O ilustre Menezes – Conto de Nélida Piñon

Bem sei que já não sou o mesmo. Ainda que atrase o relógio, que trago sempre atado à presilha da calça, passa-me o tempo com demasiada pressa. E qual não é o meu espanto ao já não mais ver-me em 1860, mas já a pisar, e sem a firmeza de outrora, o chão de 1862. Eis dois anos decorridos sem a minha cumplicidade, deles sequer dei-me conta. Com mais freqüência agora apóio-me na bengala encastoada a conversar com os amigos na esquina da Ouvidor. Sou o primeiro a aceitar que muito excedi-me no trato com as moçoilas, cada qual tão mimosa que havia que apreciá-las de perto. Nisto fraquejou-me sempre o coração, mostra-se ele mais forte que as promessas feitas em sinceros instantes de contrição. E aí está o Patek Philippe, presente de conhecido meirinho da praça, por serviço que lhe prestei, dando-me conta do tempo vencido. Mas, se já não sou o mesmo, nem por isto dou-me por derrotado. Até pelo contrário, ciente do quanto os dias encurtam, lanço- me agora, e com mais desenvoltura, aos gostos que se provam nestas aventuras. A cada esquina lá está o destino a surpreender-me encarnado em formosas damas afeitas ao próprio brilho. Diligenciam-se elas muito mais com a perfeição dos próprios penteados do que nos pagam atenção. Logo a nós que lhes servimos com grande apuro, a começar pela aparência cuidada, desde as luvas de suedine, botas de couro da Rússia, até a pelerine negra no inverno e alvada no verão. E tudo, muitas vezes, por nada. Não nos concedem de imediato fartas regalias. Há que ir com paciência. Mas, também, a que outros haveres deve um homem dedicar-se nesta terra? Estas ruas da cidade, aliás, conspiram todas contra os instintos, estas agudas flechas que uma vez disparadas cravam onde não deviam, há que arrancá-las com arrebato e certa perda de sangue.

Hoje, sinto-me especialmente bem. Muito alivia-me o Natal quando se avizinha. Mais uma estação vencida galhardamente. Logo depois do almoço apurei-me na colônia, fui bem farto ao passá-la pelo corpo. Encareci a Conceição que se encarregasse pessoalmente de meus trajes. Afinal, um homem é a sua aparência. Gomo sempre, obedeceu-me. A bem da verdade, ela jamais me desagravou com atitudes hostis. E mesmo quando supôs que da rua eu trazia-lhe algum desgosto, nunca me levantou a voz. E não é feia, a minha Conceição. Ocorre apenas que os mesmos encantos que em outra mulher reluzem firmemente, nela, por mistério que não explico, simplesmente empalidecem. Com esta verdade, já estou bem conformado. Se ao menos Conceição soubesse rir!

Tratou D. Inácia de ensinar-lhe que o riso vai devagar afrouxando os costumes, nele apóiam-se unicamente os de educação modesta. Não se esquecendo a filha ainda que devia apagar no rosto justamente aquelas expressões reveladoras de íntimos sentimentos. De nenhum outro modo se fortaleceria o pudor, este, sim, virtude maior. A princípio, aplaudi-lhe o estímulo a uma graça que, na vida prática, entre lençóis, logo mostrou-se exagerada. Tanto assim que, mal eu a tocava, Conceição retraía-se toda, a tremer de frio, depressa recolhendo para dentro do corpo qualquer gesto que pudesse eu interpretar como generoso.

Jamais me ofertou delícias que se desdobram quanto mais as provamos. E embora não lhe veja gosto pelos atos íntimos, por força da Lei e da Igreja, não me eximo dos encargos conjugais. É dever que cumpro com parcimônia. E pergunto-me às vezes se tal frieza deve-se à pressa com que desincumbo-me de Conceição, sem poder explicar-lhe que é o amor um mistério que se renova justamente quando o estamos a desvendar. Não, não me penso” em débito com cia. Se culpado há, é D. Inácia. Tanto alimentou-lhe o recato que Conceição parece regá-lo diariamente, como se fosse ele o seu jardim. E que nunca a deixou, mesmo à luz do dia. Basta que eu a olhe mais firme, para esconder-me o semblante, sob a vigília de D. Inácia, sempre a exacerbar-lhe esta qualidade.

Não vive a sogra senão para a filha. Já pelas manhãs, surpreendo-as trocando palavras logo abafadas à minha aproximação. Mas, não me ressinto. Que podem estar a fazer duas mulheres senão discutindo afazeres domésticos, outras preocupações não as atingem. Tem lá elas direito aos seus segredos, que afinal enfeitam-lhes o cotidiano. Também eu não as convido a tratarem de temas para os quais não demonstram competência. Deste modo, estamos todos bem. Não me ferem os interesses.

Só lamento a sogra a vigiar-me as saídas. Claro está que não as impede, carece de forças para isto. No entanto, teima ainda em dirigir-me expressões iradas a cada quinta-feira, quando regresso a casa na manhã seguinte. Sei que reprova o hábito de ausentar-me do leito conjugal uma vez na semana. Em certas noites, empenha seu prestígio para prender-me ao calor da sala, entretém-me com assuntos que me possam atrair. E porque não interrompe a fala, fico- lhe sempre a dever algumas palavras. Não me deixam a pressa e a própria D. Inácia dar por encerrada a palestra. Sempre indaga-me sobre os negócios. Se de algo tenho a reclamar, apesar de escrivão bem situado. Cedo-lhe breves informações sobre o cartório, enquanto esquiva-se Conceição em ouvi-las, quem sabe desconfiada que eu lhes faça chegar parte apenas de qualquer verdade.

Como prêmio, para certos infortúnios, tenho de Conceição a sua fidelidade e completa devoção ao lar. Assim, inimigo mesmo é o tempo a esgotar-se sem cerimônia. Dele, sim, tudo tenho a reclamar. Especialmente agora aos cinqüenta anos, a saber que o próximo decênio me cortará ao meio o que hoje sobra-me. E pensar que Conceição, tão mais nova, dispõe de vigor que nela está em desuso, ainda assim sem poder ceder-me o que em breve estarei a necessitar.

Ao tratarmos dos esponsais, fiz-lhe ver que para ocupar-me do seu futuro, onde incluía-se D. Inácia, me tocavam encargos que a vida lá fora estava a cobrar-me. Não poderia ela compreender, por sua educação recatada, o quanto mostrava-se poroso e diversificado o destino de um homem ao caber-lhe o sustento de um lar. Não podendo o homem assim, e por esta razão, rejeitar as experiências que justamente abrem-lhe as portas que se manteriam fechadas não lutasse ele por descerrá-las. Jamais pensasse que tranqüilo fosse o combate pela sobrevivência. Ao contrário, pelo que se podia tomar no homem como privilégio, pagava-se alto preço.

Conceição poupou-me de maiores explicações. Havia aprendido que entre casais baniam-se exatamente as palavras que poderiam exaurir o delicado tema. Desde a primeira noite decidiu pela obediência. Se a surpreendi alguma vez em discreto pranto, garantiu-me devê-lo às aflições tão próprias da natureza feminina. As alfaias da casa, os regalos que lhe chegam nas datas corretas, parecem aplacar-lhe qualquer ressentimento. Nunca se referiu ao meu casamento anterior. Ou quis saber se com Amélia fora mais feliz. Se porque existira em minha vida um outro amor, estava eu vacinado contra novo afeto. Sabia que ali Amélia vivera, pelos objetos que a outra havia comprado para deixar-me de lembrança ao falecer.

Não a fui logo introduzindo aos meus hábitos noturnos. Não queria a sogra em lamentos pela vizinhança, sempre nestes casos querendo a tudo arrancar de uma alma sofredora. Um escrivão, como eu, não podia expor-se sem cuidados. Na Corte, sabemos como os rumores logo” espalham-se em prejuízo para o ofendido. Depressa os negócios se ressentem e menos moedas pingam na algibeira.

A primeira vez que ausentei-me por toda a noite, D. Inácia mal saudou-me. Reclamou das horas de sono perdidas, e nervosa roçagava a saia pelo corredor. Até trancar-se por meia hora no quarto com Conceição, advertindo-a, quem sabe, contra os avanços libertinos do marido. Ou aconselhando-a a fazer das lágrimas seu rosário de martírio. Sei que, de lá saindo, enfrentou-me com destemor. Tinha seus motivos a brava senhora. Defendia o que Conceição, desprevenida, estava ameaçada de perder. Fiz-lhe ver, porém, e em alta voz, para Conceição alcançar-me na alcova, que havendo padecido de certos transtornos à saída do Lírico, melhor me houve pernoitar fora de casa. Não queria os vizinhos a me pensarem um frascário, logo eu que tanto zelava pelo lar.

A espanar o canapé, a varrer seguidas vezes a nova alcatifa que cobria as tábuas da sala, ia D. Inácia encarregando-se de serviço próprio das mucamas.

– Se mal lhe pergunto, meu genro, a que espetáculo esteve a assistir?

Vi-lhe o esforço, sua última tentativa em defesa da filha. Aí estava uma peleja que me trazia gosto. Tinha eu todas as armas, havia que terçá-las com destreza, como me aprouvesse. Se devia-lhe pregar uma lição, aquele era o momento.

– Pois fui prestigiar a um jovem talentoso. Seu nome, se não estou enganado, é Machado de Assis. Deu-nos “O Protocolo”, que estava bastante satisfatório. Contudo uma comédia muito mais para ser lida e não representada.

D. Inácia chegou-se a mim, as feições ainda contraídas, fazendo-me ver que, derrotada, queria-me sob a sua guarda.

– Nas poucas vezes que visitei o Lírico, e a outras casas mais, passei a preferir Adelaide Amaral à Eugênia Câmara — disse-me afinal.

Já no cartório, a meditar sobre os documentos a ganharem minha firma, e esbarrando nos cupins que festejavam os papéis com igual empenho com que avançavam por certas almas, aconselhou- me a prudência a não descuidar-me das trajetórias de Furtado Coelho, Lucinda Simões, mesmo Tamagno, ídolos de D. Inácia, de ouvi-los mencionados. Passou a “Marmota Fluminense” a suprir-me de informações que tratava logo de despejá-las frescas no jantar das sextas-feiras. Uma providência nunca exagerada para um escrivão já habituado a freqüentar o Paula Brito, lá no Rocio, para ali entreter-se com amáveis tertúlias, quando merecia de alguns expoentes efusivas saudações.

Sem dúvida, consola-se D. Inácia em saber-me bom pagador c, ainda, por comentários que lhe chegam, bem parcimonioso nos gastos fora de casa. A verdade é que  jamais me excedi, mesmo com Pastora. Pois se me quer ela próximo a si, não exija o que não estou obrigado a dar-lhe. Nunca lhe fiz chegar o que a poderia estar comprando. Houve ocasião que a quiseram intrigar comigo, garantiram- me, de sua parte, interesse vil. Este caluniador foi logo escorraçado. Como haveria de permitir, sem desprezar-me em seguida, que maculassem os sentimentos da mulher que me cedera, na intimidade, não somente seus ais, mas sua incorruptível confissão.

Corria a história de que lhe fugira o marido no terceiro ano de casamento, atrás deixando-lhe bilhete onde destacavam-se as palavras desterro e desesperança. Tal versão, naturalmente, indignando Pastora. Como estranhos podiam maltratá-la assim, quando, na verdade, dispuseram eles de grande vagar para íntimas despedidas, havendo para isto reservado toda a noite de domingo. Sabiam os dois que para viagem longa e acidentada, de que às vezes não se volta — ia ele para o Pará reclamar herança familiar, as palavras e as carícias trocadas valeriam, para quem ficava, e para quem partia, como precioso alento.

– E amaste tanto assim ao marido, o Sr. Bonifácio? — perseguia-me o ciúme, a querer arrancar-me pedaços que me fariam falta mais tarde. Para tal aflição, que não pude esconder, valeu-se Pastora, em meu socorro, da bilha com água. Pedi-lhe, porém, que me largasse ao próprio fado, como acudir-me quem trazia até o leito a fresca memória do marido.

Abraçada a mim, vi-lhe a desdita. Admitia haver velado de tal modo o retrato do Sr. Bonifácio, guardando-lhe severa fidelidade, que temeram-lhe os amigos a sorte. Instavam-na eles, aflitos, a receber a vida de volta, mesmo que para isto se expusesse ao opróbrio injusto. Nenhum argumento a convencera. Não tivesse eu surgido para apagar-lhe o luto, e nele estaria ainda mergulhada.

Pastora cultiva nessas horas a redondilha, manejando com desenvoltura os versos. Diz-me o que Conceição cala. Assim, à mesa, sorvendo a sopa, não furtava-me à fatalidade de compará-las em secreto juízo. De muito Pastora ganhava. Mas D. Inácia, ao passar-me depressa as travessas, não me deixa muito tempo a sós com tais pensamentos. À falta do que falar-me, preocupa-se Conceição com a sopa, se naquela noite não teria eu preferido uma simples canja de miúdos.

Vem-me à cabeça o ímpeto de pedir-lhe que só dirija-me a fala em casos de extrema necessidade. Contendo-me, porém, termino por sugerir-lhe a leitura. Far-lhe-ia bem o Dr. Macedo. A inocência de Moreninha pareceu-me sempre fagueira.

– E quer que eu lhe traga alguns títulos novos, recém-chegados de Portugal? Conceição ressente-se, desgostam-lhe certamente minhas palavras. Mas, discreta, alega falta de tempo para estes entretenimentos, a casa ocupa-lhe todas as horas. Carece Conceição do tempo que, Deus louvado, a mim, no cartório, está a sobrar. Talvez seja melhor assim. Há leituras que nos suprem com sonhos que a realidade mesmo não comporta. E se lá fosse Conceição ao seu encalço, teria que abater-lhe as asas. Não, não me permito contratempos domésticos. Ávida, a tenho bem azeitada. Bastam-me as exigências de Pastora, implacável a qualquer atraso. Obriga-me a corridas que excedem de muito às minhas forças. Em compensação, se lhe chego no prazo, regala-me com o bom vinho do Porto e biscoitos amanteigados, mal retira a aldraba da porta. Estes cuidados permitindo-me delicados ósculos na alvura dos seus pulsos, dali meço-lhe as batidas do coração.

E quando estou avançado nas carícias, interrompe-me Pastora para que descreva-lhe a casa, não posso então esquecer um só objeto ao arrolar-lhe os bens. Precisa Pastora certificar-se de que os objetos falariam por ela, mesmo se não mais vivesse entre eles, se ausentasse por alguns dias. Foi graças aos seus caprichos que atraíra- os à casa, tirava-lhes a poeira, havia-lhes, enfim, assoprado o que dizia ser sua última forma. A esta idéia, ela sempre se enternece.

Apesar do enlevo com que tece elegantes figuras com as palavras, e enrubescer quando de amor trata, muitas vezes na intimidade Pastora mostrou-se tão distraída quanto Conceição. Havendo eu que convocá-la de novo ao nosso festim, urgi-la a regressar à terra, só aqui encontrava-se a salvação. Nestes momentos, pede-me desculpas, há que entender, segundo ela, esta alma feminina que, até mesmo em frangalhos, teima em sorver da taça sua inexcedível dose de sonho.

Agora, todos nós à mesa, confiro os traços de Conceição. Distante assim, e talvez pelo vinho, ganham suas faces certo brilho. Mas, se lhe dissesse eu que ganharia viço com a pintura reforçada, rasgando um pouco mais o decote, não me devolveria sequer um olhar grato. Seu rosto filtra igualmente o desgosto e a ilusão. Tanto é o seu controle que no meu velório não derramará lágrimas. Se acaso ama-me, Conceição nunca me confessou. Não lhe permite o pudor qualquer extravio. Alisa, sim, as minhas roupas e devolve-as já impregnadas de colônia. Por minha vez, recompenso-a com delicadeza, jamais voltei a casa sem banhar- me antes, tratando de apagar marcas e perfumes que ela possa descrever com raiva e brios.

Uma coisa não pode ela, acusar-me de finório, destes que dilapidam o nome e o patrimônio comum. Não darei a Conceição outros motivos de queixa além dos que já tem. Os direitos que lhe assegurei, devem tranqüilizá-la. Pode D. Inácia testemunhar a meu favor. Ela própria desfruta de invejável conforto, com que se regala toda. Às duas presenteio com toda sorte de adornos. Hoje mesmo, pela manhã, fiz chegar à Conceição precioso cartucho, destaca-se nele em ouro um cervo que o caçador persegue entre folhagens.

Comprei-o no belchior vizinho ao cartório, custou-me pequena fortuna. Conceição levou a jóia ao peito por instantes, largando-a depois sobre a cômoda, fez-me ver que oportunamente a usará. D. Inácia perdeu-se em elogios, alguns, suspeito, bem falsos.

Em julho, fizemos cinco anos de casamento. Achei que a efeméride devia estender-se por toda a semana. Assim, diariamente, fiz- me presente na casa e no leito. E, na quinta- feira, quando jamais Pastora faltou-me, rasguei, diante de Conceição e D. Inácia, o bilhete do Lírico comprado especialmente para este fim.

– Fico em casa nesta data. Deixo o teatro para a semana entrante. Ele não me há de escapar.

Esparramado o papel picado pela mesa, queria-as subjugadas ao meu gesto. Vissem o meu empenho em agradá-las. Mas, para meu desgosto, D. Inácia pôs-se a lamentar. Considerava desperdício o meu feito, em vez de rasgá-lo, melhor teria sido adquirir mais dois bilhetes para irmos todos ao Lírico. D. Inácia tinha razão, mas sua proposta envolvia também certos riscos, não havia que estabelecer novo hábito, ou forçá-las à fantasia que é do teatro estimular. Constrangido por querer D. Inácia provar-me inábil nas coisas do coração, reagi firmemente. Com o sangue a subir-me às faces, expliquei-lhes que permanecer na casa, naquela noite, seria um regalo que unicamente Conceição estava em condições de apreciar.

D. Inácia simulou não haver ouvido. Punha-se de pé e sentava- se com impensada ligeireza. Até que trouxe-nos bolo de fubá e cafezinhos. Por sua vez, Conceição tomou do bastidor, apreciava o trabalho à distância da vista. Decidido, porém, a constrangê-las, chamei Conceição a mim, que me acompanhasse no licor, ia-lhe aquecer o corpo a doce quentura do pêssego no cálice. Vi-lhe o rubor, como se aplicasse carmim no rosto. E o transtorno até que dava- lhe certa graça. Despertou-me desejo de afagar-lhe as mãos cruzadas à altura do baixo-ventre. Se nisto pensei, mais depressa acariei-a. Pelo olhar, Conceição forçava-me a desistir. Até que, não mais suportando, levantou-se a pretexto de chamar Suplicia, urgia que a mucama fosse ao boticário curá-la da enxaqueca.

– E dói-lhe muito? falei-lhe algo pícaro. Em seu socorro, D. Inácia tomava-lhe da mesma mão que antes eu afagara. Querendo apagar as expansões de um esposo e que tanto doíam-lhe. Já no leito, debrucei-me sobre Conceição disposto a provar-lhe que as pala- vras à mesa se legitimariam em ato real. Conceição foi pronta na resposta. —Ah, Chiquinho, como chamava-me às vezes, que enxaqueca será esta, meu Deus!

Pastora recebeu-me indiferente. Como a podia ter abandonado quando mais me necessitava. Fez-me ver que de algum modo devia compensá-la pelos maus-tratos. Ao pé da cama, lancei-me às carícias que há muito não nos devotávamos. E tanto haviam estas carícias se distanciado de nós que, agora revividas, encantavam Pastora. Encarecia-me a  jamais esquecê-las, precisamente elas, mais que outras, acercavam-se do seu coração com veloz ardor. Eu via as horas e as minhas forças rapidamente extinguirem-se. E muito porque surgira-me, recém-chegada da terrinha, uma cachopa de cor trigueira, cabelos enrodilhados no alto da cabeça, olhar trocista, que havia-me apresentado o escrevente juramentado Soa- res, sempre empenhado em agradar-me. Adivinhava-me ele as fraquezas.

– E quem não as tem, Sr. Menezes.

– E tem o amigo razão. Melhor as deste tipo, que a bebida ou a prodigalidade. Estes, sim, vícios a que se atendem em grave prejuízo do lar.

A portuguesa Delfina parecia-se à Cleópatra da gravura que enfeita-nos a casa sobre o canapé, ao lado do espelho. Quantas vezes não cobicei a rainha do Nilo, que a história e o tempo haviam-me roubado. Não me teria ela escapado a passear pelo Jardim Público. Que aflições não me causariam esta mulher! Conceição parecia adivinhar que em seu seio nascia uma víbora. Certa vez protestou contra a presença daquelas mulheres, pois eram duas gravuras, uma próxima à outra, que melhor estariam num salão de barbeiro, a algaravia do local casando-se bem com elas.

Estranhei que soubesse descrever os logradouros masculinos, não a pensava ocupada com tais assuntos. Mas, alegou Conceição que servia-lhe a imaginação para cobrir certos vazios, sem falar na intuição a segredar à mulher o que, no recesso do lar, estava vedada de saber. A tais explicações, dei-lhe mostra de descontentamento, enveredava ela por caminho inconveniente. Ao perceber-me o desgosto, Conceição logo emendou-se. Era a primeira a considerar que jamais se conciliaria com os locais públicos e os salões mundanos, em ambos sobejavam o pecado e a soberba. Em casa, estava-se a salvo dos desmandos. Agradeci-lhe o senso correto e o recato, que também o caro Soares apreciava. Tanto que sempre buscou ele na voz um tom que, sem ofender-me, resumisse seus cuidados por ela.

– E como está D. Conceição a passar? Santa e prendada senhora ali encontra-se, Sr. Menezes.

Apesar das belas maneiras do escrevente juramentado, dele eu queria notícias de Delfina, a faltar-me aos encontros, só para eu padecer. Até que chegaram-me, por meio do constrangido Soares, a nossa Celestina, as palavras da rapariga, escritas no frontispício dum alfarrábio: “Se de mim nada consegues, não sei por que me persegues, constantemente na rua; sabes bem que sou casada, que fui sempre dedicada, e que não posso ser tua; lá porque és rico e elegante, queres que eu seja tua amante, por capricho ou presunção; eu tenho um marido pobre, que possui uma alma nobre, e é toda minha paixão. Rasguei as cartas sem ler, e nunca quis receber jóias ou flores que trouxesses.”

Tratava-se de uma grande mentirosa, pois nem marido tinha. Só com propósitos vis carregara nas tintas, enquanto buscava com afã quem lhe montasse um sobradinho em São Cristóvão, queria-o com quintal e mangueiras frondosas. Encontrei-a quinze dias mais tarde. Sentia-me bem, naquela semana concedera-me Pastora tal ardor que podia agora resistir às atrações da portuguesa. Tirei-lhe a cartola e ela, a medir forças, devolveu-me o sorriso que há muito eu observava na Cleópatra da casa. Cheguei-me à Delfina.

– A que devo, senhora minha, a honra de tal sorriso?

Para meu espanto, e para não mais confiar em sua natureza cercada de mimos e pejos que mais próprios estariam num ramilhete, disse-me:

– Não me vendo, nem me dou.

E afastou-se faceira, deixando-me no rosto sua fragrância jasmim. Quis segui-la, exigir explicações. Temi, porém, que me repelisse, armasse escândalo. Um escrivão como eu, a quem certas damas favorecem, sem que por isto haja vencedores e vencidos, não seria alvo de chacota e de injúrias, a passar por tal vergonha. Não estava disposto a agüentar as bernadices de uma rapariga.

Conceição adivinhou-me ferido, pois desdobrou-se em cuidados, como a tratar de um enfermo. Vi-lhe gosto na operação, a solidariedade de uma alma nobre. No jantar, além da sopa, descreveu outras iguarias. Já no quarto, pediu-me água, e que apagasse o candeeiro, naquela noite tinha pressa em dormir. Não sei por que, mas quis- lhe perturbar o sono.

– Não ando bem de saúde. Só espero que não me acuda a ingrata apoplexia.E não estava longe da verdade. Pois andam-me passando certos percalços. Por qualquer cousa, a cabeça lateja-me, como se dela pendesse uma bola de chumbo. Nestas horas de aflição, Pastora tem- me afortunado com afeto, mostra-se grata com os regalos que lhe faço. Todos bem modestos, não sou quem se prodigaliza nesses casos. E certamente censuro aquelas que se inclinam e exigem o fausto. Devia-lhes bastar o afeto que se deixa na antecâmara. Pastora c sensível, alivia-me a cabeça com artes minuciosas, traz-me beldroegas da sua chácara. E, logo restaurado, posso tirar da boceta o fino rape inglês e levá-lo às ventas, provar-lhe a delícia.

A ameaça de que estava a ir-me muito breve não comoveu Conceição. Apóia-se na certeza de que, à minha morte, hão de restar- lhe alguns bens. A casa de Catumbi é um razoável legado. Apesar do gênio de Amélia, mais irascível que o meu, e dos desgostos que lhe terei causado, segundo o que dizia-me, não lhe sobrou remédio senão indicar-me único herdeiro. Ah, como combateu-me a assiduidade junto ao teatro, aquela obsessão que a excluía sem piedade. Eu oferecia-lhe razões, não podia levá-la, à saída do teatro, aos locais impróprios, onde contudo realizavam-se as melhores transações comerciais. Apoquentava- me Amélia aos gritos, a indicar-me freqüentemente a soleira da porta. Suportei-lhe bem os ressentimentos, as inúteis lágrimas, em troca premiou-me com o sobrado, alguns títulos, o mobiliário, terrenos em Petrópolis, e as escravas. Um cabedal que sem dúvida folgou-me bem.

Inconformada, a família de Amélia pagou-nos assíduas visitas, cobrando-nos pitéus e bebidas fortes. Suportou-os D. Inácia até a noite em que cerrou-lhes a porta, comunicando pela janela que estávamos de saída para a novena, não era do seu feitio reservar hora para as obrigações sociais. Nogueira, porém, jovem primo de Amélia, pediu-nos hospedagem, e benevolência também. Vivia em Mangaratiba, e estava a necessitar dos estudos avançados da Capital.

Com ele, comovi-me, sabia-o capaz de honrar-nos com brilhante futuro na Corte. Ponderei à D. Inácia o que nos custaria um menino que, aos dezessete anos, revelava cortesia c discrição. Por cima, seria para Conceição como um filho.

Tão tímido o Nogueira que, à mesa, afunda o rosto no prato, furta-se assim ao diálogo. Parece incomodado junto às mulheres. Um recato que vai-lhe bem, quando o temos como hóspede. Jamais confiaria a casa a um atrevido, pronto a magoar-me ao ferir Conceição. D. Inácia foi a primeira a querer-lhe bem. Faz questão de servir-lhe o prato. Gaba-se a sogra de restaurar as debilidades humanas, quem lhe chega fraco, acode-se em suas palavras e em seus pratos quentes. Conceição, porém, tem resistido ao Nogueira nesses nove meses. Jamais a surpreendi num gesto afável, embora com ele tampouco seja rude.

Nogueira tem o gosto da leitura. Sempre com um livro entre os dedos, na faina de suspirar por eles. Certa manhã, sugeri-lhe a deixar os livros para trás, seguindo-me até onde encontravam-se certos prazeres viris. Pareceu não entender-me. Olhou-me como se es- tivesse a propor-lhe tarefa de que se envergonhasse mais tarde, quando o fato é que seu corpo atingia-me quase em altura. Deixei- o com fé que me buscasse um dia. Mas, jamais procurou-me. Ignoro agora se já abeberou-se nas delícias da vida.

Disse-me ontem Pastora:

– Sinto-me só, Menezes, queria-o comigo na ceia de Natal.

Fiz-lhe ver que não atenderia ao seu convite, talvez provasse de seus petiscos pela madrugada. Mas, primeiro vinha a casa. Não me furtaria ao encargo de cear junto aos meus. Tínhamos o hábito de bebericar a partir das seis, eu já vestido de modo a retirar-me após o repasto. O vinho casto, sempre o mesmo com que celebrávamos essas noites, ia sem pressa dispondo-nos para a fartura da mesa.

Este ano contávamos com o Nogueira. Para ele será seu primeiro Natal na Corte. Não sei por que, mas, olhando-o agora, vi-o de repente sobranceiro, a tagarelar como nunca, a fazer-se homem à minha frente. Esta sua exaltação anunciando-me que sua presença na casa brevemente seria incômoda. Não quero molestar-me agora com tais problemas. São estas horas de alegria. A única pressa que vou tendo é dar o Natal por encerrado, sempre a pretexto do teatro. Naquela noite, Pastora teria os seios quentes como uma castanha.

Uma única vez pediu-me Conceição que a levasse à Missa do Galo. Contrariei-a então com a desculpa que o fausto da cerimônia constrangia-me. Mas, que tinha permissão para ali ir na companhia da mãe. Desagradada, não voltou mais ao assunto. Entre garfadas, Nogueira revela-nos o que sabe da Missa do Galo, julgada soberba pela presença de respeitáveis figuras do Império. A oportunidade parecia-lhe preciosa, quando lhe estaria assegurada nova temporada na Capital?

Nada lhe disse. A leitoa pururuca, sobre a toalha adamascada, soube-nos como nunca. Destrinchei-a com o gosto de conhecer-lhe a anatomia. Com que prazer fartaram-me as fatias douradas, rabanadas, corrigiu-me D. Inácia. Saboreei-as já pensando em Pastora.

– E pensa assisti-la desacompanhado? digo a Nogueira, enquanto Conceição lambe ainda a última iguaria. Tem apetite nesta noite, abusou até do vinho tinto. Quanto a mim, faltam-me quinze minutos para deixá-los.

– Estou ajustado com um vizinho. E, para tal, penso não dormir. Combinamos um encontro às onze e trinta.

– Previno ao primo, porém, que todas as missas se parecem. É a mesma missa da roça. E muito terá a esperar até a meia-noite. Não lhe farei companhia e os de casa têm por costume recolher-se cedo. Veja, aliás, como encontram-se já sonolentas. Há pois de guardar vigília sem perder a missa. Não vá cair no sono sem assisti-la. Faço agora questão de recolher suas impressões pela manhã.

Gomo folga-me a alma ir ao encontro da noite, tomar do seu perfume a vaticinar boa fortuna. Dentro da berlinda, hei de contar os minutos que me apartam de Pastora.

Nogueira sorri-me. Também ele nunca me vira a falar-lhe tanto. A confessar-lhe que, rapazola ainda, havia festejado a mesma missa com igual ânimo.

– Peço-lhes licença. Faz-se tarde agora. — Volto-me para Conceição, falo-lhe: —Não vai recolher-se, D. Conceição?—Adotávamos tratamento cerimonioso nas noites de minha ausência. Ela aquiesce com a cabeça, mal ouço-lhe a saudação. E já está a esgueirar-se pelo corredor, quando D. Inácia, que a segue sem ao menos haver-me dirigido um só olhar, volta-se a nós.

– Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo este tempo?

– Vou dedicar-me à leitura, D. Inácia.

Já com o volume nas mãos, tratava Nogueira de acomodar-se à mesa da sala de  jantar, trazendo a si o candeeiro de querosene

– Se não há mal em perguntar-lhe, primo, que é que vai ler até a sua Missa do Galo.

O primo levanta-se, acompanha-me à porta. Dá-me o beneplácito, sem esquecer de acrescentar:

– Leio Os Mosqueteiros.

Ah, belo rapaz esse Nogueira!

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