O velho Suassuna pedindo missa? – Gilberto Freyre

O casarão que foi do velho Suassuna — do visconde velho, não do barão novo — ainda hoje está de pé, no Pombal, embora desfigurado em fábrica com brasão mas fábrica.

Conheci-o há vinte e tantos anos, quando ainda era sobrado grande em começo de ruína. Ainda com o ar de residência patriarcal ou de casa senhoril: casa de família rica do tempo da escravidão. Com muitos dos móveis do velho fidalgo — um dos quais, vasto banco patriarcal, de vinhático, hoje me pertence — guarnecendo as salas, os corredores, os quartos. Com a capela ainda adornada de santos velhos e quase sem dourado. Com o sobejo ou ruína da cocheira ainda saudosa do seu cabriolé de lanternas de prata.

Quis alguém dar-me aquele resto de santos. Recusei. Advertido, anos depois, em Lisboa, pelo bom e sábio mineiro Augusto Viana do Castelo, de que é arriscado trazer-se para casa santo ou santa de altar de igreja velha, pois, em geral, “dá azar” à casa, lembrei-me de que sempre me repugnara retirar, mesmo de altar abandonado, um santo ou uma santa antiga, como se santo ou santa de igreja fosse souvenir de turista. E não carne da carne da igreja, enquanto vivo ou ainda moribundo o templo.

O que aceitei como lembrança da capela do casarão ainda patriarcal do visconde de Suassuna, como presente do meu querido Pedro Paranhos, foi o sino, que meu irmão e eu armamos à porta de entrada da nossa casa de solteiros, chamada o Carrapixo, perto da Casa-Forte. Sino que, mais tarde, ofereci a meus amigos Maria do Carmo e José Tomás Nabuco para que em sua casa do alto de Icatu, no Rio de Janeiro, continuasse a vibrar um velho sino de casa pernambucana: do solar de Pombal.

Mas o que desejo lembrar a propósito do casarão do Pombal é que no ano já remoto em que o conheci tinha fama de mal-assombrado. Dizia-se que pelos corredores da casa e pelos restos de jardim outrora opulento e, segundo os inimigos do visconde, de terras fecundadas não só com suor como também com sangue de negro, costumava vagar um fantasma de velho alto e muito branco: a alma do próprio visconde a pedir perdão a escravos que maltratara. Também a pedir missas. Missas para sua pobre alma de rico arrependido dos pecados contra os negros. Chegava a visagem a fazer sinal com os dedos para indicar com precisão matemática aos vivos o número de missas que desejava fossem mandadas dizer por sua alma pela pessoa a quem aparecesse: três, quatro, às vezes cinco missas. Para cinco missas abria a mão direita em leque: velha mão muito branca, branquíssima mesmo, não só de fidalgo velho como de fantasma quase britânico na sua discrição.

Dizem-me que, desfigurada a casa em fábrica e desaparecidos os restos do jardim, o fantasma de velho de branco — tão branco a ponto de parecer todo ele um lençol que andasse sozinho — passou a surgir em casas das imediações. Garantiu-me um médico ilustre e homem fleugmático, o dr. R. C, que a pessoa de seu íntimo conhecimento, moradora no Pombal, o velho misterioso apareceu certo dia, com toda sua brancura de neve, pedindo com os dedos, longos e finos, três missas. Três. Nem mais nem menos do que três.

É tradição que o visconde de Suassuna, patriarca duramente ortodoxo, justiçava ele próprio os escravos da casa do Pombal. Açoites, torturas, a própria morte, à revelia da justiça do Império. Os mortos eram, contra a lei, enterrados no próprio jardim, para fecundarem as terras de onde, na verdade, rebentavam as mais belas rosas do Recife. Gostando de pastoris, o visconde gostava também de oferecer às pastoras rosas como não houvesse iguais na cidade. Rosas avermelhadas a sangue de negro.

Talvez seja tudo invenção de algum inimigo do visconde. Invenção de inimigo que tenha se tornado lenda e, como lenda, chegado até nós. Talvez exagero: porque uma vez — quem sabe? — o senhor de Pombal tivesse mandado enterrar no jardim o cadáver de um negro da casa — escravo de estimação — como se faz com animal mais querido ou bicho mais chorado — espalhou-se a lenda de que o jardim inteiro era um cemitério de negros justiçados pelo visconde. De que o velho era um malvadão, que gostasse de fazer mal a cabras-machos e não apenas a passivas molecas.

De qualquer modo a crença, que ainda recolhi em torno da casa-grande do sítio do Pombal, foi esta: a de que o visconde em vida, homem tão senhoril, aparecia nas noites de escuro para pedir humilde e cavalheirescamente perdão aos antigos escravos; e não apenas missas aos cristãos piedosos. Missas para a própria e inquieta alma de pecador arrependido.

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