O gatuno – Conto de Nelson Rodrigues

By | 23/06/2022

Foi para São Paulo, de avião. Devia demorar, lá, talvez uma semana. Desembarcou, fez seus negócios e, às duas horas da manhã, apanhou o telefone do hotel:

– Eu queria um interurbano.

– Para onde?

– Rio.

Deu o número e nome. Estava no quarto, que era no 12o andar, e morto de saudades. Casado há três anos, era doido pela esposa. Confessava mesmo, com certo heroísmo: “Se eu perdesse a minha mulher, deixaria de ser homem!” Exagero, como se vê. Mas era incontestável a paixão do Euzebiozinho. Diga-se, de passagem, que a mulher merecia, fisicamente, essa paixão. Com 23 anos, podia ser considerada uma das pequenas mais bonitas do Rio de Janeiro. E, em casa, na rua, no ônibus, em toda a parte, viviam num agarramento de namorados ou amantes. Os amigos, diante desta sólida, compacta euforia conjugal, saudavam:

– O único casal feliz do mundo!

O ladrão

Enfim, foi completada a ligação. Euzebiozinho, sôfrego no telefone, desmanchava-se: “Como vai essa coisinha, maluca?” Ela respondeu qualquer coisa, que o marido não percebeu bem. O telefone estava péssimo. Na sua avidez de apaixonado, que não queria perder uma palavra, insistia: “Como é? Como é?” De repente, Euzebiozinho julgou captar a palavra “ladrão”. Perguntou:

– O que, meu coração? Fala mais alto! Fala com a boca encostada no fone!

Repete!

Ela repetiu, soletrando quase:

– Entrou ladrão, hoje, aqui, em casa!

– Ladrão?

– Pois é.

Atônito, berrava, agarrado ao telefone:

– Mas que negócio é esse? Fala mais alto, meu bem! Não estou ouvindo bolacha!

A voz da mulher fugiu de todo. Histérico, bateu no gancho:

– Mas, ora, bolas! Telefonista! Telefonista!

Acabou desligando, fulo. E, então, no quarto do hotel, pôs-se a pensar nesse gatuno, que lhe invadira a casa. A perspectiva do prejuízo material não o incomodava. O que o fazia rilhar os dentes de pavor era o fato de Luciana estar só, em casa, e, por consequência, indefesa. Imaginou todas as possibilidades. Digamos que o miserável vendo Luciana, bonita e solitária nesse impudor que o sono dá; vendo Luciana numa de suas camisolas diáfanas, decotadas, perdesse a cabeça. Foi a hipótese de não sei que ultrajes que o decidiu. Bateu para o aeroporto. E, lá, pagando um preço nababesco, arranjou um avião especial. Disse para o piloto:

– É assunto de vida ou de morte.

O assalto

Morava numa ruazinha sossegada e lírica da Tijuca. Todos os moradores se conheciam e se davam como se fossem uma família só, numerosa e solidária. Quando Euzebiozinho saltou de um táxi, metade da vizinhança estava na sua casa. Luciana, num belo quimono, atirou-se nos seus braços:

– Ainda bem que você voltou! Graças, graças! E ele, comovido como o diabo:

– Não te deixo mais, nunca mais. Mas como foi? Entrou gatuno, meu coração?

Foi?

Luciana dramatizou: “Imagina o perigo, meu anjo! E sabe quem viu o ladrão? D. Tereza!”

Euzebiozinho virou-se para a indigitada, que confirmou. E veio, então, minuciosa reconstituição. A pobre da Luciana sem desconfiar de nada, deitara-se às dez horas. Como tinha um sono fácil, adormeceu logo, logo, na mais santa das inocências. O marido, do lado, fumando um cigarro atrás do outro, pensava nesse desconhecido, nesse homem que entrara no quarto de sua mulher. Ocorreu-lhe que, nas noites quentes, a esposa dormia nua.

No mais íntimo de si mesmo, teve ciúmes do ladrão. E continuava a história: cerca de meia-noite, d. Tereza, ali presente, estando com muito calor e devorada de insônia, viera à janela. E foi então que, de repente, vê, saindo da casa de Euzebiozinho, um vulto mais do que suspeito. Estando o dono da casa em São Paulo, uma coisa era óbvia ou, como dizia d. Tereza, “batata”: aquele vulto masculino tinha que ser ladrão. Os presentes foram unânimes:

– Claro!

O mais dramático foi o cinismo do fulano: saíra pela porta da frente, com total naturalidade. Dir-se-ia o próprio dono da casa. O espanto como que amordaçara d. Tereza. Assim é que levou tempo antes que pusesse a boca no mundo.

Num instante, a rua inteira estava em polvorosa e a pobre da Luciana acordara, em sobressalto, com o alarido. Num ódio impotente, Euzebiozinho quis saber:

– Como era ele? E d. Tereza:

– Bem-vestido, alinhado, bonitão!

O Raffles

Era um desses casos que excitam a imaginação pelo novelesco. O fato de ser um gatuno bonito, e não beiçudo e bestial, valorizava o episódio. E, além do mais, havia uma circunstância extraordinária: não desaparecera nada, absolutamente nada. Para Euzebiozinho, que tinha ciúmes até dos móveis, o caso assumia aspectos cada vez mais desagradáveis. Estava disposto a admitir um gatuno maltrapilho e boçal. Mas aquele larápio elegante ficou atravessado na sua garganta. Pediu um revólver emprestado: “Meto uma bala nesse desgraçado, ah, se meto!” Luciana ponderou: “Pra que matar, meu filho?” Ele, atirando patadas no chão, confirmou seus desígnios sanguinários: “Mato!”

E, de fato, desde o lamentável incidente, já não dormia mais direito. Qualquer rumor o fazia saltar da cama, de revólver em punho. Todas as tardes, ao voltar do emprego, parava na porta de d. Tereza; fazia a pergunta: “A senhora o reconheceria se o visse?” Ela afirmava:

– Lógico! Sou muito boa fisionomista, graças a Deus!

A coisa que mais deslumbrava a santa senhora era a analogia evidente entre o gatuno da Tijuca e o Raffles dos livros. Jamais imaginara encontrar, na vida real, um criminoso grã-fino. Fantasiava, para si mesma: “No mínimo frequenta bailes, usa casaca, o diabo!”

Surpresa

Uma noite, houve um baile grã-finíssimo na Gávea. E, por coincidência, d. Tereza também foi. No automóvel, Euzebiozinho veio conversando com a vizinha: “A única coisa que eu não topo é ladrão!” E exagerou: “Devia-se matar todos os ladrões no meio da rua, a pauladas!” D. Tereza, no fundo divertida com esta ferocidade, objetou:

– Mas você não pode se queixar. Arranjou um ladrão ultracamarada, que não roubou nada!

Enfim, chegaram na festa. Luciana ia muito linda e o próprio Euzebiozinho, apesar da sua condição de marido, olhava com interesse para o decote ousado e revelador. Fez, para si mesmo, uma reflexão melancólica: “Mulher bonita demais é espeto!” Pouco depois, estavam os três no salão. Euzebiozinho hesita, mas acaba rendendo à gorda e suada d. Tereza uma homenagem convencional: convidou-a para uma primeira dança, que, por sinal, era um fox. Logo nos passos iniciais, porém, d. Tereza estaca. De olhos esbugalhados, cutuca o par:

– O ladrão!

– Onde?

– Ali.

Lívido, Euzebiozinho olhava na direção indicada. Era ele sim, era o miserável. N u m smoking impecável, quase belo, cercado de moças de ombros nus. Euzebiozinho ainda quis duvidar: “Mas tem certeza?” Foi categórica:

– Absolutíssima!

Então, o rapaz não perdeu tempo. Foi direto à dona da casa: “Há um ladrão entre os seus convidados!” Mas quando a dona da casa viu o suspeito, achou até graça:

– Aquele? Mas é o dr. Fulano, engenheiro, milionário, tem vários Cadillacs!… Euzebiozinho, desconcertado, foi obrigado a admitir o engano, o mal-entendido.

Eram duas horas da madrugada, quando voltaram o casal e d. Tereza. Esta, preocupada, com várias pulgas atrás da orelha, admitia um engano provável. E, de vez em quando, olhava, de lado, para Luciana, suspirando. Euzebiozinho não abria a boca e Luciana parecia feliz.

Podia ser engano, gafe, mal-entendido, o diabo. Mas o fato é que, mais tarde, no quarto, ainda de smoking, ele se deixou possuir de uma certeza mortal. A mulher diante do espelho, tirava os brincos. Ele apanhou o revólver emprestado e, muito calmo, disse:

– Não tenho coragem de te matar.

Luciana viu, através do espelho, quando o marido encostou o cano do revólver na própria fronte e puxou o gatilho.

95 Visualizações