O que conta a filha de outro psicólogo ilustre do Recife – Gilberto Freyre

By | 16/11/2023

O Recife talvez deva ser considerado, neste nosso vasto Brasil, a cidade por excelência dos bons psicólogos. Aqui Ulisses Pernambucano de Melo foi um dos pioneiros, no Brasil, de serviços de orientação profissional segundo técnicas psicológicas modernas; do ensino científico da psicologia; do estudo psicológico das chamadas “seitas africanas”; o fundador, com amigo especializado em estudos de antropologia e de sociologia, de toda uma escola brasileira de psiquiatria social: a primeira no nosso país. Aqui Sílvio Rabelo realizou, quando professor da Escola Normal, estudos igualmente pioneiros de psicologia da criança. Aqui Renê Ribeiro, Gonçalves Fernandes, Valdemar Valente, vêm realizando estudos de repercussão, além de nacional, internacional, sobre aspectos psicossociais do comportamento de brasileiros da região, de origens etnoculturais africanas, ainda apegados a crenças e costumes africanos, negro- africanos, islâmicos.

Para realizarem esses estudos, eles e outros pesquisadores viveram em íntimo contacto com babalorixás, com ialorixás, e com adeptos pretos, mestiços e brancos das chamadas religiões afro-brasileiras. Religiões ou cultos, alguns deles, ainda florescentes no Nordeste, onde também os estudou o professor Roger Bastide, hoje da Sorbonne; e onde os veio conhecer — no terreiro de babalorixá Mariano, que visitou na minha companhia, permanecendo uma noite inteira até o dia seguinte, em observação participante — o famoso psicólogo Sargant, de Londres: o autor do mais notável livro que se conhece sobre brain washing.

O maior dos babalorixás do Recife, no último meio século, não há dificuldade alguma em concordar-se que foi o chamado pai Adão. Pai Adão do Fundão. Da minha parte, posso dizer que o tive entre os melhores amigos da minha mocidade recifense. Recebia-me na sua casa como pessoa da família: ele que tanto se esquivava a estranhos. Estudara, pode-se dizer que teologia, em Lagos. Era um sincero místico. Sabia nagô: tinha alguma coisa de erudito. Mas nada de considerar-se negro brasileiro: o que se considerava era brasileiro. Brasileiríssimo é o que sempre foi o babalorixá Adão. Brasileiríssimo, pernambucaníssimo, recifencíssimo.

Dele também se aproximou, quando muito jovem, para estudos psicológicos da seita imensa que Adão comandava com a dignidade, a autenticidade, a sinceridade na fé que hoje faltam, no Brasil e noutros países, a tantos prelados católicos, o agora consagrado mestre na sua especialidade que é o professor A. Gonçalves Fernandes. No início de sua carreira, o hoje provecto Gonçalves Fernandes aceitou convite, que lhe veio da Paraíba, para ali exercer, por algum tempo, funções de psiquiatra e de mestre de psicologia. Separou-se do Recife. Interrompeu seus estudos psicológicos de assuntos recifenses. Distanciou-se do babalorixá Adão.

Conta sua filha, então pequena, Pompéia — hoje esposa do sociólogo Renato Campos, autor de tão boas páginas sobre as seitas protestantes na zona canavieira de Pernambuco e chefe da divisão de sociologia do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais — que, certa vez, o pai mostrou-se de repente impressionado com um “aviso” estranho que recebera por meio que, cientificamente, não sabia explicar: pai Adão morrera. Seu amigo pai Adão falecera. Horas depois chegaram à Paraíba os jornais do Recife: pai Adão morrera!

Aliás, “aviso” semelhante teria, não no Recife velho, mas no de hoje, certo casal recifense, com quem, de Salvador, desejara comunicar-se inutilmente por telefone, já à noite, o famoso escritor inglês, experimentado em métodos sobrenormais indianos, de comunicação, Aldous Huxley. Uma luz estranha apareceu ao casal. Na manhã seguinte surgiu-lhes em pessoa Aldous Huxley, contando quanto procurara comunicar-se com eles.

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