O homem fiel – Conto de Nelson Rodrigues

By | 22/05/2013

Discutiam sobre fidelidade masculina. Rosinha foi categórica:

— Pois fique sabendo: eu confio mais no meu marido que em mim mesma!

Ceci tem um meio riso sardônico:

— Quer dizer que você pensa que seu marido é fiel?esf

Replicou:

— Penso, não, é! Fidelíssimo!

A outra achava graça. Pergunta:

— Queres um conselho? Um conselho batata?

— Vamos ver.

E Ceci:

— Não ponha a mão no fogo por marido nenhum. Nenhum. O homem fiel nasceu morto, percebeste? Eu te falo de cadeira, porque também sou casada. E não tenho ilusões. Sei que meu marido não respeita nem poste!

Rosinha exaltou-se:

— Não sei do teu marido, nem me interessa. Só sei do meu. E posso te garantir que o meu é cem por cento. Ai dele no dia em que me trair, ai dele! Sou muito boa, tal e coisa. Mas a mim ninguém passa pra trás. Duvido!

BOBINHA

Ceci, que era sua amiga e vizinha, não tarda a sair. Sozinha em casa, ela fica pensando: “Ora veja!”. Desde os tempos de solteira que tinha pontos de vista irredutíveis sobre a fidelidade dum casal. Na sua opinião, o único problema da esposa é não ser traída. Casa, comida e roupa não têm a mínima importância. Tanto que, antes de casar com Romário, advertira:

— Passo fome contigo, o diabo. Só não aceito uma coisa: traição!

Diga-se de passagem que o comportamento de Romário, seja como namorado, noivo ou marido, parecia exemplar. Estavam casados há três anos. Até prova em contrário, ele fazia a seguinte vida: da casa para o trabalho e do trabalho para casa.

Como amoroso, ninguém mais delicado, mais terno: mantinha, em plena vida matrimonial, requintes de namorado. Estirada na espreguiçadeira, Rosinha repetia de si para si: “É mais fácil eu trair Romário do que ele a mim!”. Esta era a doce e definitiva convicção em que se baseava a sua felicidade matrimonial. De noite, quando o esposo chega do trabalho, ela se lança nos seus braços, beija-o, com uma voracidade de lua-demel. À queima-roupa, faz-lhe a pergunta:

— Tu serias capaz de me trair?

— Isola!

Teima:

— Serias?

E ele:

— Sossega, leoa!

Então, Rosinha conta a conversa que tivera com Ceci. O marido rompe em exclamações:

— Mas oh! Parei contigo, carambolas! Tu vais atrás dessa bobalhona? A Ceci é uma jararaca, uma lacraia, um escorpião! E, além disso, tem o complexo da mulher traída duzentas vezes por dia. Vai por mim, que é despeito!

CECI

Fosse como fosse, a conversa com Ceci marcara o espírito de Rosinha.

Escovando os dentes para dormir, surpreendeu-se fazendo a seguinte conjetura: “Será que ele me trai? Será que ele já me traiu?”. No dia seguinte, pela manhã, vai à casa de Ceci, que era contígua à sua. Começa:

— Não pense que eu sou boba, não. Se eu digo que meu marido não me trai é
porque tenho base.

A outra, espremendo espinhas diante do espelho, admira-se:.

— Como base?

Explica, animada:

— Pelo seguinte: eu sei tudo o que meu marido faz, tudo. Entra dia, sai dia e o programa dele é este: de manhã, vai para o emprego; ao meio-dia, almoço em casa; depois, emprego e, finalmente, casa. Nunca telefonei para o emprego, em hora de expediente, que ele não estivesse lá, firme como o Pão de Açúcar. Mesmo que Romário quisesse me trair, não poderia, por falta de tempo.

Ceci suspira:

— Ah, Rosinha, Rosinha! Sabes qual a pior cega? A que não quer ver. Paciência.

A outra explodiu:

— Ora, pipocas! Cega onde? Então quero que você me explique: como é que meu marido pode ser infiel se está ou no trabalho ou comigo? Você acha possível?

Resposta:

— Acho. Me perdoe, mas acho.

MARACANÃ

Passou. Mas no domingo, depois do almoço, Ceci apareceu para uma prosinha. Muito bisbilhoteira, percebe que Romário não está. Quer saber: “Cadê teu marido?”. E Rosinha, lacônica:

— Foi ao futebol.

— No Maracanã?

— Sim, no Maracanã!

Ceci bate na testa:

— Já vi tudo! — E, radiante, interpela a vizinha: — Você diz que teu marido ou está contigo ou no trabalho. Muito bem. E aos domingos? Ele vai ao futebol e você fica! Passa a tarde toda, de fio a pavio, longe de ti. É ou não é?

Rosinha faz espanto:

— Mas ora bolas! Você quer coisa mais inocente do que futebol? Inocentíssima!

Excitada, andando de um lado para outro, Ceci nega: “Pois sim! E se não for futebol? Ele diz que vai. Mas pode ser desculpa, pretexto, não pode? Claro!”. Pálida, Rosinha balbucia: “Nem brinca”. A vizinha baixa a voz, na sugestão diabólica: “Vamos lá? Tirar isso a limpo? Vamos?”. Reage: “Não vale a pena! É bobagem!”. Ceci tem um riso cruel: “Estás com medo?”. Nega, quase sem voz: “Medo por quê?”. Mas estava.

Sentia uma dessas pusilanimidades pânicas que ninguém esquece. Ceci comandava:

— Não custa, sua boba! É uma experiência! Nós vamos lá e pedimos ao alto-falante para chamar teu marido. Se ele aparecer, muito bem, ótimo. Se não aparecer, sabe como é: está por aí nos braços de alguma loura. Topas?

Respondeu, com esforço:

— Topo.

O ALTO-FALANTE

Sob a pressão irresistível da outra, mudou um vestidinho melhor, pôs um pouco de ruge nas faces e dispensou o batom. Já na porta da rua, Rosinha trava o braço de Ceci. Grave e triste, adverte: “Isso que você está fazendo comigo é uma perversidade, uma malvadeza! Vamos que o meu marido não esteja lá. Já imaginou o meu desgosto?

Você acha o quê? Que eu posso continuar vivendo com o meu marido, sabendo que ele me traiu?”. E confessou, num arrepio intenso: “Tenho medo! Tenho medo!”. Durante toda a viagem para o estádio, a outra foi se justificando: “Estou até te fazendo um favor, compreendes-te?”. Rosinha suspira em profundidade: “Se Romário não estiver lá, eu me separo!”. A outra ralhou:

— Separar por quê? Queres saber duma? A única coisa que justifica a separação é a falta de amor. Acabou-se o amor, cada um vai para seu lado e pronto. Mas a infidelidade, não. Não é motivo. A mulher batata é a que sabe ser traída. Quando chegaram no estádio, Ceci, ativa, militante, tomou todas as iniciativas. Entendeu-se com vários funcionários do Maracanã, inclusive o speaker. Rosinha, ao lado, numa docilidade de magnetizada, deixava-se levar. Finalmente, o alto-falante do estádio começou a chamar: “Atenção, senhor Romário Pereira! Queira comparecer, com urgência, à superintendência!”.

O APELO

O locutor irradiou o aviso uma vez, duas, cinco, dez, vinte. Na superintendência do Maracanã as duas esperavam. E nada de Romário. Lívida, o lábio inferior tremendo, Rosinha pede ao funcionário: — “Quer pedir para chamar outra vez? Por obséquio, sim?”. Houve um momento em que a repetição do apelo inútil já se tornava penosa ou cômica. Rosinha leva Ceci para um canto; tem um lamento de todo o ser: “Sempre pedi a Deus para não ser traída! Eu não queria ser traída nunca!”. Crispa a mão no braço da outra, na sua cólera contida: “Eu podia viver e morrer sem desconfiar. Por que me abriste os olhos? Por quê?”. Sem perceber o sofrimento da outra, Ceci parecia eufórica:

— Não te disse? Batata! É a nossa sina, meu anjo! A mulher nasceu para ser traída!

Sem uma palavra, Rosinha experimentava uma angústia. Dir-se-ia que, de repente, o estádio se transformava no mais desagradável e gigantesco dos túmulos. Era inútil esperar. E, então, convencida para sempre, Rosinha baixa a voz: “Vamos sair daqui. Não agüento mais”. O funcionário da ADEG ainda se inclinou, numa cordialidade exemplar:

— Às ordens.

Ao sair do estádio, ela repetia: “Eu não precisava saber! Não devia saber!”. Ao que a outra replicava, exultante e chula: “O bonito da mulher é saber ser traída e agüentar o rojão!”. Neste momento, vão atravessar a rua. Rosinha apanha a mão da amiga e, assim, de mãos dadas, dão os primeiros passos. No meio da rua, porém, estacam. Vem um lotação, a toda a velocidade. Pânico. No último segundo, Rosinha se desprende e corre. Menos feliz, Ceci é colhida em cheio; projetada. Vira uma inverossímil cambalhota no ar, antes de se esparramar no chão. Rosinha corre, chega antes de qualquer outro. Com as duas mãos, põe a cabeça ensangüentada no próprio regaço. E ao sentir que a outra morre, que acaba de morrer, ela começa a rir, crescendo. Numa alucinação de gargalhada, como se estivesse em cócegas mortais, grita:

— Bem feito! Bem feito!

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