O herói perdido – Conto de Dalton Trevisan

By | 13/11/2021

Essa criatura não me tira os olhos. Coragem da fulaninha, acompanhada como está! Verdade, alguns tipos não ligam. São eles que as empurram nos braços do outro – isso os excita. Acabei o meu caso com a Lili, não sei se sabia. Quero descanso por algum tempo. Não olhe agora. Me comendo com os olhos. É aquela, sim, na mesa do fundo.

Não te conto nada. Meu velho, a Lili foi uma experiência. Quando a conheci não sabia quem era.

Apresentados numa festinha. Assim que lhe apertei a mão, adivinhei tudo: úmida e quente. Aquele olhar – corruíra de asinha quebrada – inquieto e subentendido. No meio da frase a voz quebra-se num soluço… Olhar desconfiado, com seu segredo. Como se não desse a pinta. No toque da mão, no arrepio da pálpebra, no próprio rebolado. Uma abre o jogo: Adoro o tipo forte, que amassa na cama, que dá na cara – é certo, gosta de ser maltratada. Outra é preciosa: fala pausada, gesto manso, o anel do dedinho apontando isso e aquilo. Acompanhada de velhota, mãe ou tia, da qual beija a mão trêmula. Ou de coleguinha feia, na esperança que você diga: Veja a Lili, um coração de ouro.

Os olhos assim de anemia perniciosa. Não piscam, crescem, crescem a fim de engolir. Lili do tipo difícil, finge que é. Convidou-me a ir no dia seguinte ao seu apartamento. Entre, sente-se aqui. Mais perto, não mordo. Ai, meu velho, sou herói perdido. Não te conto nada (tosse). Tomar um xarope de agrião. Então expliquei: Não sou disso, Lili. Eu sei, eu sou viva – e molhava dois dedos na boca para colar a franjinha. Ai, como é gostoso o amor. Gostoso? Sim. É maravilhoso. Visita de cerimônia. Nada houve entre nós. Na porta, ela me envolveu o pescoço – nua debaixo do quimono de seda. Quis me beijar, acendi logo um cigarro. Horror de beijo de língua, preciso cuspir – não na frente dela, claro, não tem culpa – para tirar o gosto. Soube que teve um caso com fulano. Não queira negar, Lili. Mentira daquele safadinho. Não sou o que está pensando – se o meu homem souber ele me mata. Não tem medo? Imagine se alguém vai contar. Ai, ele me mata. Ah, Nelsinho, como você é forte – eu não pareço, não é? Me ofereceu cigarro de maconha, desconfio que é viciada. Louquinha, quer beliscar, gosta de morder – olhe o resultado (o rosto chupado, uma espinha no queixo). Desde pequeno fui assim. No olhar das primas eu descobria a paixão. O drama de ter sido bonito demais. (Ora, você ainda é, Nelsinho, ainda é.)

Por este retrato pode ver. Aos cinco anos, em roupinha de marinheiro. Lili me deixou quase doido por causa deste retrato. Bebia e depois se arrastava no tapete para que eu vestisse a farda. Uma de marinheiro, ela mesma improvisou. Imagine só – um marmanjo deste tamanho! – de calça curta e gorrinho, a fita em legenda prateada. Sonhava em voz alta, eu não podia dormir. No sonho ela que estava de marinheiro. Não te conto nada. Embalada no bercinho pelo maestro Carlos Gomes. O maestro de fraque e botina com polaina de veludo, sabe quem era? Um sátiro disfarçado de músico. Que a despia com luva de couro, sofria de erisipela no dedinho torto de velho. Não me pergunte o significado. Ela se recusou a contar – iria ficar chocado.

Me olha, a safadinha, se estivesse nu. Não sei o que vê (exame demorado no espelho da parede). Parece que sou o tipo. Lili se roía do meu sucesso entre as amigas. No cinema ficava me espiando em vez de prestar atenção ao filme – olha para a tela, minha filha, depois se queixa que não entendeu. Não se vire, pelo amor de Deus. O tipo já reparou. Grisalho, ar tão distinto. Muita criatura prefere o pai de família, acho que é insegurança. Lili me confessou a primeira experiência. Um pobre gordo, não sei quantos filhos. Tanto a perseguiu, deixou quase louca. Para se ver livre, a coitadinha acabou aceitando. A mulher soube, exigiu satisfação. Você escolhe entre mim e essa. Já escolhi, anunciou o pai de família. Na mesma hora despediu- se dela e dos quatro filhos. Mais tarde Lili o abandonou – um velho de cinqüenta anos! Ele ameaçou: Se não me quer, só posso morrer. Respondeu a bichinha: Pois que morra. Dias depois, o tipo se suicidou: cortando o pulso, bebendo veneno, abrindo o gás. Quando soube, ela comentou: Bem feito! Eu, hein, com meu marinheiro?

Acertei pelo velho as contas com ela – não deve tratar bem essas criaturas, ainda que o deseje. Olhe a bichinha provocando. Doida de fazer isso na frente do tipo. Quando uma se agarra a você, não o deixa para o resto dos dias. Todas iguais, furiosas de ciúme: Não gosta de mim. Não é mais o mesmo. Onde você foi? Olhou para outra. Se eu demorava, ia me esperar na porta. Bebia no mesmo copo, no lugar da boca. Não suporta tomate, queria comer, entre engulhos, só porque eu gosto. Para me excitar, despia-se diante da janela – no prédio vizinho todos os tarados de Curitiba se agarravam aos binóculos.

De noite gemada com vinho branco. Pela manhã, maçã assada servida na cama – por que não deixa de beber, querido? Não chateia, Lili. Deixe você de fumar. Ah, só me quer para uma coisa. Exibia a cicatriz do pulso, com diversos pontos. Se você me abandona, juro que me mato. Antes escrevo uma carta aos jornais – e saia nua do banheiro rebolando na rumba com a toalha na cintura.

Na esperança de ressuscitar o amor perdido, pede para apanhar. Judie de mim, meu amor. Toda bicha gosta de ser castigada. Não tapinha leve, bofetão de cinco dedos. Deixe-a se lastimar que, cara inchada, não pode ganhar para você. Deixe estar, nunca se desculpe. Se ela perde o respeito, meu velho, está acabado como gostosão.

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