Os irmãos Dagobé – Conto de Guimarães Rosa

By | 09/10/2021

Enorne desgraça. Estava-se no velório de Damastor Dagobé, o mais velho dos quatro irmãos, absolutamente facínoras. A casa não era pequena; mas nela mal cabiam os que vinham fazer quarto. Todos preferiam ficar perto do defunto, todos temiam mais ou menos os três vivos.

Demos, os Dagobés, gente que não prestava. Viviam em estreita desunião, sem mulher em lar, sem mais parentes, sob a chefia despótica do recém-finado. Este fora o grande pior, o cabeça, ferrabrás e mestre, que botara na obrigação da ruim fama os mais moços — “os meninos”, segundo seu rude dizer.

Agora, porém, durante que morto, em não-tais condições, deixava de oferecer perigo, possuindo — no aceso das velas, no entre algumas flores — só aquela careta sem-querer, o queixo de piranha, o nariz todo torto e seu inventário de maldades. Debaixo das vistas dos três em luto, devia-se- lhe contudo guardar ainda acatamento, convinha.

Serviam-se, vez em quando, café, cachaça-queimada, pipocas, assim aos-usos. Soava um vozeio simples, baixo, dos grupos de pessoas, pelos escuros ou no foco das lamparinas e lampiões. Lá fora, a noite fechada; tinha chovido um pouco.

Raro, um falava mais forte, e súbito se moderava, e compungia-se, acordando de seu descuido.

Enfim, igual ao igual, a cerimônia, à moda de lá. Mas tudo tinha um ar de espantoso.

Eis que eis: um lagalhé pacifico e honesto, chamado Liojorge, estimado de todos, fora quem enviara Damastor Dagobé para o sem-fim dos mortos. O Dagobé, sem sabida razão, ameaçara de cortar-lhe as orelhas. Daí, quando o viu, avançara nele, com punhal e ponta; mas o quieto do rapaz, que arranjara uma garrucha, despejou-lhe o tiro no centro dos peitos, por cima do coração. Até aí, viveu o Telles.

Depois do que muito sucedeu, porém, espantavam-se de que os irmãos não tivessem obrado a vingança. Em vez, apressaram-se de armar velório e enterro. E era mesmo estranho.

Tanto mais que aquele pobre Liojorge permanecia ainda no arraial, solitário em casa, resignado já ao péssimo, sem ânimo de nenhum movimento.

Aquilo podia-se entender? Eles, os Dagobés sobre-vivos, faziam as devidas honras, serenos, e, até, sem folia mas com a alguma alegria. Derval, o caçula, principalmente, se mexia, social, tão diligente, para os que chegavam ou estavam: — “Desculpe os maus tratos…”

Doricão, agora o mais velho, mostrava-se já solene sucessor de Damastor, como ele corpulento, entre leonino e muar, o mesmo maxilar avançado e os olhinhos nos venenos; olhava para o alto, com especial compostura, pronunciava: — “Deus há-de o ter!” E o do meio, Dismundo, formoso homem, punha uma devoção sentimental, sustída, no ver o corpo na mesa: — “meu bom irmão…”

Com efeito, o finado, tão sordidamente avaro, ou mais, quanto mandão e cruel, sabia-se que havia deixado boa quantia de dinheiro, em notas, em caixa.

Se assim, qual nada: a ninguém enganavam. Sabiam o até— que- ponto, o que ainda não estavamfazendo. Aquilo era quando as onças. mais logo. Só queriam ir por partes, nada de açodados, tal sua não rapidez.

Sangue por sangue; mas, por uma noite, umas horas, enquanto honravam o falecido, podiam suspender as armas, no falso fiar.

Depois do cemitério, sim, pegavam o Liojorge, com ele terminavam. Sendo o que se comentava, aos cantos, sem ócio de língua e lábios, num sussurruído, nas tantas perturbações. Pelo que, aqueles Dagobés brutos só de assomos, as treitefitos, também, de guardar brasas em pote, e s chefes de tudo, não iam deixar uma paga em paz: se via que estavam de tenção feita. Por isso mesmo, era que não conseguiam disfarçar o certo solerte contentamento, perto de rir.

Saboreavam já o sangrar. Sempre, a cada podido momento, em sutil tornavam a juntar-se, num vão de janela, no miúdo confabulejo. Bebiam.

Nunca um dos três se distanciava dos outros: o que era, que se acautelavam? E a eles se chegava, vez pós vez, algum comparecente, mais compadre, mais confioso — trazia notícias, segredava.

O assombrável! Iam-se e vinham-se, no estiar da noite, e o que tratavam no propor, era só a respeito do rapaz Liojorge, criminal de legítima defesa, por mão de quem o Dagobé Damastor fizera passagem daqui. Sabia-se já do que, entre os velantes; sempre alguém, a pouco e pouco, passava palavra. O Liojorge, sozinho em sua morada, sem companheiros, se doidava? Decerto, não tinha a experiência de se aproveitar para escapar, o que não adiantava — fosse aonde fosse, cedo os três o agarravam. Inútil resistir, inútil fugir, inútil tudo. Devia de estar em o se agachar, ver-se em amarelas: por lá, borrufado de medo, sem meios, sem valor, sem armas. Já era alma para sufrágios!

E, não é que, no ento…

Só uma primeira idéia. Com que, alguém, que de lá vindo voltando, aos donos do morto ia dar informação, a substância deste recado. Que o rapaz Liojorge, ousado lavrador, afiançava que não tinha querido matar irmão de cidadão cristão nenhum, puxara só o gatilho no derradelro do instante, por dever de se livrar, por destinos de desastre! Que matara com respeito. E que, por coragem de prova, estava disposto a se apresentar, desarmado, ali peraúte, dar a fé de vir, pessoalmente, para declarar sua forte falta de culpa, caso tivessem lealdade.

O pálido pasmo. Se caso que já se viu? De medo, esse Liojorge doidara, já estava sentenciado.

Tivesse a meia coragem? Viesse: pular da frigideira para as brasas.

E em fato até de arrepios — o quanto tanto se sabia — que, presente o matador, torna a botar sangue o matado!

Tempos, estes. E era que, no Lugar, ali nem havia autoridade. A gente espiava os Dagobés, aqueles três pestanejares. Só: — “Dei’stá…” — o Dismundo dizia. O Derval: — “Se esteja a gosto!” — hospedoso, a casa honrava. Severo, em si, enorme o Doricão. Só fez não dizer. Subiu na seriedade. De receio, os circunstantes tomavam mais cachaça-queimada. Tinha caído outra chuva, O prazo de um velório, às vezes, parece muito dilatado.

Mal acabaram de ouvir. Suspendeu-se o indaguejar. Outros embaixadores chegavam.

Queriam conciliar as pazes, ou pôr urgência na maldade? A estúrdia proposição! A qual era: que o Liojorge se oferecia, para ajudar a carregar o caixao… Ouviu-se bem? Um doido — e as três feras loucas; o que já havia, não bastava?

O que ninguém acreditava: tomou a ordem de palavra o Doricão, com um gesto destemperado. Falou indiferentemente, dilatavam-se-lhe os frios olhos. Então, que sim, viesse — disse depois do caixão fechado. A tramada situação. A gente vê o inesperado.

Se e se? A gente ia ver, à espera.

Com os soturnos pesos nos corações; um certo espalhado susto, pelo menos. Eram horas precárias. E despontou devagar o dia. Já manhã. O defunto fedia um pouco. Arre.

Sem cena, fechou-se o caixão, sem graças. O caixão, de longa tampa.

Olhavam com ódio os Dagobés — fosse ódio do Liojorge. Suposto isto, cochichava-se. Rumor geral, o lugubrulho: — “Já que já, ele vem…” — e outras concisas palavras. De fato, chegava. Tinha-se de arregalar em par os olhos. Alto, o moço Liojorge, varrido de todo o atinar. Não era animosamente, nem sendo por afrontar. Seria assim de alma entregue, umahumildade mortal. Dirigiu-se aos três: — “Com Jesus!” — ele, com firmeza. E? — aí Derval, Dismundo e Doricão — o qual o demônio em modo humano. Só falou o quase: — “Hum… Ah!”

Que coisa.

Houve o pegar para carregar: três homens de cada lado. O Liojorge pegasse na alça, à frente, da banda esquerda — indicaram. E o enquadravam os Dagobés, de ódio em torno. Então, foi saindo o cortejo, terminado o interminável. Sortido assim, ramo de gente, uma pequena multidão. Toda a rua enlameada. Os abelhudos mais adiante, os prudentes na retaguarda.

Catava-se o chão com o olhar. A frente de tudo, o caixão, com as vacilações naturais. E os perversos Dagobés. E o Liojorge, ladeado.
O importante enterro. Caminhava-se.

No pé-tintim, mui de passo.

Naquele entremeamento, todos, em cochicho ou silêncio, se entendiam, com fome deperguntidade. O Liojorge, esse, sem escape. Tinha de fazer bem a sua parte: ter as orelhas baixadas. O valente, sem retorno. Feito um criado. O caixão parecia pesado. Os três Dagobés, armados.

Capazes de qualquer supetão, já estavam de mira firmada. Sem se ver, se adivinhava. E, nisso, caía uma chuvínha. Caras e roupas se ensopavam. O Liojorge — que estarrecia! — sua tenência no ir, sua tranquilidade de escravo.

Rezava? Não soubesse parte de si, só a presença fatal.

E, agora, já se sabia: baixado o caixão na cova, à queima-bucha o matavam; no expirar de um credo. A chuvinha já abrandava. Não se ia passar na igreja? Não, no lugar não havia padre.

Prosseguia-se.

E entravam no cemitério. “Aqui, todos vêm dormir” — era, no portão, o letreiro. Fez-se o airado ajuntamento, no barro, em beira do buraco; muitos, porém, mais para trás, preparando o foge-foge.

A forte circunspectância.

O nenhum despedimento: ao uma-vez Dagobé, Damastor.

Depositado fundo, em forma, por meio de rijas cordas. Terra em cima: pá e pá; assustava a gente, aquele som.
E agora?

O rapaz Liojorge esperava, ele se escorregou em si. Via só sete palmos de terra, dele diante do nariz? Teve um olhar árduo. A pandilha dos irmãos. O silêncio se torcia. Os dois, Dismundo e Derval, esperavam o Doricão.

Súbito, sim: o homem desenvolveu os ombros; só agora via o outro, em meio àquilo?

Olhou-o curtamente. Levou a mão ao cinturão? Não. A gente, era que assim previa, a falsa noção do gesto. Só disse, subitamente ouviu-se: — “moço, o senhor vá, se recolha. Sucede que o meu saudoso irmão é que era um diabo de danado…”

Disse isso, baixo e mau-som. mas se virou para os presentes. Seus dois outros manos, também. A todos, agradeciam. Se não é que não sorriam, apressurados.

Sacudiam dos pés a lama, limpavam as caras do respingado. Doricão, já fugaz, disse, completou: — “A gente, vamos’embora, morar em cidade grande…” O enterro estava acabado.

E outra chuva começava.

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