O marido sanguinário – Crônica de Nelson Rodrigues

By | 23/04/2021

No telefone, Glorinha dramatizou:

— Eu vou, ouviu? Eu vou, mas uma coisa eu quero que tu saibas: eu nunca traí o meu marido, nunca. É a primeira vez. Te juro pela vida dos meus dois filhos!

Do outro lado da linha, Eurilo admitia: — “Eu sei, meu anjo, claro. Nunca duvidei de ti”. Em seguida, dita o endereço: — “Toma nota, benzinho, toma nota. É rua tal, número tal, quase na esquina com Duvivier. Tomaste nota? Olha: quatro horas”.

Glorinha escreveu as indicações num papel. E Eurilo despedia-se:

— Um beijinho nessa boca.

Respondeu, por entre lágrimas:

— Pra ti também.

Desligado o telefone, Eurilo vira-se para o Miranda, seu companheiro de trabalho. Com os beiços trêmulos e o olho rútilo, anuncia:

— Está no papo. Não tem nem castigo.

O PRIMEIRO PECADO

Glorinha não mentia, nem exagerava. Desde que se casara, há cinco anos, jamais se permitira um olhar, um sorriso, que pudesse justificar uma dúvida, uma suspeita. Nas suas conversas com amigas, vizinhas, era taxativa: achava a infidelidade “o fim”. Pois bem. No quinto ano de casada conhece Eurilo numa fila de ônibus. Interessante é que, desde o primeiro momento, foi uma indefesa, uma derrotada diante desse homemquase belo. Antes de saber-lhe o nome, sentiu-se uma conquistada. Depois, viajaram, no ônibus apinhado, em pé, lado a lado, cada um na sua argola. Ele arriscou uma palavra, uma frase: ela, nervosíssima, respondeu. E bastou. Assim começou o romance.

Glorinha apertava a cabeça entre as mãos:

— “Sabe que eu estou admirada comigo mesma?”. Mas não admitia nenhuma intimidade material. Ou por outra: — admitia, quando muito, o beijo na mão, e só. Atônita diante da própria fragilidade, consolava-se ao pensar: — “Beijo na mão não é adultério”. E cada vez gostava mais de Eurilo. Ele, certo da própria força, começou a querer um encontro num interior. Glorinha horrorizou-se: — “Isola!”. Falava, porém, da boca para fora. No fundo, a idéia produzia nela um deslumbramento absoluto. Ele insistiu um dia, dois, três; dizia:

— “Olha, é um apartamento num edifício residencial, cheio de crianças”. Sugeriu a fórmula: — “Você entra e sai sozinha”. Objetou: — “E meu marido?”. Ele teve um protesto: — “Você só pensa no seu marido e em mim não, Parei contigo”. Glorinha soluçou no telefone:

— Vou, pronto. Não é isso que você quer? Vou.

O MARIDO

Ela compareceu, pontualmente, às quatro horas. Entre um beijo e outro, num delírio de carinho, confessou: — “Quando te vi, na fila de ônibus, eu senti que não amava meu marido, que não conhecia o amor”. Passaram toda a tarde numa felicidade de novela. No limite da noite, e quando Glorinha refazia a pintura, Eurilo lembra-se de perguntar:

— Que tal teu marido?

Vira-se:

— Uma fera!

— Mas fera como?

Glorinha suspira:

— Tem o pior gênio do mundo!

Eurilo apanha e acende um cigarro. Impressionado, insiste: — “Vem cá. Se teu marido descobrisse o nosso caso, faria o que, na tua opinião?”. Ela foi taxativa:

— Meu marido é capaz de matar, dar tiros, o diabo! Um caso sério!

Em pé, no meio do quarto, ele faz, com esforço, a blague:

— Quer dizer que eu estou arriscado a morrer como um passarinho, com um tiro na cara?

Glorinha, que já estava pronta, agarra-se a ele:

— Se tu morreres, valeu a pena, não valeu?

Pigarreou:

— Valeu, sim, valeu.

Apanhando a bolsa, Glorinha insiste:

— E te digo mais: eu não teria medo nenhum de morrer contigo!

MEDO

Esse marido desconhecido e sanguinário o impediu de dormir direito. Na manhã seguinte, no escritório, desabafa com o Miranda: — “Imagina tu: — eu, caçado a tiro, como um passarinho”. A imagem do passarinho não lhe saía da cabeça. O Miranda, que sofria de asma, que era um pessimista de fundo asmático, dramatizou:

— Abre o olho! Abre o olho! E queres um conselho? Um conselho batata?

— Quero.

Foi sumário, foi brutal:

— Chuta essa fulana! Mulher casada é espeto! Chuta enquanto é tempo!

Coçou a cabeça:

— O diabo é que eu tenho um rabicho tremendo pela pequena! — Baixa a voz e confidencia: — Gostosa pra chuchu!

O outro rosna:

— Então, lavo as minhas mãos. O máximo que posso fazer é mandar uma coroa vagabundérrima quando o marido te chumbar.

DRAMA

Mas o drama estava desencadeado. No medo do marido e na atração pela mulher, Eurilo esteve mais umas três ou quatro vezes com a garota no tal edifício residencial.

Até que, um dia, Glorinha, aninhada nos seus braços, suspira: — “Gosto tanto de ti, que se meu marido quiser me beijar eu não deixo, compreendeu? Não deixo”. Ele não entendeu: — “Não deixa como? Não é teu marido?”.

Falou:

— Não me interessa se é meu marido. O fato é que eu não traio você nem com meu marido!

Pálido, argumenta: — “Mas se você fizer isso ele vai perceber, vai desconfiar. Claro!”. Glorinha teve um rompante heróico: — “Se desconfiar, azar o dele! Não tenho medo de morrer, meu filho! Nenhum, nenhum!”. E gabou-se, feliz do próprio temperamento: — “Eu sou assim’”. Apavorado, Eurilo deu-lhe conselhos: — “Meu anjo, vamos agir com a cabeça. Nada de precipitações. Pra que, não é mesmo?”. Ela explode:

— Você acha o quê? Que eu, amando você, vou aceitar beijos de outro homem?

Nem por um decreto! E tu aceitarias isso? Responde! Aceitarias essa sociedade?

Gaguejou: — “Mas é teu marido!”. E ela, horrorizada: — “Oh, Eurilo!”. Ele é obrigado a reagir contra o próprio pânico:

— Claro que eu não aceitaria a sociedade, evidente! Em todo o caso, cuidado!

EXPLOSÃO

O pior aconteceu, três ou quatro dias depois. Glorinha chega e anuncia: — “Deuse a melódia!”.

Eurilo ergueu-se, em câmera lenta:

— “Como?”. A pequena resume:

— Eu sou mulher de um homem só. Te avisei, não avisei? Que não admitia sociedade? Pois é. Deixei uma carta para meu marido, contando tudinho, e vim pra ficar.

Estupefato, Eurilo, que estava sentado, ergueu-se: — “Contou tudo como? Você está louca? Bebeu? Quer que teu marido me dê um tiro? Fala! Queres?”. Estendia as mãos crispadas para Glorinha; e tinha, no seu pavor, um esgar de choro. Ela fez espírito: — “Mas não é possível! Você está com medo?”. Eurilo teve a confissão heróica:

— Claro! Estou com medo, sim! Medo! Tu sabes o que é medo, sabes? —

Sentou-se, tiritando: — Vou morrer, meu Deus! Vou levar um tiro!

Levantou-se, correu à porta, torceu a chave. Andava de um lado para outro, numa alucinação: — “Não saio mais daqui! Vou ficar aqui, como num túmulo!”. E, de fato, durante três dias, encerrou-se no apartamento. Na sua abjeta pusilanimidade não escovava os dentes, não fazia a barba. Passava os minutos, as horas, implorando à menina: — “Volta pra teu marido! Volta!”. Glorinha resistia a princípio, com medo de represálias. Mas cansou-se de ver aquela covardia ululante: — “Você não é homem,
nem nada!”.

Acabou voltando para o lar. Levava, na alma, o tédio, o enjôo, o nojo do pecado. Mas o marido, ao vê-la, esbravejou:— Ah, ele te mandou de volta? Mandou? Cachorro! Quarenta minutos depois, o marido entrava no apartamento do Eurilo, levando a mulher pela mão. Eurilo encostou-se à parede, chorando. O fulano espetou-lhe o dedo na cara:

— Não aceito devolução! Ou tu ficas com minha mulher, ou eu te dou um tiro na boca. Escolhe!

Eurilo caiu, de joelhos, num choro ignóbil: — “Fico, sim, fico!”. O outro saiu dali assoviando, feliz da vida.

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