O visconde encantado – Gilberto Freyre

No fim do governo Estácio Coimbra, foi esperado toda uma noite no Recife — esperado até de madrugada, até o dia seguinte, durante uma semana, um mês — o visconde de Saint-Roman. Partira de Paris em vôo direto ao Recife. Ele sozinho: sem acompanhante. Era um romântico e um bravo. Um visconde de romance de capa-e-espada tornado aviador moderno na primeira fase heróica da aviação.

Um vôo transatlântico era então uma aventura. Alguma coisa de épico. Tinham-no realizado, por etapas, chegando festivamente ao Recife, vindos de Lisboa, os portugueses Sacadura Cabral e Gago Coutinho. Depois deles, em vôo da Espanha ao Brasil, chegou ao Recife Ramón Franco. O espanhol Ramón Franco.

O visconde de Saint-Roman decidiu que também um francês realizaria a façanha de chegar da França ao Recife, em vôo ousado de Paris. Foi a aventura anunciada pelos jornais. O governo do estado de Pernambuco teve comunicação do vôo a realizar-se por um amigo de Saint-Roman residente no Recife: o pernambucano afrancesado Horácio de Aquino Fonseca.

Horácio de Aquino Fonseca hospedaria o visconde heróico. Para isto preparou com esmero aposentos na sua Vila Jeanne-D’Arc: o visconde teria no Recife honras de príncipe.

Deveria chegar perto de dez da noite. Meia-noite o mais tardar. Daí os Aquino Fonseca terem preparado um ceia que seria um acontecimento da vida do Recife. Perus, leitões, bifes. Cavala per-na-de-moça. Lagosta, pitu, camarão. Doces, pudins, bolos brasileiros. Champanha é claro que francesa. Vinhos finos. Licores. Conhaque também francês. Frutas: uma opulência de frutas tropicais.

Desde oito horas que alguns de nós estávamos no campo do Encanta- Moça onde deveria descer o visconde no seu mágico tapete voador. Às dez horas, nada de aparecer avião. Nem às onze horas. Nem à meia-noite. Foi havendo um frio de desânimo junto com um ardor de inquietação entre o grupo de brasileiros e franceses que esperavam Saint-Roman. Os Aquino Fonseca eram naturalmente os mais aflitos. Teria acontecido algum desastre ao seu admirável amigo?

Desânimo e inquietação foram aumentando com a madrugada. Amanhecemos no campo de Encanta-Moça já temerosos de que o visconde se encantara no mar. Quem sabia, porém, o que lhe sucedera de fato? Talvez tivesse por erro ido parar a outro ponto da costa brasileira, sem ter atinado com as luzes do Recife. Daí esperanças que se prolongaram durante dias e dias.

Já quase mortas essas esperanças, o governador Estácio de Albuquerque Coimbra recebeu da velha mãe de Saint-Roman comovente carta. Fora ela a uma sessão de espiritismo em Paris e aí lhe fora dito que o filho estava vivo: descera em matas tropicais de Pernambuco.

Para atender ao clamor da mãe francesa, o governador do estado de Pernambuco ordenou novas buscas em áreas pernambucanas que pudessem ser descritas como de florestas: na verdade, de restos de grandes matas. De fantasmas de matas. Tudo em vão. Em parte alguma, nem de Pernambuco nem do Brasil, encontrou-se traço sequer do desventurado visconde e do seu avião. O espírito se enganara: o visconde caíra não em matas tropicais do Brasil mas em águas do Atlântico. Caíra no mar sem ter conseguido chegar ao Recife.

Entretanto há recifenses que juram já terem ouvido, em noites altas e de muito silêncio, misteriosos roncos de um avião fantasma que não desce nunca:

volta ao mar. Será o do visconde encantado?

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