqui está.

E tirou da bolsa o recorte.

Tive vontade de dizer que o colasse no álbum do Tio Hipólito, o qual fora parar não sei como nas mãos de um guri da nova safra, que o estava folheando. Sim, folheando atentamente, e sem rasgar, como seria de esperar de um pimpolho de onze meses e pico!

— Como se chama o garoto? — perguntei, para mudar de assunto.

— Ah! este é o Filho do Livro! — respondeu a mãe da criança, que aliás era uma linda mãezinha dos seus vinte anos.

— O Filho do Livro! — disse eu, atônito, para maior divertimento da gozada mãezinha e do paizinho da criança, um sujeitinho seco e de fala fina.

— O senhor sabe… — explicou ele. — A crise… a incertidão da vida… A gente não queria ter filho já… Compramos o Método racional da limitação de filhos… Imagine, um método recomendado até pelo Papa! Seguimos tudo à risca… e nasceu este guri.

Tive vontade de dizer-lhes que eles com certeza é que não tinham tomado direito certas anotações, como o livro mandava. Mas não disse nada e fiquei olhando o guri, que por sua vez continuava olhando o livro… Hururum! O que sairia dali? Um grande escritor, pelo visto? Ou um novo Tio Hipólito? Tive vontade de dizer muitas coisas que o assunto comportava. Mas não disse nada. Há muito que a vida me ensinou a não dizer nada. Agachei-me no chão e fiquei olhando o álbum junto com o Filho do Livro, ambos muito atentos, muito calados, muito impressionados, cada qual à sua maneira.

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