Se me chamarem diga que não estou – Conto de Rogério de Castro Ribeiro

By | 29/05/2014

Quando nasci, meu pai profetizou:

– Ele vai ser alguém na vida!

Quando fiz um ano, minha mãe disse:

– No próximo aniversário vamos fazer uma festa!

Quando fiz cinco anos, meus pais disseram:

– Você vai ganhar um irmãozinho!

Quando fiz seis anos, minha mãe disse:

– Porquê você é tão mau com seu irmão?

Quando fiz oito anos, minha professora disse:

– De castigo! Tem que escrever mil vezes no quadro negro: “Nunca mais vou falar palavrão dentro da escola” !

Quando fiz dez anos, minha tia perguntou:

– O que fez com sua prima na área?

Quando fiz onze anos, minha tia perguntou novamente:

– O que tava fazendo com seu primo na área?

Quando fiz treze anos, meu pai recriminou:

– Brinco é coisa de menina!

Quando fiz quatorze anos, minha mãe questionou:

– O que faz aí no banheiro que demora tanto?

Quando fiz quinze anos, meu irmão avisou:

– Papai falou que quem usa batom é mulher!

Quando fiz dezesseis anos, meu amigo disse:

– Olha a revista que comprei… é sueca!

Quando fiz dezoito anos, o sargento gritou:

– Olhem pro tamanho do pauzinho dele!

Quando fiz dezenove anos, minha namorada perguntou:

– Você é virgem????

Quando fiz vinte e dois anos, minha mãe comunicou:

– Não quero mais saber do seu pai. Me apaixonei pelo Vinicius.

Quando fiz vinte e três anos, Vinicius, meu ex-melhor amigo disse:

– Só fiquei com sua mãe pra ficar mais perto de você.

Quando fiz vinte e quatro anos, eu disse para minha família:

– Sou gay.

Quando fiz trinta e dois anos, meu parceiro disse:

– Fiz o teste. Deu positivo.

Quando fiz trinta e cinco anos, Jeanette, minha amiga, me consolou:

– Que Jacques descanse em paz.

Quando fiz trinta e oito anos, meu médico disse:

– Negativo. Você não é portador.

Quando fiz quarenta anos, meu pai disse:

– Meu filho, sinto sua falta. Venha morar na minha casa.

Quando fiz quarenta e dois anos, meu irmão disse:

– Papai nunca quis dizer antes, mas sempre se orgulhou de tê-lo como filho.

Quando fiz quarenta e cinco anos, minha tia disse:

– Sua mãe sempre esteve ao seu lado.

Quando fiz cinquenta anos, meu novo namorado disse:

– Não me importa se é soropositivo. Eu te amo.

Quando fiz cinquenta e cinco anos, meu primo disse:

– Obrigado pela dica. Fui chamado para a peça.

Quando fiz sessenta anos perguntei ao meu parceiro:

– Aceito ou não o convite para dirigir a nova peça?

Quando fiz sessenta e dois anos, meu editor disse:

– Seu livro é sucesso de vendas!

Quando fiz setenta e um anos, meu editor disse:

– A crítica acabou com seu livro.

Quando fiz oitenta anos, o médico disse:

– Câncer na próstata.

Quando fiz oitenta e um anos, me despedi:

– Para meus amigos, inimigos, parentes, serpentes, meu irmão e meu parceiro de longa data, meus primos e meus sobrinhos, para os que me apoiaram e também para aqueles que me vaiaram, ao meu sucesso e ao meu fracasso, para Deus e o Diabo, quero que saibam que minha vida foi muito boa, teve momentos tristes, mas também alegres. Tive que superar obstáculos, mas passei por elas sem me ferir. Até minha opção sexual, que escondi por bom tempo, um dia acordei e pensei: Que se fodam aqueles que virarem a cara pra mim. Eles que não são merecedores da minha amizade. E quando fiz isso, me tornei mais feliz. Tudo bem que teve tempestades, mas são das intempéries que vem a bonança. Escrevi livros, dirigi peças, plantei árvores. Só não tive filhos, mas não é sempre que a gente tem tudo o que quer. Só digo com toda sinceridade, sei que meu tempo está chegando no fim, mas ora bolas, como é bom viver!

Quando fiz oitenta e dois anos, não disseram mais nada.

434 Visualizações