O crime do Storkwinkel – Crônica de João Ubaldo Ribeiro

By | 12/05/2022

Não sei quanto aos alemães, mas todo brasileiro tem medo da polícia. Muita gente que é furtada não procura a polícia. A principal razão é que não adianta, pois a polícia brasileira, de modo geral, não resolve nada. (Ninguém resolve nada no Brasil, pensando bem; antigamente, resolvíamos no futebol, mas nem isso mais.) A outra razão é que todo mundo tem medo da polícia e suspeita que, se for lá dar queixa, ela pode se aborrecer e, quando ela se aborrece, o melhor é estar a uma distância segura.

No meu caso, há razões ainda mais fortes. Quando estudante, andei fazendo protestos e a polícia se sentia ofendida, manifestando sua mágoa por meio de cachorros, gás, cassetetes, cachações e outros meios de diálogo. Quando jornalista militante, a polícia também se chateava com comentários que considerava injustos para com o regime e me dava telefonemas preocupados, sugerindo que talvez fosse melhor para minha saúde que eu, em vez de política, escolhesse como tema a criação de galinhas, ou um campeonato de bridge. Como escritor, tampouco fiz sucesso com a polícia, se bem que hoje vivemos tempos bem mais brandos. Nos tempos não tão brandos, a crítica literária da polícia era severa e sou obrigado a confessar que prefiro a New York Times Book Review. Bem verdade que sempre estive em boa companhia. Recordo um policial que, diante de uma encenação de Antígona, repreendeu a todos com energia, mas benevolentemente. Compreendia que estivessem montando tal porcaria contra o regime, afinal eram jovens desorientados, levados ao pecado pelas ideologias malsãs e pela incúria dos mais velhos, que, em vez de cuidar de nossa educação física e moral, nos expunham àquele lixo mal-escrito. Sim, não tinham culpa os jovens, ele os perdoaria, embora, é claro, não permitisse a encenação. Mas — como é o nome desse sujeito que escreveu a peça? — ah, sim, esse tal Sófocles ele não perdoaria, esse iria em cana de qualquer jeito. Lembro que, na ocasião, fiquei meio aborrecido porque não fui preso e perdi a chance de ser companheiro de cela de Sófocles.

Se essa história parece exagero, lembro que, certa feita, a polícia proibiu que o Balé Bolshoi se apresentasse na tevê brasileira, temendo nossa bolcheviquização, a cada vez que um russo fizesse ha-ha-ha-ha com uma espada entre os dentes e desse um daqueles pulos de pernas abertas. A possibilidade de que os brasileiros passassem a andar com uma espada entre os dentes, fazendo ha-ha-ha-ha e dando pulos de dez metros, era certamente alarmante. O catálogo é infindável e o fato é que eu tenho medo de polícia e costumo atravessar para o outro lado do Ku’damm, quando chego perto da delegacia aqui do bairro.

Mas destino é destino e estou eu ainda mal-acordado, por volta das oito horas da manhã, aqui em Berlim, quando toca a campainha, vou abrir e quase morro de susto. Dois cavalheiros sisudos me dizem “guten Tag”, exibem distintivos e anunciam: “Kriminalpolizei!” Só não morri por razões genéticas — na minha família não há cardíacos e morrer de velho é uma questão de honra entre nós, mas meu primeiro impulso foi correr à sacada, gritar “sou inocente”, pular e procurar asilo na embaixada do Gabão. Minha mulher, que estava atrás de mim e também é brasileira, disse “fique calmo, querido, eu vou fazer sua mala, eles aqui não batem, fique calmo”.

Fiquei calmo e apenas pernas trêmulas, suor frio, gagueira, queixo batucando e outros sinais discretos traíam minha apreensão. Alguém havia me denunciado por jogar um cigarro na calçada? Teria cometido um crime ao olhar com excessivo vagar uma gordinha nua no Hallensee? Comer uma Bratwurst sem mostarda, como fiz outro dia, seria uma grave ofensa? Estaria sendo confundido com um terrorista? (Sou rotineiramente confundido com qualquer coisa, menos com alemão e brasileiro.)

“Escritor!”, disse eu, no meu alemão oligofrênico. “Uso meus dedos assim!”, acrescentei, mostrando com as mãos a diferença entre acionar um gatilho e datilografar.

A Polizei não pareceu divertida. Exibiu os distintivos outra vez, pediu algo que eu não entendia e, lá atrás, minha mulher não facilitava as coisas, perguntando quantas cuecas eu queria que ela pusesse na mala. Finalmente, quando eu já ia estender os pulsos para as algemas, descobri que eles falavam inglês e, graças a Deus, entendiam inglês gaguejado. Queriam a chave do sótão. Que chave do sótão, eu nem sabia que aqui havia um sótão. Mostrei todas as minhas chaves, nenhuma chave de sótão. Eles sorriram, despediram-se, foram embora.

Nós, contudo, ainda não nos recuperamos, talvez nunca nos recuperemos dessa visita. Passamos a noite em claro, imaginando hipóteses horrendas, cadáveres no sótão, duas toneladas de cocaína no sótão, um vampiro no sótão, as piores coisas no sótão, nunca chegaremos nem perto do sótão durante toda a nossa estada na Alemanha. Mas, no dia seguinte, descobrimos uma carta, pregada no quadro de avisos de nosso prédio. Um vizinho queixava-se de que sua churrasqueira (Lattenroste) tinha desaparecido do sótão e pedia que a devolvessem, ou pusessem oitenta e cinco marcos em sua caixa postal, para pagá-la. Ah, então era esse o crime do Storkwinkel, o mistério da churrasqueira desaparecida! Ficamos aliviadíssimos, nunca nem vimos uma churrasqueira, aqui na Alemanha. Mas a lembrança da Kriminalpolizei ainda estava muito viva e, como se diz no Brasil, seguro morreu de velho.

– Mulher — disse eu, depois de ler a carta —, acho que vou comprar uma churrasqueira e deixá-la na porta desse vizinho.

– Boa ideia — disse ela. — E, por via das dúvidas, bote também oitenta e cinco marcos na caixa postal dele.

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