Praia do caju – Ferreira Gullar

By | 08/11/2021

Escuta:
o que passou passou
e não há força
capaz de mudar isto.
Nesta tarde de férias,
disponível, podes,
se quiseres, relembrar.
Mas nada acenderá
de novo o lume que
na carne das horas se perdeu.
Ah, se perdeu!
Nas águas da piscina
se perdeu
sob as folhas da tarde
nas vozes
conversando na varanda
no riso de Marília
no vermelho guarda-sol
esquecido na calçada.
O que passou passou
e, muito embora,
voltas às velhas ruas à procura.
Aqui estão as casas, a amarela,
a branca, a de azulejo, e o sol
que nelas bate é o mesmo sol
que o Universo não mudou
nestes vinte anos.
Caminhas no passado
e no presente.
Aquela porta,
o batente de pedra,
o cimento da calçada,
até a falha do cimento.
Não sabes já
se lembras, se descobres.
E com surpresa vês o poste,
o muro, a esquina,
o gato na janela,
em soluços quase te perguntas
onde está o menino
igual àquele
que cruza a rua agora,
franzino assim,
moreno assim.
Se tudo continua, a porta
a calçada a platibanda,
onde está o menino
que também aqui esteve?
aqui nesta calçada
se sentou?
E chegas à amurada.
O sol é quente
como era, a esta hora.
Lá embaixo
a lama fede igual,
a poça de água negra
a mesma água o mesmo
urubu pousado ao lado a mesma
lata velha que enferruja.
Entre dois braços d’água
esplende, a croa do Anil.
E na intensa
claridade, como sombra,
surge o menino
correndo sobre a areia.
É ele, sim,
gritas teu nome:
“Zeca, Zeca!”
Mas a distância é vasta
tão vasta que nenhuma
voz alcança.
O que passou passou.
Jamais acenderás de novo
o lume do tempo que apagou.

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