O sobrado da rua de São José – Gilberto Freyre

By | 11/04/2024

Na rua de São José, bairro do Recife, houve um prédio de dois andares, por muitos anos apontado pelo povo como casa mal-assombrada. Mas assombrações, por algum tempo, quase de opere-ta. Tanto que a casa esteve quase sempre ocupada.

As famílias não demoravam no sobrado, é certo. Algumas não passaram nele mais de uma semana. E houve quem abandonasse o prédio às carreiras, deixando os móveis, os trastes, os baús, com medo de ver de novo visagens. Mas sem que essas visagens fossem das terríveis, que fazem desmaiar as pessoas mais dengosas.

Um dos últimos inquilinos do prédio, nos seus dias de casa mal- assombrada, foi Antônio Leitão, que o ocupou só por quatro dias. Tendo subido para o sobrado numa terça-feira com a esposa, dois filhos e duas criadas, trastes, baús, gaiola de papagaio, na sexta já o desocupava às pressas.

Motivo? As assombrações. “Desde o dia em que fui morar no sobrado, não sosseguei. Nem eu nem a mulher nem os filhos nem as negras. Durante o dia assobios dentro da casa toda. À noite, grandes baques, como de pianos de cauda virando de pernas para o ar, era um pagode: correntes arrastadas pelo soalho, as portas se abrindo, apesar de estarem fechadas com o ferrolho e chave. Eis portanto a razão da minha retirada tão apressada do sobrado.” Palavras de Leitão a um vizinho, que em 1929 foi ouvido pelo repórter policial d’A província no inquérito que organizei no velho jornal sobre casas mal-assombradas da cidade.

Depois de Leitão, ocupou o sobrado ninguém menos que um repórter policial. Casa mal-assombrada? Era com ele, sherloque por vocação e profissão. De modo que quando o proprietário do sobrado lealmente o advertiu: “Olhe, seu Fulano, o prédio tem fantasma”, o jornalista gracejou. Que não temia fantasmas: seu receio era do aluguel, que fosse muito alto. Gracejava com o assunto; e estava certo de que, uma vez ferrado no sono, alma-do-outro-mundo nenhuma conseguiria acordá-lo antes do sol alto.

“Por isso, não, as chaves são suas”, disse o proprietário do sobrado ao pretendente. “O aluguel é de 50 mil-réis mensais.” Aluguel de pai a filho, tratando-se de casa sólida e com muitos cômodos. Quase um palácio enobrecido pelo tempo. Mesmo naqueles dias era pechincha.

O sobrado foi alugado pelo sherloque com entusiasmo. Chegando à redação do jornal onde trabalhava, gabou-se o homenzinho diante dos companheiros: ia ocupar um prédio que era quase um palácio. Onde? À rua de São José. Como isto era possível, ganhando ele tão pouco? Porque o sobrado era mal-assombrado. E acrescentou para espanto dos rapazes supersticiosos: “Vou morar nesse prédio para retirar dali o dinheiro que dizem estar enterrado.”

Preparou os móveis e tratou da mudança. Dentro de alguns dias era senhor do tal palácio de dois andares.

Na primeira noite balançaram-lhe a rede. Ouviu assovios. Baques. Móveis espatifando-se no chão. Repórter policial, pensou policialmente: deve ser gente. Pensando que estava com ladrões em casa, levantou-se, acendeu o candeeiro e correu todo o sobrado com a luz de querosene na mão.

Tudo em ordem. Nenhum móvel fora do lugar. Nenhuma porta ou janela aberta. Nenhum gato atrás de rato. Nenhum morcego. Nenhuma coruja.

Voltou para a rede. Mas quando se aproximava da sala da frente, deram- lhe um sopro forte no candeeiro, que se apagou. Não gostou da brincadeira. Mas como não era nenhum bestalhão, continuou a rondar a casa, a procurar seu mistério com olhos de policial e gana de jornalista.

Aceso de novo o candeeiro, de novo o apagaram com outro sopro. O repórter insistiu. Quis acender o candeeiro pela terceira vez mas não o conseguiu: todos os fósforos que riscava apagavam-se.

Deitou-se então na rede e no escuro. Mas não pôde conciliar o sono. Os baques no sobrado continuavam cada vez mais fortes: pareciam paredes caindo e não apenas móveis se descolando como nas assombraçõezinhas de opereta. Assim era demais. O prédio parecia ter aumentado de mistério só para desmoralizar o sherloque arrogante e quebrar-lhe o roço.

Quando o dia amanheceu, deu o repórter graças a Deus. Mas ficou na casa. Não era um burguês qualquer que se mudasse de uma casa cômoda por causa de assombrações.

Mas na segunda noite a coisa foi pior. Jogaram areia na rede em que ele estava deitado. Sentiu puxarem-lhe o lençol e os próprios pés. Era como se zumbis terrivelmente zombeteiros povoassem a casa.

Ainda assim o repórter persistiu. E dormiu no sobrado terceira noite.

Desta vez as cordas da rede partiram-se e o bravo foi jogado ao soalho como uma bola de carne: tim-bum! Não suportou novos insultos de um inimigo que não conseguia ver. Apenas amanheceu o dia, tratou de deixar o sobrado misterioso. À tarde mandou buscar os trastes. E ficou acreditando em mal- assombrados. Em casas velhas onde vagavam almas-do-outro-mundo. Em zumbis inimigos de quem fosse lhes perturbar a solidão, sabido que é vezo dos zumbis vagar no interior de casarões ermos a horas mortas.

Essa experiência, comunicou-a o bom repórter a Oscar Melo, quando esse também repórter policial, a serviço d’A província, colaborou comigo no inquérito que em 1929 organizou o velho jornal sobre assombrações do Recife antigo. Recordando a aventura do companheiro, disse-me então Oscar: “Não era homem de inventar coisas.”

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