O ursinho, não – Crônica de Moacyr Scliar

By | 19/07/2022

“Partos de meninas aumentam 81% no Rio: bichos de pelúcia escoltam barrigas.”
Cotidiano, 29 set. 1998

Um dia depois que a menina completou 10 anos, a mãe desconfiou de alguma coisa e resolveu levá-la ao médico. Abraçada ao urso de pelúcia que tinha ganho de aniversário – um ursinho barato; a mãe, faxineira, não tinha dinheiro para presentes sofisticados – a garota se recusava a ir. Finalmente, e depois de levar uns trancos, concordou. Com uma condição:

– O ursinho tem de ir comigo. Ele é o meu filho querido.

Foram ao posto de saúde. O médico não teve a menor dificuldade em fazer o diagnóstico: a garota estava com três meses de gravidez. A mãe ouviu a notícia em silêncio. No fundo, não esperava outra coisa. Essa havia sido também a sua história e a história de suas irmãs e de muitas outras mulheres pobres. Limitou-se a pegar a garota pela mão e levou-a para fora.

Sentaram num banco da praça, em frente ao posto de saúde, e ali ficaram algum tempo, a mulher quieta, a menina embalando o ursinho de pelúcia e cantando baixinho. Finalmente, a inevitável pergunta:

– Quem foi?

A garota disse um nome qualquer. Provavelmente era um dos muitos garotos da vila onde moravam. Chance de assumir a paternidade? Nenhuma. Tudo com ela, a mãe. E foi o que disse à menina:

– Você vai ter esse filho, e eu vou criar ele como se fosse seu irmãozinho. Você entendeu? A garota fez que sim, com a cabeça.

– E você vai ajudar?

Nova afirmativa. E aí ela fitou a mãe, os olhos cheios de lágrimas:

– Mas o ursinho eu não dou pra ele, mãe. O ursinho é só meu. É o meu filhinho, ninguém me tira.

– Está bem – disse a mãe. – O ursinho é só seu.

Levantaram-se, foram para casa, a menina sempre abraçada ao ursinho. Que exibia o eterno e fixo sorriso dos bichos de pelúcia.

447 Visualizações