O único negro do Brasil – Crônica de Nelson Rodrigues

By | 19/07/2021

É um túmulo que dorme não sei onde. Talvez na Alema­nha, talvez na Áustria. Mas não importa a terra. O que importa é a solidão da palavra. Lá está escrito: — “Rosa, pura contradi­ção / Volúpia de ser o sono de ninguém / Sob tantas pálpebras”. E o epitáfio que Rainer Maria Rilke teceu para si mesmo.

Tantas pálpebras, rosa, sono de ninguém, volúpia, ainda ro­sa. Passaria horas invertendo, trocando, repetindo, destruindo as palavras. Mas publiquei o epitáfio por uma pura e desespera­da alegria auditiva. Na verdade, eu não queria falar de Rilke, nem da rosa, mas do puro negro brasileiro.

Eis o caso: — recebi, ontem, a visita de Abdias do Nasci­mento. Quando escrevo sobre ele, digo: — “o único preto do Brasil”. Parece uma piada, e talvez o seja. Já me referi, várias vezes, ao espanto de Sartre quando esteve no Brasil.

Ele fez, aqui, não sei quantas conferências. E, numa das ve­zes, caiu um toró medonho. Era o que eu chamo (e aqui repito a imagem) um mau tempo de 5º ato do Rigoletto. Parecia, sim, uma tempestade de ópera, com relâmpagos de curto-circuito e trovões de orquestra. Apesar disso, não faltou ninguém. No meio da conferência uma goteira começou a pingar na platéia. Ninguém arredou pé. (Descrevo as condições meteorológicas para caracterizar o sucesso.)

Ao terminar a palestra, Sartre não se conteve e fez a per­gunta, irritado: — “E os negros? Onde estão os negros?”. O fi­lósofo só tivera, até então, uma platéia louríssima, alvíssima, sar­denta e de olho azul. Podia perguntar, e tinha razão de pergun­tar: — “E os negros? Onde estão os negros?”. Perto de Sartre, um brasileiro cochichou para outro brasileiro: — “Os negros estão por aí assaltando algum chauffeur!”.

A mesma pergunta podia ser repetida, de brasileiro em brasileiro. Quem olha os nossos presidentes, ministros, arquitetos, escritores, mímicos, veterinários e palhaços, há de querer sa­ber, como Sartre, onde estão os negros, os nossos negros. Ou­tro dia, fiz esta súbita e singela constatação: — “Não há um pa­lhaço negro”. E, se aparecer um, será apenas um e desabará so­bre ele uma solidão jamais concebida.

Não me falem de Rebouças. Um Rebouças é um escândalo, assim como a “mulher barbada”. Eis a nossa paisagem: — os cargos estão aí, as funções estão aí, as estátuas estão aí, e não vejo os negros. Ninguém esculpe um negro. Ninguém põe um negro montado num cavalo de bronze. As casacas estão aí e não vejo negros de casaca. E os negros que foram para a História estão lá humilhados e ofendidos.

Mas contava eu que o Abdias do Nascimento veio me ver. Entrou, por coincidência, numa hora para mim sagrada: — a do mingau. Como já disse, vivo a adular minha úlcera com leite e papinhas. Saio com o amigo e vamos para o Cabaré dos Ban­didos, que funciona ali na esquina de Mem de Sá com Tenente Possolo. Peço o mingau; o Abdias, um Guaraná e uma empada. E ele começa a falar.

Eis o que queria o único negro do Brasil: — que se fizesse um movimento contra a África do Sul. A princípio não entendi, e ele explica. Várias nações que participam das próximas Olim­píadas ensaiavam um protesto contra a admissão da África do Sul. E por quê? Claro. Por ser a única terra onde o mais bestial racismo está perfeita e cinicamente institucionalizado. Achavam alguns que seria uma vergonha a presença de tal país na comu­nidade olímpica.

E Abdias queria que o Brasil se juntasse aos que protestam. Uma terra de tantos negros não podia aceitar e competir com os deslavados racistas, Deixei o amigo falar. Mas sei que se trata de um movimento inteiramente inócuo ou, por outra, puramen­te retórico. Ninguém sairá das Olimpíadas por solidariedade aos negros da África do Sul. Eis a verdade: — o único preto que nos comove é o norte-americano, porque serve ao ódio contra os Estados Unidos.

Quando o Abdias acabou, eu o desiludi cruelmente: — “Não conte com o Brasil, não conte com o brasileiro”. Ninguém aqui fará nada por negro nenhum, a não ser, repito, pelo norte-americano, e como uma maneira de agredir os Estados Unidos. Mas há entre nós e o crioulo da África do Sul uma distância infinita, milenar. Digo”distância” não geográfica, mas emocional, espi­ritual, ética ou que outro nome tenha.

Abdias reage com um argumento numérico: — “Somos não sei quantos milhões!”. No meu espanto, digo: — “Abdias, só há um negro, que é você mesmo. Não milhões, você, Abdias, só você”. Tive de explicar-lhe que era ele o único negro com plena, violenta, trágica, consciência racial. Era um negro exul­tante de o ser. A cor era a sua perene embriaguez.

Disse-lhe: — “Quer que eu escreva? Contra a África do Sul? Escrevo”. Apontei uma mesa adiante: — “Subo naquela mesa e darei um morra à África do Sul”. E meu berro será o único, e não arrastará um único e escasso idiota. Abdias me ouvia só, e atônito. Continuei. Disse-lhe: — “No Brasil, o bran­co não gosta do preto; e o preto também não gosta do preto”.

Contei-lhe que, na véspera, apanhei um táxi, depois do ser­viço. O motorista era um crioulão jucundo, um riso forte, abaritonado, de Paul Robeson. Veio conversando comigo. Como ele trabalhava de noite, falei dos assaltos. O preto riu, feroz: “Pra crioulo, não paro. De noite, preto não entra no meu carro”. E ele próprio era um negro total, de ventas esplêndidas, enormes lábios africanos.

Claro que todos nós falamos em democracia racial. Gilber­to Freyre afirma que somos uma democracia racial. Mas está de pé a pergunta de Sartre: — “E os negros? Onde estão os ne­gros?”. Realmente, ninguém é negro, a não ser o Abdias do Nas­cimento. (Apareceu outra negra confessa: — a cantora Maria d’Aparecida. Há, portanto, dois negros no Brasil.) Mas a Carolina de Jesus é uma Maria Antonieta.

Não há na Terra ninguém mais só do que o nosso preto. Um esquimó tem a companhia de meia dúzia de outros esqui­mós. Mas a solidão do negro brasileiro não tem nem a compa­nhia do próprio negro.

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