O chantagista – Conto de Nelson Rodrigues

By | 26/05/2022

A futura sogra, que era professora e tinha um gênio adorável, dizia sempre:

– O essencial no casamento é a compreensão. E insistia, acima de tudo, num ponto que lhe parecia essencial:

– Nada de discussões! Nada de bate-bocas!

Fernando ouvia tudinho e, mais tarde, com os amigos, dava demonstrações do maior entusiasmo: “Tenho uma sogra que é a minha segunda mãe!” Os amigos ficavam impressionados. Uns, meio céticos, perguntavam: “No duro?” Fernando confirmava, com uma ênfase irresistível:

– Palavra de honra! E quero ser mico de circo se for mentira!

De fato, d. Zuleica exercia, naquele namoro, uma influência das mais estimáveis. Como sua ascendência era grande sobre a filha e sobre o genro (futuro genro), eles não faziam nada sem consultá-la antes. A sós com a filha dizia-lhe: “Certas intimidades, não! E nada de beijo de língua!” Mesmo na sua ausência, Dolores ponderava:

– Mamãe acha que isso não está direito, etc., etc.

Então, Fernando submetia-se, com impressionante instantaneidade. Assim, sob o signo de uma sogra cordial, solidária e clarividente, os dois namoraram seis meses sem um atrito, sem um ciúme, sem uma irritação, noivaram um ano com o mesmo ar idílico e, finalmente, casaram-se. Quando os dois partiram, de táxi, para um hotel de montanha, d. Zuleica voltou para o interior da própria residência. Sentou-se e fez, com certa melancolia, a seguinte reflexão:
– Agora posso morrer!

O casal

Era uma ilusão da admirável senhora. Na verdade, ela não podia morrer. A filha estava casada, é certo, mas tanto ela, como o marido, precisavam da solicitude, da assistência contínua e desvelada daquela mãe e sogra. Um e outro não possuíam, de si, nada; sem nenhuma experiência de vida, pareciam não ter nenhum sentimento, nenhuma ideia própria. E quando d. Zuleica, acometida de um edema pulmonar fulminante, entregou a alma ao Criador, eles se entreolharam, em pânico. Era como se fizessem a pergunta recíproca e irrespondível: “E agora?” D. Zuleica fora, nas suas vidas, mal comparando, um dicionário vivo, que os elucidava diariamente sobre o sentido das coisas. Como pensar, como sentir, como agir, se a benquista senhora lhes faltava, e para sempre? Voltando do cemitério, Fernandinho suspirou:

– Minha filha, estamos fritos! Não sei o que vai ser de nós!

A menina, imaginativa e romântica, pensava que, naquele momento, a mãe e o pai deviam estar, no céu, de mãos dadas, morando talvez num estrela da tarde. Tendo enviuvado há cinco anos atrás, d. Zuleica vivia na saudade infinda do marido. Para ela, ninguém mais nobre, mais enfeitado de virtudes, do que o falecido Clementino. Tanto que, ao mandar levantar o mausoléu, que custara um dinheirão, ela fizera o epitáfio em versos, gravados em letras de bronze. E, agora, após uma separação de cinco anos, estavam os dois unidos, outra vez, sendo que os corpos na terra e as almas no céu. Ao entrar em casa, Fernandinho fez o comentário filosófico para a mulher:

– Essa vida é uma boa droga!

As cartas

D. Zuleica foi enterrada numa quinta-feira. No sábado, pela manhã, Fernandinho, depois de vencer vários e naturais escrúpulos, arrisca:

– Minha filha, acho que vou dar um pulinho no Estádio.

Ela, quase, quase exprobou-lhe o procedimento. Na verdade, seu coração de filha recebeu um impacto duro. Achava que uma grande dor não comporta nenhuma distração, inclusive o futebol. Mas se conteve, e explicou por quê. Aquela casa ainda estava ressoante dos conselhos, pontos de vista e critérios da pranteada Zuleica. A santa senhora vivia dizendo: “não briguem”, “não discutam”, “discussão só traz aborrecimento”, etc., etc. Deixou de fazer as objeções cabíveis, tanto mais que o marido estava cada vez mais interessado no jogo, que era um reles Flamengo x Madureira. Só na saída é que ela se permitiu a insinuação:

– Mamãe foi enterrada na quinta-feira e você já vai ao futebol!

– Mas, filhinha, futebol é a coisa mais inocente do mundo! Te juro que não há mal nenhum!

Dolores, no seu luto fechado e com a compreensível falta de pintura, ficou, no portão, esperando que o marido dobrasse a esquina. Só quando ele desapareceu é que ela, tomando um susto, reparou que, defronte, um rapaz, seu vizinho, antigo ex- pretendente, a devorava com os olhos. Vermelhíssima, sem ter de que, entrou. Solitária, na casa triste, ela pensou em d. Zuleica e, em seguida, sem querer e sem sentir, no vizinho que a olhara de uma maneira tão intensa, quase imoral. Chamava-se Alfredinho e há três anos atrás, depois de um flerte efêmero, tinham brigado, porque ele era um ciumento atroz. D. Zuleica interviera, com sua autoridade macia, quase imperceptível: “Não serve pra ti.” Deixaram-se de falar, mas Alfredinho, no dia em que ela se casara, comparecera à igreja. Quando a noiva passara, por entre lírios, a caminho do altar, ele, no meio da multidão, a olhava com um olhar de fogo. Ainda agora, ao pensar nele, experimentava um arrepio de medo. Então, sentindo mais do que nunca a ausência materna, encaminhou-se para o quarto de d. Zuleica, em que não entrara desde a morte da boa senhora. E foi para ela um tristíssimo consolo respirar entre as coisas da morta, entre seus livros, joias e gavetas. Abriu o guarda-roupa para ver os vestidos, as combinações. Com os olhos marejados, foi examinando uma coisa e outra, até que, no fundo, bem no fundo, de um gavetão, encontrou um pequeno cofre, que não conhecia. Abriu, numa espécie de deslumbramento, e descobriu um maço de cartas, amarrado numa fita de seda azul. Desfez o nó e, com medo, foi lendo a primeira. Começava assim: “Osvaldo.” Fez, em voz alta, a reflexão:

– Mas, papai se chamava Clementino!

Durante meia hora, quarenta minutos, leu uma carta atrás da outra. Uma delas dizia: “Sei que teu marido está doente, mas não posso passar sem ti… Nosso filho te espera… Amanhã, sem falta…” Uma outra tinha o seguinte trecho: “Fiz os versos para o túmulo do teu marido. Um milhão de beijos.” Atônita, lia e relia, já sem noção do tempo e do lugar. Eram frases claríssimas, que, entretanto, ela não compreendia. Tudo aquilo dançava no seu cérebro e houve um momento em que, numa tremenda confusão mental, julgou enlouquecer. Dir-se-ia que estava repassando um texto grego, chinês ou esquimó. Repetia para si mesma: “É mentira! Não pode ser!” Pensava no pai tão miseravelmente traído. E estava tão imersa na leitura que não percebeu a chegada do marido. De volta do jogo, ele chegara até o quarto e vira a esposa absorta, com as cartas espalhadas no colo. Fez a pergunta:

– Que negócio é esse?

A ideia luminosa

Apanhada de surpresa, ela não teve cabeça nem tempo para esconder ou destruir aquilo. E o marido, curiosíssimo, apanhava rápido, uma das cartas e a lia, de fio a pavio, assombrado e com exclamações:

– Papagaio!

Conhecido o texto de uma, adquiriu como que o direito de ler o resto. Durante uma hora, ao lado da mulher, que já chorava, tomou conhecimento daquela correspondência amorosa. Certos trechos o faziam murmurar: “Carambolas!” Quando soube que fora o amante o autor dos versos para o túmulo do marido, berrou:

– Essa é de arder! É a maior!

Por fim, uma curiosidade o ralava: quem seria aquele fabulosíssimo Osvaldo? Interrogou a mulher. Esta quebrava a cabeça havia meia hora. Das relações da família, não havia nenhum Osvaldo; ou, por outra, havia um, sim, que aparecia muito raramente. Fernandinho fez a pergunta:

– Bem-apanhado? Bonitão? E ela, no esforço evocativo:

– Mais ou menos.

– Então é esse! Aposto minha cabeça!

Foi, então, que ocorreu a Dolores o sobrenome: Osvaldo Palhares. Fernandinho deu um tapa na própria testa, excitadíssimo. Andando de um lado para outro, frenético, dizia:

– É um milionário! Um sujeito cheio da erva! Tem prédios, avenidas, o diabo! E te digo mais: tua mãe não soube aproveitar direito, não tirou partido! Podia ter feito a independência!

Mas Dolores, fechada na sua dor, na sua desilusão absoluta, não ouvia as palavras do marido. Ergueu-se, lentamente, desfigurada; dominava-a uma obsessão:

– Fernandinho, precisamos rasgar tudo isso! Precisamos queimar essas cartas!

Era justo, já que essas cartas significavam um documento vergonhoso. O marido, porém, arremessou-se; de cócoras, catando os envelopes e papéis espalhados, protestou:

– Rasgar, uma ova! Destruir por que, ora essa? Não, senhora! Vai por mim, meu anjo! Vai no meu golpe!

Como a mulher, estupefata, não entendesse, explicou, parcialmente:

– Tive uma ideia genial! Luminosa! Depois te digo!

O assalto

Primeiro, amadureceu o plano e só depois contou à mulher: o tal Osvaldo era um figurão importantíssimo e circunspecto, casado, com filhas moças, etc., etc. Quando soubesse que ele, Fernandinho, tinha aqueles documentos tenebrosos, ia cair das nuvens:

– Te juro que me arranja um emprego. Ah! Dolores, Dolores! Tua mãe foi uma trouxa, não soube aproveitar!

A mulher, a princípio, teve a dúvida: seria direito? Correto? Ele, cruel, a emudeceu, com a contrapergunta: o que d. Zuleica fizera era direito? Era correto? Exultou:

– Vou tomar o dinheiro dele, em bruto! Vou tirar o pé da lama!

Dir-se-ia que a avidez súbita, a ideia fixa do dinheiro o transformava, inclusive fisicamente. Parecia ter outra cara, outros olhos, outras mãos. Numa espécie de histeria, exagerava ao máximo:

– Ninguém presta! Ninguém é direito! E outra coisa: o emprego só não basta!

Quero dinheiro vivo!

No dia seguinte, falou, pelo telefone, com o milionário. Apresentou-se como o “genro de d. Zuleica” e anunciou que possuía “cartas comprometedoras”, etc., etc. Marcaram um encontro no escritório do magnata. Este, durante a entrevista, foi de uma exemplar compostura; disse apenas:

– O marido dessa senhora sabia de tudo e me explorava. Agora chegou a vez do genro.

Convencionaram uma quantia. Na saída, o milionário concluiu:

– Tome nota: sua mulher o trairá.

No caminho do escritório para casa, aquilo não lhe saiu da cabeça. Súbito, extinguiu-se na sua alma a alegria do dinheiro. Voltou do portão e foi, de bar em bar, embriagando-se. Chegou, em casa, trocando as pernas, passada a meia-noite. Durante meia hora, com os olhos turvos, assistiu ao sono da esposa. Depois, apoiando-se ora numa parede ora noutra foi à cozinha: ferveu uma chaleira. Dez minutos depois, a vizinhança toda acordava com os gritos. Fernando despejara água fervendo no rosto da mulher adormecida.

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