O castigo – Conto de Nelson Rodrigues

By | 30/05/2022

Estava ruim de saúde. Queixava-se de excitações, vertigens e dores de cabeça e uma série de outros sintomas desagradáveis. Os amigos, os parentes e até o patrão aconselharam:

– Você precisa se tratar. Por que não vai ao médico?

Ele acabou indo, de carona. O doutor fez todos os exames possíveis e imagináveis. No fim, concluiu:

– O negócio é o seguinte: faz um exame de sangue. Teu mal é sífilis, rapaz. Tens sífilis até na alma.

Ora, como todo cliente carona, era mal-agradecido. Saiu dali esbravejante: “Mas que zebu! Que animal! De qualquer maneira, como continuasse nervoso, com angústias misteriosas, armou-se de paciência, fez o tal exame e voltou com o resultado, ao médico. Este passou a vista e exultou:

– Não te disse? Batata! Teu sangue é um cemitério, rapaz! Ele empalideceu:

– No duro?

– Claro! Olha só. Viste?

– De amargar!

E o médico, subitamente grave:

– Você vai ter que se tratar, direitinho. Vai tomar essas injeções todas. Tem quem aplique?

– Só vendo.

O médico explodiu:

– Só vendo, uma ova! Estou falando sério. Olha que você acaba no hospício!

O maluco

O fato é que o médico dramatizou tanto que Odésio saiu, de lá, impressionado. Não tinha dinheiro; foi ao patrão, que era um santo homem, mostrar a receita. O patrão não teve dúvidas:

– Passa no caixa e faz um vale. E, querendo, fica em casa uns dias. Com a saúde não se brinca.
Levou Odésio até a porta do gabinete; repetiu:

– Em primeiro lugar, a saúde.

Do escritório, Odésio rumou, amargurado, para a primeira drogaria. Enquanto era servido, pôs-se a pensar: “Todo mundo tem sífilis e ninguém se trata. Estão me fazendo de palhaço.” Pagou a conta, apanhou o embrulho e saiu. Mas ia resmungando, interiormente: “Esse negócio de injeção é muito chato.” Sem querer, começou a reexaminar a hipótese de loucura, com que o doutor o ameaçara. Achou, na situação, uma graça triste: “Imagine eu, maluco, rasgando dinheiro.” Então, não tendo para onde ir, pensou numa visita à casa de Abelardo. Àquela hora, a mulher do amigo estaria sozinha. Odésio coçou a cabeça, temeroso de uma inconveniência. Mas como se sentia, para todas os efeitos, doente, e grave, decidiu-se: “Vou lá, sim.” Tomou um lotação e, no caminho, já achava um alto negócio uma doença que permitia aquela visita à Laurinha, na ausência do marido. Lembrou-se da última vez em que a vira. Suspirou no lotação: “A besta do Abelardo não sabe a mulher que tem!”

Laurinha

Sempre que via Laurinha tomava um choque. Na sua ilusão de apaixonado, tinha a ideia de que de dez em dez minutos ela ficava mais bonita. Pareceu espantada, ao vê-lo, àquela hora; mas fez o convite formal:

– Entre, entre!

Ele foi entrando, perturbadíssimo. Laurinha, que fizera na cabeça uma espécie de turbante, explicou:

– Acabei de tomar banho e lavei a cabeça. Mas sente-se. Então, como vamos? Odésio desabou na primeira poltrona. Exagerou:

– Vou muito mal, muito mal.

– Por quê? E ele:

– A pior saúde do Brasil é a minha. Vim do médico, agorinha mesmo. Está vendo esse negócio aqui?

– Remédio?

– Pois é. O médico disse que ou eu me trato ou acabo no hospício.

– Nem brinca!

– Sério!

E ela, que tinha uma pequena toalha nas costas, por causa dos cabelos molhados, animou-o:

– Qual o quê! Os médicos exageram muito!

Vendo aquela moça tão linda e próxima, cheirosa do banho recente, ele fez uma reflexão, que, de momento, parecia uma blague:

– Sabe que, às vezes, o maluco tem suas vantagens?

– Deus me livre!

Odésio insistiu na pilhéria:

– Claro! A loucura pode ser um alto negócio! O louco é o sujeito mais livre do mundo. Pode fazer o diabo, sem dar satisfações a ninguém. Está acima da justiça de Deus e dos homens. Um negocião!

Laurinha ria:

– Que horror! E ele:

– Mas é ou não é? No duro que é! Queres ver uma coisa? — baixou a voz sem a desfitar: — se eu fosse louco, sabe o que podia fazer agorinha, neste momento? Segurar você, beijá-la e… Compreende? E seríamos ambos inocentes…

Durante alguns momentos, olharam-se apenas. Laurinha surpresa e com um certo mal-estar. Ele já não aceitava a própria blague como tal; rompia das profundezas do seu ser, o desejo, o sonho de enlouquecer. Laurinha balbuciou: “Não brinca assim, que Deus te castiga!”

E, então, diante da pequena atônita, ele teve um gesto espetacular e desagradável. Rápido, apanhou o embrulho de injeções em cima da mesa e o atirou pela janela. Laurinha exclamou: “Que bobagem!” Já de saída, ele explodiu:

– Não vou me tratar coisa nenhuma. Quero ver como se fica louco. Até logo, Laurinha.

O sono

Pouco depois, a pequena, sozinha, enxugando os cabelos fazia o comentário interior: “Esse Odésio é uma bola!” E não pensou mais nele. A partir de então, a vida do rapaz mudou por completo. Todas as manhãs, já sabe: acordava com uma dor de cabeça medonha. Pediu licença no emprego, sua existência passou a ser uma vadiagem confortabilíssima. Nada o fascinava mais do que a ideia de se subtrair das justiças humana e divina através da loucura. A perspectiva da impunidade absoluta o deslumbrava: “Vou poder fazer tudo, tudinho!” Ele próprio já não sabia o que era falso e autêntico nos seus gestos e palavras. Fazia sucesso, no café, com os amigos, ao anunciar a um e outro: “Vou ficar maluco.” Esfregava as mãos vitorioso:

– Sífilis, rapaz! No último grau!

A princípio achavam graça. Ele, então, argumentava! Tornava-se exaltado e polêmico. Seu raciocínio impressionava os pobres rapazes, jogadores de sinuca, torcedores de futebol, ou, ainda, sujeitos que viviam sonhando com corrida de cavalos: “Vocês são uns bestalhões! Não podem fazer nada, têm medo de tudo! Eu posso! Por exemplo: eu gosto de uma boa. E qualquer dia, vocês vão ler meu nome nos jornais!”

Apaixonado

Os amigos mais sensatos ponderavam: “Acaba com isso. Estás bancando o palhaço!” Ele replicava: “Pois sim!” As dores de cabeça não o largavam mais. Encharcava-se de comprimidos. No café, tomando guaraná, parecia envaidecido da própria astúcia: “Foi uma ideia genial, que eu tive!” Um mês depois, foi bater na casa de Abelardo, numa hora em que ele não podia estar. Quem atendeu de quimono, chinelinhas de arminho, foi a própria Laurinha. Assim que o reconheceu, fez a pergunta alegremente:

– Já ficou maluco?

E ele, no mesmo tom:

– Já.

Ela suspirou:

– Você é um número, Fulano! Uma bola! Amarrou a cara:

– Acha?

– Então, não é?

Foi essa euforia irresponsável que a perdeu. Ele se irritou de vê-la tão linda e frívola, quase ordinária. Ergueu-se apertou entre as mãos o rosto da moça e a beijou, várias vezes, na boca. Laurinha, branda, balbuciou: “Que é isso? Não faça isso!” E ele, num surdo sofrimento: “Enlouqueci… Estou louco…” Queria dizer que uma mulher pode beijar um louco sem pecar. Aquilo era tão inesperado e brutal que a moça já começava a experimentar uma certa volutuosidade. Súbito, as mãos de Odésio desceram e se fecharam sobre aquele pescoço de mulher. Teve uma sensação muito remota de que a estrangulava. Viu como Laurinha se tornava feia, roxa, os olhos brancos, umas bochechas de máscara de carnaval. Uma das chinelinhas estava tombada, outra mais adiante e os dois pés, livres e nus, apareciam com pequenas veias em relevo. Pronto. Ela estava morta a seus pés. Então, gritou. Foi preso, arrastado, e houve quem lhe cuspisse na cara. Mas ele estava numa calma apavorante. Frio. Essa impossibilidade de sofrer foi seu castigo.

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