O revólver da paixão – Conto de Nélida Piñon

Eu sei que errei, mas não me deixe agora. Eu protestei contra o que me parecia sua culpa. Você me olhou afiando os olhos no meu rosto. Me senti retalhada, diferente das vezes em que me cortou e não sofri. Bem ao contrário, a carne me sorria, eu deixava que você me tivesse, porque a carne era a minha alma.

Por favor, compreenda o meu ciúme, é ele, voraz e nervoso, que me proíbe liberar o teu corpo para os corpos inimigos. E aconselha- me a matar-te. Mas, matar com cuidado de ourives traçando mil desenhos em tua carne para que mesmo morto deixes o mundo enfeitado com o meu estigma.

Meu Deus, sei que prometi controlar-me. Não te seguir mais. Deixar-te livre para a vida. Mas, que vida é esta que você reclama onde eu não ocupo a melhor porção? Gomo podes pensar que agüento vê-lo tragando vida com chope, sem que eu passe pela tua boca, te beije, te lamba, e você sorria ligado à terra, porque sou o teu húmus, o teu esperma, eu sou o teu membro, eu sou você.

Não, não reclame, você me quer assim mesmo, ainda que selvagem eu te cause medo, ameace a tua liberdade. Ou me querias selvagem só na cama? E no espaço da vida me exigias atada por tuas próprias mãos? Mas, eu me rebelo. Ou serás só meu, ou te mato. Não, eu não quero te matar, como haveria de viver sem a tua alegria, o modo como despertas jovem e jubilado. Eu te tomo nos braços, sou tão ansiosa, tão perdida na própria paixão. Você brinca comigo, diz que não tomo jeito, mas você está povoado de orgulho do mesmo modo como te povôo de lendas. Eu te enfeito com histórias que ninguém, senão eu, li em você. Você se sabe o poema que farei amanhã, a palavra que perderei no futuro se me escapas agora. Não te autorizo a deixar-me. Ouviu o que eu disse? Não te dou licença de passear pela terra, de ter um futuro em que eu não esteja inteira.

Ah, meu corpo amado, eu te desejo. E te desejo mais do que perdermo-nos no leito que vem sendo nosso há dois anos. Uma agonia que recolho com a minha boca e mastigo com os meus dentes. Eu te mastigo, eu te como, eu te rasgo como você me rasga, me grita, me ama. Às vezes, penso que você me ama fraco, que o teu corpo é menos vigoroso que o meu. O meu se aprimora pelo próprio amor. É o amor que me faz vencer as madrugadas, te cobrar mais amor que já não queres dar, estás exausto, derrubado, fraco, senil. Não, erga-te, amor, e me cubra toda, quero você me soçobrando, eu sou uma mina africana, há que ir ao fundo, apalpar no escuro a sua riqueza, coçar a sua aflição, sentir medo. Medo das minhas trevas, pavor dos meus pelos, temor do meu suor e da minha fragrância.

Vamos, seu covarde, volte depressa. Não quero mais perder o espetáculo desse amor que diariamente me derruba, porque é desse jeito que mastigo da sua comida. E se agora te escrevo, é para que me escutes, e não te penses livre. Porque onde venhas a estar, irei atrás. Meu corpo identifica o teu cheiro, acre-doce pela manhã. Quantas vezes te lavei o sexo e você se deixou acariciar como se fosse meu dever rejuvenescer-te a cada dia, quem melhor que as minhas sagradas mãos conhecem o teu segredo, as palpitações da tua carne, o modo firme e cego com que se ergue e vem a mim. Não te creias livre, a vida não é tua. A tua vida é minha porque me perdi em ti, em cada palavra que disseste e me conquistou.

De nada serve que me poupes agora verdades cruas, só porque me pensas incapaz de abrigá-las. Se queres proclamar que não me amas mais, eu ouvirei. Ouvirei aos gritos, de tal modo gritarei que cada palavra destinada a mim crerás dita por mim a ti. Te sentirás perdido, abandonado, sem o meu amor. Experimentarás na própria carne a perda do amor único, único porque é único no único instante em que se está vivendo. E te jogarás sobre o leito, e nu, esplêndido, me atrairás dizendo, não queres novamente ser minha, acaso sobreviverás sem o gozo que é a única viagem atlântica que se vive e nos naufraga? Esquecido, porém, de que você sim é o barco carecendo das águas, e que sou a água em que mergulharás sem rota, sem mapa, pois não há mapa para o amor, amor.

Não sabes então que me amas, amas muito mais que podes saber? Amas mesmo sem o socorro da tua consciência. E, se não me amas com a paixão do meu amor, te ensinarei novamente a amar- me. Não te peço tempo, dias, horas. Sou mulher das longas estações. Serei verão quando exigires calor. Não, não rias. Não me venhas a cobrar teorias feministas. Tenho-as prontas para a vida, recém- começo a dominar um vocabulário que antes era só de tua lavra. E que mais pode oferecer-me uma ideologia senão o direito de perder-me no desvario e cobrar o amor que sei meu. Por favor, ceda-me o teu tempo. Ceda-me o teu corpo novamente. No leito, ou na natureza crua. Ou no bar em que estiveres agora. Onde eu chegando logo faríamos amor com o meu olhar de espinho. Amor se faz na esquina, a multidão dispersa em torno. Eu não te amo só com o ímpeto da carne. Também te quero com a minha boca distante, falando, te enunciando, pronunciando o teu nome. Teu nome é meu ato de amor. Teu nome é o espasmo de que padece o meu sexo.

Ah, amor, errei ontem à noite. Mas, de que serve confessar o arrependimento, se só me arrependo para te distrair e ter-te novamente? Se logo errarei outra vez, e um próximo dia me verá enlouquecida com a tua possível perda. E então não medirei palavras, não controlarei a violência do meu corpo quando ameaçado. A verdade é que a tua perda me ameaça. A tua perda é uma sentença de morte: Morte que não suporto, não permito. Teu dever é amar-me, é continuar na minha cama, na minha vida, na minha memória. Na memória que projeta teus mil retratos tirados ao longo da vida que nos atou com cordas e arame.

Sei que repeles estas confissões que cobram um calendário vencido, sem cais e âncora a que te agarrar. Mas hei de falar enquanto os meus soluços te proclamem. És meu prisioneiro como sou a masmorra em que estou mergulhada pela força do bem-querer. Que digo, bem-querer? Ah, amado, eu já te quis na primeira noite. Não tens o direito de esquecer, ainda que não me queiras reproduzindo os arrebatos que talvez hoje já não sintas. Mas, eu não sou apenas memória, também sou a dispersão. Pois sempre que relembro as noites sucedidas sem fim, desfaço-as de modo a crer que não existiram. Isto é, não existiram porque foram insuficientes, aqui estou a exigir outras noites que nos regalaremos logo superada a amargura que nos separa agora.

Você me beijou no ouvido, lembra-se? Tua língua me falava sem som, cada palavra em silêncio era o trabalho da tua língua revelando a verdadeira linguagem do homem. Talvez o que eu relate agora só esteja inventariando a minha vida, e não a tua. Não queres mais saber do próprio corpo que se conheceu em mim até o amanhecer. Me proíbes dizer que a vida te chegou porque também a vida chegava em mim. Mas, por que não aceitas que me amas, que me queres perder por despeito, por conta da minha arrogância, só porque pro- clamo o teu amor sem medir as conseqüências, porque atraso a tua vida com explicações que te atormentam, porque antes mesmo que me digas o quanto me amas já estou aos teus pés dizendo primeiro que sou quem te ama melhor e mais forte.

Por favor, jure que voltarás, empenhe a tua honra que serás meu e de mais ninguém. Se me negas o pedido eu me vingo, abro minhas pernas para o teu inimigo, convidarei o desafeto a comer minhas carnes com garfo e faca e que divulgue entre amigos, e perto da tua consciência, o sabor de sal da minha pele e como o meu suor arrasta ainda o teu cheiro.

Não me julgues louca, julgues-me apenas capaz de lutar pela tua volta. Empenho toda a terra nesta disputa, empenho o meu futuro, e o teu também. O que eu fizer, hás de fazer junto. Tenho ódio em mim bastante para nós dois, e se tenho amor bastante para nós dois, não quero que seja assim. O meu amor que é tanto e sufoca-me exige o teu para nutrir-se do próprio exagero. Eu te amarei até o fim da minha vida. E a minha vida, amor, será curta se não voltares. Será tão curta que terás medo. Pois nunca saberás se me mato, se te mato, se aniquilo os dois na mesma rodada de bebida.

E não adianta fugir, em algum lugar eu te alcanço. De nada serve ir para São Paulo. Simular uma ida a Petrópolis, enquanto te refugias na Bahia. Meus cães perdigueiros sempre te encontraram. Terminavas rindo mesmo com o coração cheio de pedregulhos e galhos ariscos. Me dizias: a tua loucura é a semente mais saudável do teu corpo. Ríamos juntos e riremos muito ainda, eu te prometo.

Escreva-me logo, mesmo que não estejas em casa ao chegar esta carta. Escreva-me de onde estiveres, porque onde quer que estejas a minha falta deve doer-te a ponto de já estares vindo ao meu encontro, ou de tomares da caneta e escrever as palavras certas. Se não quiseres pensar muito, diga como da outra vez, tenho tuas palavras em fogo no meu coração: eu te amei com o fervor das grandes estações humanas, eu te amei com a contorção da morte, amei com o medo de perder-te, mas permita-me agora amar-te com o impulso da vida selvagem, desregrada, sem outro modelo que o do próprio amor.

O bilhete guardei grudado ao peito durante muito tempo. Você protestava, que ridículo, desfaça-se dele, ao menos esconda-o em lugar que não padeça deste teu calor de loba faminta. Mas, eu sou a tua loba, eu te disse rindo para que não me levasses a sério. De nada servia enganar-te. Sempre temeste a minha fome. Uma fome que me levava a dar-te dentadas, a deslizar pelo teu corpo quente quando já estavas morto, sem arrebato, e eu ainda o queria agonizante. Bastou-me, porém, suspeitar que me traías com um olhar destinado a outra, para arrancar do seio o bilhete e comê-lo à tua frente, diante dos teus amigos, só para te humilhar.

Você tratou de distrair a todos. Pediu-me, por favor, não lutemos numa arena que não é nossa. Só aceito combate no quarto que consagrou o nosso amor. As palavras foram ao coração. Você é sempre covarde quando me vê destemida. Me suborna para que eu me apazigúe. E lance a corda com que te resgatar dos vendavais, salvar- te para o destino da paixão. Sei, sim, que te assusto, insinuas que faço da cama o princípio e o fim da vida, e que o teu corpo é o evangelho sobre o qual se constroem as palavras habitadas em mim pela primeira vez. Se é assim, tome-me como sou. Transija com a minha volúpia. Aceite viver com uma mulher perdida no pecado de amar. Ah, hás de dizer, até você fala em pecado? Sim, falo, cometo, vivo, devoro, e quero. O que tem você com isso? Pecado é a tua boca, o teu sexo, o teu peito, os teus pelos, a testa franzida quando vais gritar de gozo. O que querias, que jamais tivesse enxergado o teu rosto quando me amas, só porque, perdida de amor, devia estar ocupada com o próprio prazer?

Ingênuo, tolo, amante amado, que se perde em mim com a mesma inconseqüência com que já se perdeu em outras. É tão fácil assim o teu prazer, e o compras assim tão leviano só porque ele te vem farto, sem outro sacrifício que a perda de certa energia? Te odeio e te condeno ao inferno. Não te quero mais ver, não me venhas mais à porta, ajoelhado e trazendo migalhas de pão entre os dedos.

E devolva-me os bilhetes que te enviei quando o meu corpo es- vaziava-se pela tua ausência. Só não me devolvas, por favor, o amor que me tens ainda. Porque sei que me amas. Ama mais que sabes. E se não sabes, aqui estou para te recordar. Nunca mais hás de ser de outra mulher. Não ousarás ocupar-te com outra a ponto de não levantares da mesa a minha entrada, dar-me o braço e juntos sairmos logo que eu emita os meus sinais.

Lembra-te do que disse um dia? Hás de ser meu ató não saberes mais amar, até que envelhecido teu corpo já não responda à memória do nosso amor, pois ainda assim sigo ao teu lado te amando, te fazendo recordar com minúcias o arrebato que ambos provamos, o sal jogado sobre os nossos corpos para exalarem aquela essência que nos volatizava mas também nos prendia à terra, para vivermos com a carne um ritual iluminado, nossas peles cobertas de folhas, musgos e aranhas.

Ah, amado, volte depressa, antes que outras cartas te persigam, e fique a vida difícil para nós. Ou será que para gente da nossa raça a vida é sempre agreste, arcaica, perplexa, diante das premências do próprio amor? Amar é um dos rostos da nossa gente. Você me disse e eu acreditei. Amar, sim, tem o gosto da maré, o tempo da maré, amar é estar onde a maré ainda não se encontra enquanto cumpre a sua agonia repartida entre as diferentes re- giões do oceano.

Volte, porque te espero. E se voltares, que fiques sempre comigo. Não prometo comportar-me a ponto de que vivas o amor com suavidade. Não sou amena, mas estou viva, viva para te enlaçar, ir tão fundo no teu corpo para que fechando os olhos suspiremos de modo a que não me ouças, de modo a que também eu, com a minha voracidade, não possa com um só golpe invadir o teu enigma. Amanhã te escreverei, de novo capítulo ante o meu amor.

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