O sorvete é um palácio – Conto de Nélida Piñon

É uma exaltação nova esta de agora. Desmancha os nervos e me deixa terna. Logo eu que perdi a vida entre risos nervosos. Aqui estou a estremecer, mas sem ir ao chão buscar ciscos, segurança, falsas emoções. Serei ingrata com a vida só porque quero afastar os galhos que desequilibram uma árvore solitária?

Ah, como a memória é uma carícia fugaz. Confundo datas, acontecimentos, e as raras mãos que pousaram em meu rosto. De quem era mesmo a mão que me fez sofrer quando se afastou? Tudo parece irmão do vento. A verdade é que jamais identifiquei os meus pertences nesta imensa herança sem nome que é a terra.

Na praia, provei do sal e da alegria. Esquecida do espelho a proclamar que a carne não é mais um sortilégio para as mulheres de minha idade. Mas, por que deveria eu assustar-me com o tempo, este calendário desprezível. Que compromissos tenho com ele? Desço os degraus com a mesma contrição de quando ainda estava a subir. Talvez o pai responda por tal desprendimento. Instigou-me desde pequena a enfeitar as estrelas, e não é nossa missão na terra adornar com volúpia e açúcar-cande este bolo que nos foi legado?

Sou de Câncer, e não de Capricórnio. Nos meus aniversários, o pai ia-me ao coração com um corte de seda comprado na Casa Gebara, que eu logo esfregava contra o rosto. Nenhuma pele jamais se igualou ao fio do bicho-da-seda. Ele me queria sorrindo antes do café quente. E quando vinham os convidados eles se abrigavam sob o telhado de lágrimas e júbilo de nossa casa. Tínhamos quintal e mangueiras frondosas.

Os solteiros mereciam atenção que o pai fingia dissimular. Passava por eles algumas vezes antes de recordar seus nomes. Escondia a ansiedade junto ao guaraná e à cerveja afundados no fundo do tanque, entre o gelo recoberto de jornal. Aos domingos, treinava o discurso destinado ao pretendente que chegasse primeiro. E me dizia, nunca se sabe o que a vida vai exigir de nós, a qualquer momento me pedem a sua mão e junto seguirá o seu destino.

Só depois de muitos aniversários percebeu que ainda não se havia marcado data para ele levar-me ao altar. Com a dignidade ferida pela longa espera, passou a dizer às visitas que não tinham motivos para ficar, a menos que quisessem muito. Já não escovava o terno escuro com o ímpeto de antes e engordou.

Mas este homem é diferente. Me trouxe o sobressalto, tenho o coração entre os dentes. E não que seja bonito, ou jovem. Suas pernas intrépidas trotam como um cavalo árabe pelas areias de Copacabana. E seu pudor resguarda as intimidades do corpo dentro do calção largo por não querer ferir o olhar alheio com as próprias exuberâncias. Mas, de que exuberâncias estou a falar, meu Deus? E que parte do seu corpo poderia ferir-me se me chegasse com amor? Sua vida aflora a todo instante sem prova de esgotamento. Seguramente o ditame do seu coração é de colher flores da areia povoada de banhistas.

Ao seu lado, não sinto medo. A própria vida fortaleceu-se desde que o vi pela primeira vez nesta manhã. Adivinhou-me os sonhos, enxergou nas minhas pupilas o deserto, as dunas, os xeques, a his- tória da minha vida. E assegurou-me pelo olhar que, embora nós dois atados ao Brasil, não havíamos perdido o direito de inventar outros continentes sob as asas do amor.

Foi com voz delicada que me consultou, preciso de dinheiro para a minha pequena indústria, quer ser minha sócia? O seu pedido intuía a minha carência, e que eu o seguiria em noite enluarada. A plenitude do mar estava ao meu alcance, apesar dos bichos de areia afligirem o meu sexo e eu não ter como socorrê-lo. Não quero que ele me julgue sem pudor, uma mulher de prendas desoladas, nada tendo a defender. Não, meu coração é teimoso, jamais deixou de apurar-se só porque lhe faltou o afeto.

Sem dúvida, é um homem modesto, mas seu caráter é de tijolo rubro. Seu olhar estimula- me a misturar à mostarda do cachorro- quente um pouco de aventura. Para que, ao visitar o passado, eu possa preenchê-lo de mentiras. Ou deixar a terra por instantes, sempre que queira. Tudo nele insinua que acompanha firme e contente a fantasia, do mesmo modo que vai à cozinha e sorve de um só golpe o café da xícara.

Com sua ajuda, estou-me dando conta das vezes que fui ao passado, e que o medo não me deixou chamá-lo deste modo. Quem sabe não o terei visitado todas as manhãs, de onde emergi unicamente para transitar livre pelo presente, a que cheguei sempre com algumas horas de atraso. E me pergunto se terá sido bom, ou terei por isto perdido as melhores horas da festa.

Recompensou-me os devaneios abrindo o seu peito. Por ali passeava-se como por uma avenida sem fim. Vi-lhe o coração, as artérias que o pranto e os anos distenderam, tudo que havia dentro eu vi. Os três filhos na escola pública, a mulher a acusá-lo de haver escolhido uma vida sem esperança. De nada servindo que ele lhe prometesse o dia de amanhã com uma casa enfeitada de flores.

Diante do espelho, a mulher ia contando os cabelos que lhe caíam em excesso, do mesmo modo como sua dor ia ao chão em queixumes. Encolhida nos trens da Leopoldina, ela responsabilizava-o pela humilhação sofrida em qualquer parte que fosse. O Brasil era um látego para ela. Ser pobre aqui é despojar-se de nome, alcunha, de qualquer apelido que nos redima na hora da morte. Sua alma trajava-se de negro. Irritado, ele dava-lhe as costas, o que quer ainda, mulher, que eu passe a roubar?

Bastava-lhe atravessar o túnel, em direção a Copacabana, para perder a família. Como se pisasse o paraíso. Tudo abrigava os seus sonhos. Os rostos afogueados e a areia em fogo. Sentia-se o deus de tridente na mão nascendo entre espumas. De volta a casa, dava- se conta dos encargos. A cara da mulher denunciava a realidade. Mas que realidade é esta que ela não enfeita e obriga-me a carregar nas costas como um contrapeso de alcatra? É bem verdade que a casa pequena mal comportava os móveis feios. Não tinham cortina dessas pintadas onde os olhos descobrem ramagem, nervuras das folhas de uma primavera promissora. A mulher extraía- lhe o brilho do rosto destilando indiferença ainda que o visse mudando de roupa, a querer um gesto de carimbo. Jamais passou a mão pelo seu pijama listrado, antigo orgulho seu. Foi comprado nos áureos tempos da Ducal. E quando me deito, ela se põe de pé. Pareciam combinados. Para não se esbarrarem. Nenhum relógio os surpreendia agora no leito. Sua confissão me provocava lágrimas. De que beleza era capaz. Isto de dizer as coisas de modo a que não se afundem no chão, antes fiquem na superfície c possam ser vistas para sempre.

Não é feliz, ousei perguntar. Sou feliz como pode ser um homem que fabrica c vende sorvete na praia de Copacabana. Ah, Copacabana, também o pai e eu, contrariando a vontade da mãe, exultamos quando da nossa última viagem de trem. Nunca mais voltaríamos ao subúrbio, lar de toda uma família. Eu não me conformava em vir a Copacabana e logo ter que voltar, deixando atrás as marcas do sonho. Pensava o tempo todo, um dia venho e nunca mais saio daqui. E me alimentarei exclusivamente de ilusões e mistérios que nos estão a faltar à mesa de jantar. Como eu, o pai mergulhou no mesmo sonho. E juntos, muitos anos depois, decidimos abdicar da casa tangida pelas memórias, em troca do apartamento reduzido. Só que a vida em Copacabana entrava pela boca em doses incontroláveis, e não eram nossas as bocas que se alimentavam desta vida.

Quis tomar sua mão, provar-lhe que aquela geografia do Rio conquistava-se a duras penas. E que ao confessar seu fracasso irmanávamos como membros da mesma família. E não se tratava do fracasso que extrai penas e pêlos do corpo, e mergulha-nos no soluço. Ou que decepa cada metade da hora que nos cabe viver. Não, jamais perdêramos o direito de pisar com os dois pés o próximo domingo. A felicidade anunciava-se sempre que deixássemos para amanhã o que não se pudera viver na doçura de um dia chuvoso. O nosso fracasso aconselhava- nos a não gritarmos com a intensidade que nos teria, quem sabe, aliviado para sempre.

Pergunto-me, às vezes, se o pai vivesse me estaria aplaudindo. Talvez creditasse minha complacência às novelas a que assisto, todas arrastando para dentro da sala a vida alheia, que é tudo que ambiciono. Por que será que prefiro viver a vida do outro que a minha própria? Acaso não há no mundo uma só alma capaz de ocupar-se dos próprios interesses e aliviar-se? Ou viver será transferir para o outro o que c nosso por direito. E esta é a essência das novelas, o único capítulo possível da existência. Assim  o esplêndido domingo de uma vida que a Janete Glair melhor que ninguém descreveria.

Ele ameaçou despedir-se. Esgotara-se o estoque de sorvete naquele dia. Seu problema era fabricar e escoar o produto ao mesmo tempo, contando com dois empregados apenas. Logo que melhorasse, ou confiasse na humanidade, arrumaria um sócio. E olhou- me suplicante. Mas, eu empenhava-me unicamente em não convertê-lo em mais uma lembrança. Ambicionava prolongar aquele instante por toda a vida, ainda que através de um esforço penoso. Afinal, uma vida se organiza mesmo de modo precário, não obedece a regras. Assim, se eu lhe estendesse a mão, ele ficaria. E nunca em troca de uma imagem que me humilhasse. Queria ele pensando, que mulher fina, dá gosto apreciar.

Só quando me senti familiarizada com a areia, e graças a ele que me ensinara seus encantos, perguntei, não está com fome? A luz dos seus olhos estimulou-me a prosseguir, a vida está tão cara, melhor que venha a minha casa para um lanche. Embora não fôssemos contar com o pai e a mãe desaparecidos nos últimos anos. Eles teriam sido os primeiros a aprovar um novo amigo à mesa.

Aceitou com uma cara límpida, sem riso safado. Ah, cu não teria suportado, Deus sabe que não quero falsas aflições, mas um homem capaz de interpretar meus sentimentos, serei acaso a última flor do lácio?

O lar para mim é terra sagrada, onde tudo se molda ao nosso gosto e afeição. Esta porta deve escancarar-se unicamente aos que se dizem solidários com a causa humana. E já não será ele um amigo de casca fina fortalecida pelo sol de Copacabana? Sim, eis um homem que se recusaria a fazer meu corpo vibrar à custa da minha alma ofendida. E não me terá finalmente chegado o momento de sorver o fundo da taça sem temer os efeitos do seu veneno?

Às vezes, procuro descobrir a exata medida do sonho. E se seria eu capaz de indicar com quantos centímetros arma-se uma ilusão de modo a que seja hexagonal, que é farta e duradoura. Não sei com quantos sonhos entreti-me desde a infância. O pai corrigia-me, não se devem acumular sonhos com a mesma cobiça com que os outros reservam moedas de ouro. Jamais me acusou de o ter privado dos netos. Cuidava da minha solidão acrescentando-lhe esperanças, ain- da que a mãe lamentasse meu desprestígio através de bufadas com cheiro de alho e dentifrício.

Só que agora era diferente. Havia encontrado um homem perdido no deserto, arrastava as pernas pelas trilhas abertas por outros banhistas e ainda assim mantinha-se gentil, seguia-me pelas ruas sem ao menos indagar quem eu era, se vivia em apartamento próprio, para melhor avaliar minhas riquezas, e não me apalpava o braço a pretexto de socorrer-me.

Apenas escolheu a poltrona do pai. Antes de morrer, o pai havia confessado, lamento abandonar a poltrona onde durante anos me iludi com a Monarquia. E esta frase não me definiu sua vida, ou traduziu- lhe os sentimentos. O que teria querido dizer exatamente? De repente, na poltrona do pai, o homem me esclarecia que o pai jamais aderira à causa monarquista, pois nunca dera vivas ao Imperador, quando nada lhe impedia. Simplesmente havia ansiado pelo poder que os da casa não lhe asseguraram e de que não quis privar-se em sonhos.

Precisou o sorveteiro aquecer a poltrona com o seu corpo popular para afinal eu exaltar a ordem natural das coisas. E sem a qual, quer no exílio, ou em outro sistema constituído, eu não seria feliz, ou poderia aplaudir o instinto do homem instalado na poltrona do pai que não se prestava apenas para ler jornais, repousar, mas especialmente para experimentar o inefável sentimento do poder.

Prefere um cafezinho, ou suco de maracujá? Tão concentrado em si mesmo, ele não fazia ruído. Antes eu tivesse mandado pintar a cozinha, já a descascar. Por ali não se poderia passear a descobrir as delícias de um país estrangeiro. Estávamos mesmo cingidos ao Brasil, prisioneiros desta imensa nação. Mas, por que será que estou sempre pendente do país alheio, da paisagem remota, do rosto na calçada contrária. Serei eu mesma o tempo todo?

Contrário a mim, ele é sólido. É o próprio retrato a qualquer instante. Mesmo distraído. Se de repente eu lhe tocasse na campainha da vida, estou certa, ele mesmo responderia à porta. Então, ele se basta tanto a ponto de proibir que um outro se aposse dele?

Está bom de açúcar? Ensinado pela mãe a ter boas maneiras, seu dedo mindinho parecia a alça de uma xícara. A pobreza fortalecera-lhe a educação. Mesmo em Copacabana, ambos éramos bem- educados. E bebendo depois o suco, disse, parece maracujá da minha infância, muita água e açúcar campista. É, sim, nasci em Campos. Aplaudi-lhe o nascimento numa cidade cortada ao meio por um rio fiel. É comum na Europa as cidades divididas em duas, uma margem pobre, uma outra próspera.

Também você deixou fugir pelos dedos este tempo áureo? Ele olhou-me sem entender, o rosto embaçado. Quis-lhe explicar, sou rara como os frutos dos trópicos. Mas a confissão mais ainda me perderia. Eu era quem armava a vida com palitos de fósforo. E podia ser amiga porque o coração abrigava mel e deixava-se cortar em dois. O mundo eu levava para casa como um pedaço de bolo, cada palavra querendo dizer justamente o contrário. E terei por isto mesmo ficado solteira?

De nada servia desculpar-me. Pressentia outros estragos. Se quisesse desfrutar do calor daquela poltrona, o homem teria que se acostumar. Ele acenou a cabeça, consentia que à minha idade eu fosse feliz. Escolhi a poltrona da mãe, a três metros da sua. O pai e a mãe impuseram entre eles aquela distância. No corredor da casa, ambos conversavam sem apostar no futuro. Eu apreciava aqueles amantes que por recato escondiam o prazer vivido em certas datas. Com que discrição não lhes rangera o colchão!

A timidez do homem insinuava uma paixão concentrada no sorvete que suas mãos construíam diariamente, o sabor frio desfazendo-se na língua solitária. Descrevia um sorvete como os palácios marroquinos dos filmes de Maria Montez. Todos de mil volutas embaralhando a compreensão geral. Havia inúmeras portas que vencer até o trono real. Ambos visitávamos a África do Norte, a muçulmana, cujas narrativas excedem a um ano. Para contá-las, há que ter a vida nas mãos.

Servia-se da baunilha, do chocolate, do rubro morango como areia molhada a deslizar pelos dedos. No espaço armava torres, agulhas, flechas de todos os feitios. E porque falava da própria criação, que é um espinho no coração, a doce transparência do sorvete me fazia sofrer. Ah, meu Deus, com que direito a tudo dou uma imagem contrária ao que vejo, não me bastando a vida como realisticamente apresenta-se. Sou grosseira e rude ao atribuir-lhe formas que ela rejeita, não está no corpo da vida abrasar-se com semelhantes engenhos. Mas, não será o sorveteiro uma realidade a que posso dar crédito real? E tendo ele estado aqui, à minha frente, não reforça assim o meu pensamento, que é toda a aparência do meu desejo, ou simplesmente o caramelo que o enfeita?

Você mesmo constrói os seus sorvetes? Lá me escapou a pergunta mortal. De novo feria os humildes. Quem sabe ele deixaria a casa sem tempo de ajoelhar-me à sua frente pedindo, por favor, perdoe a minha poesia, tudo é você em palavras que eu te devolvo. Eu respeitava aquele arquiteto a erguer um mundo frágil pela força da sua vontade. A lidar com formas que o calor desfazia. E se eu lhe dizia construir, é porque pensava no Niemeyer, que também sonhara com sorvete.

Confessou-me não saber viver longe do mar. Sentia-se um caçador de pérolas obrigado a viver na terra, para quem o sorvete era a doce lembrança de uma corrente marítima. Disse-me, trato o sorvete com cortesia, especialmente quando uso tintura para reforçar a palidez da fruta. No dia em que não faça mais uma criança sorrir, vou vender abacaxi na feira. Já pensou se também nós tivéssemos a casca vergonhosa e briguenta do abacaxi?

Quis-lhe dizer, quem sabe nos amaríamos não fosse pelo medo de quebrarmo-nos como um cristal? Quando ele gritaria, não repita esta blasfêmia, acaso desconhece o valor de uma pele delicada e lisa? Mas ele distraía-se como se a pele humana dispensasse reparo, existia só o sofrimento da carne. Apegou-se mais à poltrona, ora falando dos filhos, ora do provisório amortecimento dos dedos provocado pela temperatura do frigorífico.

Da mulher, falava devagar. Há muito não se encontravam em uma esquina onde, entre abraços, descobririam uma casa comum aos dois. Só falta a gente se separar, ele disse. E me pareceu que confessava eu te amo. Eu suava, como suportar sozinha o encontro com a felicidade. Mas logo o meu coração envergonhou-se de uma alegria que não se proclamava de modo a ele ouvir-lhe o alvoroço, o eco de uma esperança.

Aquele amor podia ferir-me, ou fazer-me feliz para sempre. Se vivesse, o pai me abraçaria por aquela estima outonal. Embora dirigida a um homem que vendia um produto julgado menos nobre.

Pai, ele é um criador, pensei comovida. Meu Deus, o que será do Brasil se lhe roubam o imaginário?

Senti uma aragem, o pai assoprando-me, concentre-se apenas no bolo nupcial que a faça feliz. Ofereci-lhe mais café e biscoitos, queria-o livre para abandonar a poltrona. Ele resistia, ensinava-me que antes do júbilo exporíamos nossos padecimentos no meio da sala?

O sol o calcinara, e eu o refrescava como nenhuma outra mão antes o fizera. Descrevia- me a rivalidade entre os passageiros da Leopoldina e os da Central do Brasil disputando as sobras à foice e martelo. Um dia, muito próximo, lutariam pelos trilhos do trem, pelos vagões de aço cuspindo fogo e gente. Falava com sentimento de honra. Nos torneios medievais sobretudo vingavam-se tais afrontas. Tive vontade de chorar diante de um homem com alma de mulher. E que por isso combinava baunilha com chocolate. Ah, os irmãos Grimm que de tudo faziam açúcar. Grimm, não, Monteiro Lobato, corrigi com arrebatado ufanismo.

Sorveu outro cafezinho com ruídos de um beijo sôfrego. Então é isto paixão, consultei, e a resposta amoleceu as minhas coxas protegidas pela saída de praia. Temi que vendo a minha aflição ele provasse o quanto o amor, acima mesmo da esperança, exigia nada menos que as raízes descascadas de uma árvore, a verdade ferida de um retrato antigo. Como que me recomendava imobilidade, o gesto contido, logo a mim que ouvia encantada a sua história que unicamente pretendia confessar que a partir daquela data meu destino era a felicidade ao seu lado.

Feria-me a força da vida. Ah, se o pai e a mãe testemunhassem a aflição do prazer que afasta de nós os outros mortais. Quando virá novamente? disse para que me soubesse à sua espera. O sorvete era a alma do homem que eu ia amando. Mesmo que se derretesse, sua habilidade reconstituiria a forma perdida. Eu jamais o livraria de uma imaginação que lhe ensinara a lidar com a transparência de um sorvete.

Nervoso, ele andava pela sala. Talvez me quisesse amar ali mesmo. Parecia um perdigueiro cujo coração tinha as batidas do trote. Também eu me inquietava. De que modo agiria um homem acostumado a criar um mundo apenas com água, açúcar, leite, frutas, essências raras? Este homem era a hora da madrugada quando meu peito sobressaltado compreendia o alvorecer. Seus atos tão claros que eu o vazava com uma lança, da sua carne não sairiam o vinagre e o sal que ferem. Quase gritei, mate-me a sede com o sorvete das suas mãos de fada.

Ofereci-lhe, no entanto, a poltrona da mãe, substituindo-o na do pai. Quem sabe nossos corpos na troca não nos seguiriam, e, na poltrona do pai, eu usufruiria do seu arrebato. Deste modo amando-me ali mesmo, eu a pedir-lhe cuidados, ele fazendo-me ver que o vasto e inexplorado corpo da mulher também produzia morango, pistache, êxtase e seus cremes. E não é assim que se encanta ela com o próprio corpo? E quando o seu amor sempre rigoroso me fizesse sofrer, eu aconselharia prudência até habituar-me à dor de ser amada.

Enquanto pensava na dor de ser amada, ele descreveria a sua mulher para eu entender que a luz de tais palavras difamava a escuridão do corpo da companheira. Os olhos brilhantes, eu me via assaltada pelo prazer de sua confissão. Excitava-me que corrompesse a mulher com a verdade, e confessasse que ainda a suportava pelos filhos e pelas vezes em que tomaram sorvete juntos na praça, e pago com as moedas do seu capricho e da sua tenacidade.

A mulher sempre o recriminou por gastar dinheiro com bobagens. Ele defendia-se, que outra ilusão lhes restava? Ela recusou- lhe a mão, ele pedia que fizessem as pazes, afinal haviam fabricado, mais que a memória do sorvete e do pão diário, os três filhos. Ali estavam eles provando o quanto seus corpos agitaram-se na cama, embora sufocassem os gemidos do amor áspero e condenado pelos vagões da Leopoldina.

Eu quis gritar, não me fale mais desta mulher. Ele voltava à família, ao sorvete, sua vocação de artista. Aos domingos, estou sempre na geral, sou um geraldino. Insinuava-se escravo dos apetites, capaz de perder-se na carne e na paixão futebolística. Não queria transferir-me de modo grosseiro a carga de um amor impossível. Aías, por que impossível, se a partir daquela tarde não haveria um só dia sem a sua sombra, sem a memória do ontem, tudo que me ajudasse a recuperar o tempo perdido. E suas mãos encantadas dariam relevo às protuberâncias do meu corpo do modo como trabalhavam o sorvete com a pá de madeira. E não seria ele capaz de resgatar a beleza de um dorso, o reflexo de um púbis dourado?

Ele pediu desculpas, era tarde, não podia mais ficar. Precisava enfrentar o trem da Leopoldina, ali se congregavam os irmãos menores de uma ordem pobre. Desenhava um mapa cheio de acidentes. Havia cascatas, rios, perigos, talvez para assim eu oferecer-lhe a chave da porta, antes da chave do meu corpo. Voltei do quarto com moedas e notas, tome um táxi desta vez, fique também com esta chave, sempre esteve no chaveiro do pai.

Dei-lhe a mão, amanhã seria meu de novo. Hoje ainda dormiria com a mulher. Sua última viagem pelos trilhos da Leopoldina. Só mesmo a timidez o impedira de confessar que eu era o sorvete a que adicionaria baunilha, amora, todas as volúpias. Seguramente a memória que buscava com a mesma avidez com que se destrói sem querer um vaso de cristal. Nada, porém, impediria que viesse de novo a mim, me tomasse nos braços, me lambesse devagar até o desfalecimento. Ainda que tenha esquecido a chave sobre o aparador da sala e precise apertar a campainha da porta. Eu o ouvirei a qualquer hora. Quase nunca saio.

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